Desempregados juntam-se a atores em textos de Negreiros

Três textos de Almada Negreiros são trazidos à atualidade num espetáculo que se estreia na sexta-feira no Teatro Viriato, em Viseu, e que junta em palco atores profissionais com pessoas desempregadas.
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"Mima-Fatáxa" é o nome do espetáculo concebido pelo artista João Sousa Cardoso, que conta com a interpretação de Ana Deus, Ricardo Bueno e 28 desempregados da região.

A ideia para o espetáculo surgiu da vontade de perceber o que é que três textos com cem anos -- nomeadamente "Os ingleses fumam cachimbo", "Mima-Fatáxa" e "A cena do ódio" - têm de atual.

"A verdade é que, quando os lemos, revemo-nos neste retrato ácido de Portugal", considerou João Sousa Cardoso, em declarações aos jornalistas no final de um ensaio.

A decisão de ter desempregados em palco prendeu-se com o facto de integrarem "um novo grupo social que alastra" em Portugal, pessoas das mais diversas idades e "cheias de qualidades que o país não está a saber acarinhar", justificou.

"Por isso, achámos por bem convidar estes portugueses e portuguesas a virem para o teatro tomar voz e encarnar esta fúria contra a mediocridade vigente que é o Portugal atual", acrescentou.

Segundo João Sousa Cardoso, estas pessoas têm demonstrado "uma capacidade de entrega total" e "uma generosidade imensa".

"Compreenderam imediatamente o porquê dos textos, compreenderam intimamente cada linha do Almada Negreiros. A cada dia que avançamos estão com o texto como se o Almada o tivesse escrito para eles e a pensar neles", referiu, fazendo votos para que o público que na sexta-feira e no sábado assistir ao espetáculo sinta o mesmo.

João Sousa Cardoso explicou que os textos de Almada Negreiros falam muito "da vida de rua, do saltimbanco, do homem e da mulher errante, da modernidade, da vertigem do tempo" e da procura pela "dignidade e a inteireza do ser".

"Estes homens e estas mulheres compreendem isso, porque vivem na pele todos os dias o sentimento de falta de atenção que as instituições, os empregadores, os patrões, os donos de Portugal têm para com eles", sublinhou, acrescentando que são pessoas que se recusam "a ser gente humilhada".

Em palco, pelo meio dos textos, alguns dos desempregados vão poder contar a sua história.

É o caso de Pedro Marques, um engenheiro civil que está desempregado há cerca de dois anos, como consequência da crise em que entrou este setor.

"O primeiro sentimento é de passarmos a pertencer a uma estatística. Sentimos um certo vazio, pode haver sentimentos de falhanços. Mas depois caímos na realidade e achamos que temos que estar preparados para recomeçar a qualquer momento", contou.

Depois de ter visto um cartaz na biblioteca a pedir pessoas desempregadas para participar neste espetáculo, não pensou duas vezes e enviou o currículo.

"A experiência de enviar currículos diz-me que a maior parte deles não são lidos, nem sequer abertos, mas desta vez chamaram-me", gracejou, considerando que quando esta experiência acabar estará "muito mais rico".

Catarina Estrela, de 24 anos, e Gracinda Almeida, de 45 anos, que também dão os seus depoimentos, estão convencidas de que nunca esquecerão esta semana.

"Estou a gostar muito, apesar de ser um bocadinho tímida", admitiu Catarina, que foi empregada de peixaria, depois de refeitório escolar e acredita que o 12.º ano que está a tirar será uma ajuda para arranjar um novo trabalho.

Gracinda Almeida está desempregada desde maio do ano passado, depois de 24 anos de trabalho numa sapataria.

Apesar de toda a frustração que sente por se encontrar nesta situação, tem uma certeza: "esta é uma aventura que eu nunca vou esquecer: os atores, o encenador, a mesa, as garrafas, tudo vai ficar na minha memória como um dos momentos bons do desemprego".

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