Desculpa, Vando!

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Como não sei como te chamas, chamo-te Vando, diminutivo de Vândalo, porque Vândalo não é nome que se chame a ninguém. Tu vandalizaste o meu carro, de sexta para sábado, já passava das três e meia, mas eu é que tenho de te pedir desculpa. Aquilo não é carro que se apresente a ninguém. Nem sequer a uns jovens que querem fazer as coisas que os jovens fazem dentro dos carros dos outros. Não sei quantos eram, acho que dois, um casalinho. Se tu és o Vando, ela é a Vanda.

Presumo que a coisa se tenha passado assim. Estavam os dois a namorar no banco do jardim, a coisa aqueceu, ou o tempo arrefeceu, e viram um carro com cara de ter a porta aberta. E tinha, meia culpa, metade tua, metade minha (tenho de mudar a pilha do comando, mas nunca dá jeito, vocês um dia vão perceber que há coisas que nunca dão jeito). Devia ter verificado se a porta estava bem fechada. Há esta coisa muito portuguesa do amor dentro dos carros, casas pequenas, rigidez de costumes, tudo a viver com os pais, eu sei, é complicado. Entraram e tentaram baixar os bancos, para estarem mais à vontade, compreendo. Mas havia cadeiras de criança em todos os bancos de trás, o banco não ia mais, instalou-se alguma frustração.

E o que é que fizeram? E, Vando, espero que tenhas sido tu. Saíste do carro e arrumaste a cadeira de criança, a mais leve e mais fácil de tirar, a que não tem isofix, que a do isofix é pesada para burro, pegaste nela e colocaste-a, com jeitinho, na terceira fila de bancos. Essa cadeira, a mais leve, era por de trás do banco do condutor, e por isso foi esse que tiveram de baixar. E lá fizeram o que tinham a fazer.

O que tenho mesmo é de te pedir desculpa pelo estado em que estava o carro. Aquele pacote de batatas do MacDonalds com uma batata ressequida no fundo, o cheiro de vomitados acumulados, vocês um dia vão perceber que o cheiro nunca sai bem, por mais que laves, fica sempre um leve travo a queijaria. As pás da praia e a areia, os patins em linha, os ganchos de cabelo, os convites para festas de anos, os Abatons e os Invizimals. Bonecas desmembradas pelo Estado Islâmico. Não excluo um ou outro piolho, já autóctones do próprio carro, para além de uma carga viral próxima da da Serra Leoa. Um carro com história.

Vando, eu percebo que por vezes não dá para aguentar, mas não percebo o que te levou a continuar ali, havia tantos carros, imaculados, com Ambi Pur, sem aquela mancha de uma ameixa do verão passado que não conseguimos tirar do tabliê. Carros que fazem higienização completa regular. A Vanda, tenho a certeza, não gostou disso, meu, ou achou o carro muito sujo para uma coisa mais à séria, ou demasiado familiar para uma coisa mais à maluca, e nenhuma das duas é bom. E por falar nisso, Vando, atividade de risco, rodeado de fraldas e toalhetes, pode ser mau agoiro, acredita puto, sei do que falo.

Mas há mais coisas que não compreendo. Tiraram as coisas todas do porta-luvas (reparaste que temos lá duas lâmpadas, dizem que é obrigatório, apesar de não fazer ideia quando e como usá-las, obrigado por terem-nas deixado no mesmo sítio). Acredito que estivessem à procura de uma caixa de lenços tipo Kleenex para a higiene íntima do casal de Vândalos, desculpem outra vez, mas não temos nada disso, nem sequer uma camurçazinha, macia, dobrada em quatro, nada. Agora limparem-se ao colete refletor é que não, vou ter de comprar outro, que é obrigatório ter um, podiam ter usado o mapa do ACP que já é de 2009, ou as declarações amigáveis, ou as multas da EMEL, juntavam três ou quatro.

Eu não te culpo muito pelo que fizeste a seguir. Depois do fulgor racionalizaste, olhaste em volta, percebeste nos olhos dela que tinhas escolhido mal o carro. E o que fizeste para desviar as atenções?

Desataste a fumar dentro do carro, cumpriste o cliché. Mas não te vou esconder que fica um cheiro desagradável, pelo menos diferente daquele a que nos habituámos. As beatas apanhei-as todas, uma a uma. JPS Duo, puto? Cigarros que no fim deixam um saborzinho a mentol? Por amor de Deus, Vando. A menos que tenha sido a Vanda... também pode ter sido. Desculpa estereotipar, eu sei que isto já não se usa, mas eu esperava que alguém que escreveu, com a cinza da beata, no teto do carro, frases como "FUCK UNITED PENIS 4", fumasse uma coisa mais de homenzinho, um Ventil pelo menos, se é que ainda há Ventil, ou ganzas, vá. Os teus tags no teto do carro são uma infantilidade, Vando, e vão custar-me muito dinheiro. E as miúdas já sabem ler em inglês, e vão perguntar, e eu não vou saber explicar. Uma higienização completa bem feita são mais de cem euros. Mais o colete refletor, uns dez. O carregador de iPhone que levaram, mais uns vinte. Ao todo cento e cinquenta euros. Pelo menos - porque quando a minha mulher ler isto vai querer uma higienização extra, porque eu não lhe tinha dito nada daquilo do colete refletor. Combinamos assim: da próxima vez que eu chegar a casa e me esquecer de fechar o carro e vocês estiverem no banco do jardim, vêm logo ter comigo e conversamos. É que se calhar prefiro pagar-vos uma noite no Ibis. Ou no Tivoli, que são 144euro, vi agora no Booking. Ficam vocês melhor e nós também. Combinado?

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