É um regresso ao passado: os restos mortais de mais de duas mil vítimas do terramoto de 1755 estão a ser estudados por uma equipa de investigadores portugueses. De acordo com a SIC, as obras de restauro do claustro do antigo Convento de Jesus, onde funciona a Academia das Ciências de Lisboa, puseram a descoberto em 2004 uma espécie de vala comum, que desde então é analisada à lupa..Trazidos à luz do dia pelo arqueólogo João Cardoso, os ossos estão guardados no Museu da Academia de Ciências, de que é director Miguel Telles Antunes, que coordena a investigação. A especialista em medicina dentária forense do Instituto de Medicina Legal Cristiana Pereira estudou os dentes e caracterizou os costumes dos nossos antepassados. "Nem toda a população tinha acesso à compra de açúcar e por isso o número de cáries não era grande", afirmou à SIC.."São restos que vão desde esqueletos fetais, que correspondem a mulheres que morreram em estado de gravidez, até pessoas muito velhas, homens e mulheres, tudo misturado", disse à SICo professor Telles Antunes. Para a comunidade científica, as ossadas vêm provar que depois da catástrofe natural surgiu outra de natureza humana. Há vítimas com sinais de homicídio e até de canibalismo..Os maxilares que ainda não foram estudados estão guardados no museu. São dentições de cerca de 200 pessoas, algumas que morreram queimadas. Através delas, Telles Antunes conseguiu determinar a que temperatura ardeu Lisboa depois do tremor de terra: "As temperaturas elevaram-se a mais de mil graus.".O espólio deverá ficar guardado na Academia das Ciências, à espera que alguém queira fazer dele mais do que investigação. No chão do claustro continuam, no entanto, enterradas centenas de vítimas mortais do terramoto de 1755. AM