Desbaratando a neutralidade de Portugal

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Em 2018 conheci um americano especialista em gestão de centros de dados que queria criar e gerir data centres em Portugal. E a principal razão para fazer esse investimento em Portugal residia no facto de Portugal ser um "país neutro". Esclareci-o que Portugal era membro da NATO, ao que ele retorquiu que isso não era importante; "importante é a imagem que o país projeta para o exterior". E deu-me um exemplo; tinha três clientes interessados em vir para o centro de dados que ele criar/gerir na Europa; uma dessas empresas é libanesa, outra é israelita e outra é saudita. Investindo em França - onde o namoravam então para se instalar lá - caso uma dessas empresas ficasse no seu data centre, as outras duas recusariam. Mas em Portugal, dizia, todas aceitam ficar. "Por causa da imagem de neutralidade que o teu país tem". "O teu país dá-se bem com a generalidade dos países, vocês criam pontes, não são agressivos, gerem uma relação equilibrada a nível internacional".

Outro bom exemplo da neutralidade de Portugal foi a primeira eleição de A. Guterres para Secretário-Geral das Nações Unidas. Apresentou-se com a reputação de gestor competente do Alto-Comissariado para os Refugiados - embora o seu dinamismo, pendor executivo e proatividade lhe valessem reticências por parte de muitas potências que gostam de Secretários-Gerais das NU mais dóceis - e nos debates públicos com os outros candidatos ficou claro que era o mais bem preparado e o mais qualificado. Mas a verdade é que já antes dos debates Guterres tinha uma sólida liderança na corrida ao lugar; apesar de grandes potências mundiais apoiarem uma candidata "oficial" búlgara, o certo é que dos 5 votos de África no Conselho de Segurança, 4 estavam assegurados para Guterres e noutras geografias não era muito diferente. Há uma parte dessa eleição que se deve certamente às qualidades de Guterres; mas há uma parte relevante que advém do soft power de Portugal decorrente da imagem projetada de país neutro.

E, todavia, as nossas elites políticas não são capazes de percecionar esta mais valia extraordinária de Portugal. Alguns porque se focam apenas nas vantagens do "eixo euro-atlântico" - que as há - sem ponderar as limitações que também acarreta. Outros porque foram doutrinados na mantra de que Portugal deve seguir algumas potências europeias in saecula saeculorum. E outros porque não têm mundo.

E assim se desbarata o enorme potencial para os interesses do país em reforçar e beneficiar do estatuto de neutralidade que Portugal efetivamente tem.

Isto é tanto mais fulcral quanto nos encontramos num momento de viragem a nível internacional para um mundo multipolar. A existência de vários polos de poder político, económico, financeiro, comercial e militar faz aumentar a relevância internacional de quem tem boas relações com todos os polos. E, entre outro potencial, abre portas a investimento estrangeiro de diversas proveniências em busca de um porto seguro numa era em que as reações à emergência de novas superpotências económicas, financeiras, comerciais se traduz em guerras comerciais, novos obstáculos não tarifários, incerteza monetária, crescente insegurança militar e a "listas negras" de empresas.

Consultor financeiro e business developer
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