Os argentinos vão este domingo às urnas para eleger o próximo presidente num clima de "desesperança", com a inflação anual a chegar aos 140% em setembro e 40% da população na pobreza. "Há mais de 10 anos que a economia não cresce e há uma atribuição de culpa coletiva, para os peronistas e não peronistas", disse ao DN o investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, Andrés Malamud. Não é por isso de estranhar que o favorito à vitória seja um candidato de rutura, Javier Milei. "Nestes dez anos governaram Cristina [Kirchner], [Maurício] Macri e Alberto [Fernández]. Não há ninguém do que ele apelida a "casta política" que seja inocente", explicou Malamud..Quase 36 milhões de eleitores elegem o presidente e o vice-presidente, mas também metade dos deputados e um terço do Senado. O voto é obrigatório para quem tem entre 18 e 70 anos e opcional para os de 16 e 17 anos e os maiores de 70. Para evitar uma segunda volta a 19 de novembro, o candidato à presidência precisa de ter 45% dos votos ou 40% e mais de dez pontos percentuais sobre o principal rival..O economista libertário Milei, da coligação A Liberdade Avança, venceu as primárias de agosto com mais de 30% dos votos. E a maioria das sondagens diz que o representante da direita radical irá repetir essa vitória, com uma percentagem semelhante. A sua proposta mais falada é a da dolarização da economia, acabando com o Banco Central da Argentina, tendo também prometido rever a legalização do aborto - os seus princípios são "vida, liberdade e propriedade"..Malamud explicou contudo que o mais disruptivo de Milei, congressista de 52 anos, é ele não ser nacionalista e ser antipapa. "A sua líder política mais apreciada no mundo é a [ex-primeira-ministra britânica] Margaret Thatcher, que ganhou a guerra das Malvinas. E chamou o Papa Francisco de comunista", lembrou o investigador..Logo atrás nas sondagens, com uma diferença inferior a um ponto percentual em algumas delas, está o candidato da coligação peronista União pela Pátria, o atual ministro da Economia Sérgio Massa. O presidente Fernández optou por não se recandidatar e esteve afastado da campanha, tal como a vice-presidente Kirchner. O advogado de 51 anos representa uma versão mais moderada do peronismo, prometendo reduzir a dívida e fortalecer as reservas do Banco Central para melhorar a economia.."Massa é um milagre, porque é o ministro da Economia da quase hiperinflação mas é um candidato viável. E isso tem duas explicações. A primeira é que ele é muito esperto, mesmo muito hábil. E a segunda é que a oposição é muito incompetente", disse Malamud, que milita num partido da coligação Juntos pela Mudança da conservadora Patricia Bullrich, a terceira nas sondagens - apesar de ter sido segunda nas primárias. As promessas da antiga ministra da Segurança de Macri, de 67 anos, passam por recuperar a "ordem", cortar nos gastos e eliminar impostos sobre as exportações agrícolas.."Este é o paradoxo da política argentina. Quem tem mais possibilidade de ganhar uma segunda volta frente a Milei é Bullrich, mas é a que tem menos possibilidade de chegar à segunda volta", explicou o investigador do ICS. Nas sondagens, o eventual duelo Milei-Massa traduz-se num 41%-39,9%, já um Milei-Bullrich num 32,3%-37,4%. Malamud referiu ainda que não existe a possibilidade de união entre peronistas e conservadores contra o libertário para a segunda volta: "Milei não é visto como uma ameaça à democracia por parte importante das duas coligações. Não está a ser ostracizado.".E se Milei ganhar? Qual será o cenário? "A hiperinflação é evitável, mas não é certo que seja evitada, porque Milei está a procurá-la. Ele tem um projeto de dolarização e, para isso, precisa que o peso não valha nada. E está a conseguir. Por outro lado, se ganhar, vai ter uma híper minoria no Congresso", explicou Malamud. Atualmente tem apenas três deputados, sendo que não se vai renovar agora totalmente a Câmara dos Deputados. "Ele precisa de um terço da Câmara para evitar um impeachment", lembrou o investigador, alegando que "se não tiver uma blindagem, um escudo legislativo, será destituído. É a lei na América Latina". E ninguém - nem o próprio Milei - parece disponível para alianças que permitam essa blindagem..susana.f.salvador@dn.pt