Nos dias que correm, bem podemos dar graças por já não estarmos sujeitos aos devaneios demagógicos de uma "geringonça" que agrilhoava o bom senso em nome da sobrevivência política do Executivo. Por esta altura, já se teria conseguido dar cabo do que funciona em nome de delírios ideológicos e justicialismos bacocos..Basta escutar o que se diz por aí sobre "lucros excessivos" e a "urgência de taxar mais" quem consegue resultados positivos pela simples vergonha que é terem-nos, enquanto o resto padece da condição miserável da sua existência. Não importa se o conseguiu por ter visão e capacidade de investir no futuro, quem consegue ganhar dinheiro deve ser punido - é este o espírito, movido pela costumeira inveja que, de tão cega, não vê sucesso sem corrupção, nem admite a possibilidade de um português ser bem-sucedido sem enganar os outros. Em vez de tomarem os êxitos como exemplo e modo de vida, assumem-se mais ou menos declaradamente inimigos do capital e da iniciativa privada e não conseguem deixar de olhar cada conquista com desconfiança e azedume, clamando por solidariedade e justiça quando o que desejam secretamente é que todos sejam condenados ao lodo. Sobretudo os que dele conseguiram escapar..Ouvimo-los diariamente a dizer que existem resultados extraordinários em certos setores fruto das transformações que a sustentabilidade e a digitalização exigem. Argumentam que há resultados inesperados, fruto dos tempos extraordinários de vivemos, primeiro com a pandemia e agora fruto da guerra, mas na verdade confundem lucros excessivos com o facto de considerarem um excesso que haja lucros. E não é ideia confinada na extrema-esquerda; há no próprio PS uma fação de militantes desgostosos por não verem no governo vontade de avançar com o chicote fiscal para cima das empresas..Dizer que há em Portugal lucros excessivos é de rir. A banca, arrasada pela crise financeira durante uma década, ainda agora conseguiu ficar acima da linha de água - e bem vamos precisar dessa almofada que acumulou agora para fazer face a incumprimentos decorrentes do aumento das taxas de juro nos créditos à habitação. Queremos taxar os bancos ou garantir que têm margem para negociar e atrasar pagamentos, como fizeram durante a pandemia?.Os supermercados estão a refletir subidas de preços em toda a cadeia de produção e distribuição e a desfrutar de uma tendência de consumo que ainda não perdeu gás desde que a covid se fez endémica. As energéticas, eternas vilãs, estão a ganhar mais à boleia das renováveis e das margens de refinação, mas perdem brutalidades no gás - fundamental para a produção de energia e cujos valores dispararam nos mercados internacionais. E esses preços não se refletiram nos consumidores de imediato ou sequer na proporção do custo acrescido. Queremos mesmo pôr em risco a descarbonização?.Dirão alguns que outros países europeus não têm pejo em avançar com este tipo de taxas. Mas a esses valerá a pena recomendar uma análise comparada à carga fiscal que Portugal aplica às suas companhias e aos impostos devidos pelas dos parceiros europeus..Pegue-se no IRC, some-se a derrama estadual e a derrama municipal, acrescente-se a tributação autónoma e outras peculiaridades nacionais que carregam no peso das obrigações fiscais a que as nossas empresas têm de dar resposta - no fundo, as taxas extraordinárias que lhes exigimos há anos. São mais de 31% a pesar. É a mais alta taxa estatutária máxima da Comunidade, 10 pontos acima da média europeia, mais alta do que os 29% da Alemanha, os 28% de França, os 27% de Itália..Há depois a carga fiscal sobre o trabalho, que já está muito perto dos 42%, o que nos põe entre os 10 piores da OCDE e uma vez mais quase 10 pontos acima da média dos países-membros da UE (34%). E ainda, a penalizar especificamente as energéticas, temos uma contribuição extraordinária (CESE) criada pela troika e que há uma década é renovada com cada Orçamento do Estado, abatendo nos preços do gás - e somando nos tribunais, onde é contestada desde a sua génese pela Galp, EDP e REN, uma fatura de centenas de milhões de euros que nos cairá em cima se às empresas for reconhecida razão..Vamos taxar o quê, afinal?