O caso do assassinato de Anderson do Carmo de Souza, pastor evangélico de 42 anos, alvo de 30 tiros na madrugada de 16 de junho de 2019, vai finalmente a julgamento, em Niterói, cidade na região metropolitana do Rio de Janeiro. A ré é a viúva da vítima, Flordelis dos Santos de Souza, deputada federal, pastora e cantora gospel de 61 anos, acusada de ser a autora moral do crime. Três filhos biológicos dela e quatro adotivos do casal, uma neta e dois ex-polícias também foram acusados..A sessão, inicialmente marcada para 9 de maio, está agora agendada para segunda-feira, dia 6, embora possa vir a ser adiada outra vez, a pedido da defesa, que aguarda relatório psiquiátrico de alguns dos réus..Naquela madrugada de há três anos, o pastor deu entrada, ainda com vida, no hospital Niterói d"Or, mas acabou por morrer em consequência dos ferimentos. Segundo os peritos da Polícia Federal brasileira, Anderson foi atingido por 30 tiros, a maioria dos quais na região pélvica, quando chegava de automóvel a casa, em Pendotiba, nos arredores de Niterói, por volta das 4h00 da manhã..Flordelis, que o acompanhava, contou às autoridades que o crime pareceu um roubo seguido de morte, perpetrado por assaltantes com toucas para não serem identificados pelas câmaras de segurança da residência..Mas logo a 20 de junho, Lucas dos Santos do Carmo, 18 anos, filho adotivo do casal, confessou ter sido um dos autores materiais ao ser confrontado com imagens das câmaras que o identificavam apesar da touca. Em seguida, acusou Flávio dos Santos, 38 anos, filho biológico de Flordelis e enteado de Anderson, de também ter participado e admitiu ter comprado a arma, encontrada mais tarde na casa da deputada. Os dois foram presos no velório de Anderson e já foram condenados - Flávio a 33 anos e Lucas a sete e meio, por ter colaborado..Nos dois meses seguintes, a polícia trabalhou com a hipótese de mais elementos da longa família Souza - três filhos biológicos dela e 52 filhos adotivos de ambos, além de netos - estarem envolvidos no crime..A motivação, ainda segundo a investigação, seria financeira. Flordelis estava, há já alguns anos, incomodada com o controlo exercido por Anderson da igreja evangélica fundada pelos dois, o Ministério Flordelis. Além das finanças, o pastor queria determinar o conteúdo das pregações e as roupas da mulher, que acusava de ser excessivamente gastadora..Uma testemunha de dentro da família, cuja identidade a polícia não revelou, contou, entretanto, que as tentativas de assassinato de Anderson já duravam há meses. Segundo ela, Flordelis e três filhas colocaram repetidamente cianeto na comida do pastor que, por oito vezes, precisou de ser hospitalizado com fortes dores estomacais. Simone, filha biológica da deputada que namorara Anderson ainda antes de este se casar com Flordelis, pesquisou por "cianeto" na internet, apurou a investigação..Noutra ocasião, uma dessas filhas, disse a testemunha, já oferecera 10 mil reais [cerca de dois mil euros, ao câmbio atual] a Lucas para matar o pai, conforme relatado em reportagem do portal G1..A polícia descobriu, paralelamente, uma mensagem de WhatsApp de Flordelis a dizer que o divórcio de Anderson não seria solução por a desmoralizar perante Deus e a sua igreja - daí a opção, menos grave aos seus olhos, de ficar viúva, revelou o jornal Metrópoles. "Fazer mais o quê? Se separar eu não posso, porque não posso escandalizar o nome de Deus. Isso não!", disse a André Luiz Oliveira, conhecido por Bigode, filho adotivo do casal, entretanto casado com Simone, a filha biológica da deputada, que exercia as funções de tesoureiro na igreja e de secretário parlamentar na Câmara dos Deputados..Flordelis, assegura ainda a Polícia Federal, chegou a prometer compensação financeira ao filho Lucas, se ele assumisse sozinho a autoria do assassinato. A outro filho, Luan, ofereceu uma viagem aos EUA em troca de um depoimento às autoridades favorável a ela. E forjou uma carta em que supostamente Mizael, mais um filho, assumia o crime. "Não era uma família e sim uma organização criminosa", resumiu o delegado de polícia Allan Duarte ao jornal Extra..O crime de organização criminosa é, aliás, um dos quatro de que são acusados os 11 réus. Eles respondem ainda por homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio, falsidade ideológica e uso de documento falso..Flordelis e Anderson conheceram-se em 1993, ela com 32 e ele com 16, num culto evangélico. Ela tinha três filhos de anteriores relações, além de quatro crianças adotadas, às quais ele se juntou na mesma casa, na favela do Jacarezinho, no Rio. No ano seguinte, já depois de Anderson ter namorado Simone, filha biológica da futura mulher, ele e Flordelis casaram-se. Juntos, adotaram mais 48 crianças..Os investigadores chegaram à conclusão, através de depoimentos, que os sete filhos de "primeira geração" tinham direito a quartos individuais, acesso a frigorífico e despensa, enquanto os da "segunda geração" dormiam em quartos coletivos e comiam sempre salsichas, arroz e massa..A cantora chegou a ser acusada de sequestro mas, depois de provar nos tribunais que protegia as crianças adotivas da droga e da prostituição, ganhou atenção positiva dos media, ao ponto de atores consagrados da TV Globo, como Deborah Secco, Bruna Marquezine, Letícia Spiller ou Marcello Antony, terem participado de um filme em sua homenagem - Flordelis, Basta Uma Palavra Para Mudar. Em simultâneo, lançou onze álbuns, entre os quais o disco de platina Questiona ou Adora, e entrou na política. Em 2018, foi a mulher mais votada do Rio nas eleições para a Câmara dos Deputados, que após o crime suspendeu o seu mandato, pelo PSD, que a meio das investigações a expulsou..Apoiante de Bolsonaro e amiga da primeira-dama, Michelle, e da ministra dos Direitos Humanos, a então deputada foi fotografada ao lado do presidente da República e de Anderson Carmo, em Brasília, no jogo de futebol entre CSA e Flamengo, de 12 de junho de 2019, quatro dias antes do crime..dnot@dn.pt