Depois do futebol americano, a 'Tebowmania' chegou ao beisebol

Tim Tebow, que passou pela NFL como uma estrela de brilho intenso e fugaz, tenta agora reinventar-se como jogador de beisebol nos New York Mets. Será só uma jogada de marketing?
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Michael Jordan tentou-o (com assinalável fracasso) e não foi o único: há uma lista infindável de estrelas de um desporto que decidiram experimentar outra modalidade. Contudo, poucas terão gerado fenómenos de popularidade como Tim Tebow, o ex-jogador de futebol americano que agora transferiu a Tebowmania para os estádios de beisebol (e para os cofres dos New York Mets...).

Tebow, de 29 anos, habituou-se a desafiar expectativas. Nasceu saudável, apesar de a mãe ter sido aconselhada a abortar (por existir um sério risco de malformações no feto). Tornou-se uma estrela cadente, de brilho intenso e fugaz, na NFL (National Football League, liga de futebol americano dos EUA), quando não parecia ter quaisquer características que o fizessem sobressair. E, agora, volta a desafiar o destino: começou anteontem a treinar na equipa secundária dos New York Mets, equipa da MLB (Major League Baseball, a liga norte-americana).

Exemplos históricos

Um caso deste género pode ser raro em Portugal - onde há registos de poucos desportistas polivalentes, como Jesus Correia (hóquei em patins e futebol), Espírito Santo (futebol e atletismo) ou, mais recentemente, Ricardo Pereira (que trocou as luvas de guarda-redes pelos tacos de golfe). No entanto, é algo comum a muitas estrelas do desporto nos EUA, que após uma carreira bem-sucedida num campo tentam a sorte noutro. Fizeram-no Bob Hayes (atletismo e futebol americano), Marion Jones (atletismo e basquetebol) ou Michael Jordan (basquetebol), todos na senda do pioneiro Jim Thorpe, um dos mais versáteis atleta de sempre (profissional de futebol americano e basquetebol, nas décadas de 1910 e 1920, após se ter sagrado campeão olímpico de pentatlo e decatlo).

A ligação entre basebol e futebol americano - no desporto universitário dos Estados Unidos, há quem pratique ambas as modalidades - tornou-se frequente. Muitos jogadores passaram por ambos os campeonatos, tendo como referência Deion Sanders, o único homem que participou nas World Series e no Super Bowl (finais nacionais dos dois desportos) e que conseguiu um home run e um touchdown na mesma semana (jogou em simultâneo na MLB e na NFL de 1989 a 1995). No entanto, isso não diminui o ceticismo em torno de Tim Tebow.

O antigo quarterback dos Denver Broncos arrasta multidões. O início dos treinos da equipa secundária dos Mets - habitualmente assistido apenas por familiares e amigos dos jogadores - tornou-se uma romaria de fãs que querem acompanhar a nova etapa do ex-jogador de futebol americano, que também é comentador televisivo da modalidade.

Embora o diretor-geral dos Mets, Sandy Alderson, já tenha vindo garantir que o negócio Tebow "não é uma jogada de marketing ou algo do género", a equipa já começou a lucrar com a contratação (por um ano, com contrato de minor league - cerca de 40 mil dólares anuais - mais 100 mil dólares de potenciais bónus). As camisolas dos atletas da equipa secundária não costumam ser postas comercializadas... mas a de Tebow já é das mais vendidas da loja do emblema nova-iorquino.

Tim Tebow diz-se "empolgado como uma criança" e tenta afastar os holofotes e o estatuto de estrela. "Quero que treinadores e colegas de equipa saibam que sou apenas mais um a tentar jogar, melhorar e aprender, do mesmo jeito que eles", aponta. Mas é difícil ser-se "apenas mais um" quando se tem colado à pele um fenómeno de culto (talvez com tantos críticos como seguidores...) como a Tebowmania.

Um percurso de ascensão e queda

O conceito nasceu em 2011, quando Tim Tebow comandou a redenção de uns Denver Broncos caídos em descrédito, que caminhavam para a sexta época seguida fora dos play-off da NFL. O quarterback - então um ilustre desconhecido, opção secundária - liderou a equipa numa série de sete vitórias em oito jogos, quase sempre com reviravoltas minutos finais. A equipa apurou-se. E, à conta do seu perfil singular - de evangélico devoto, que levava a fé para o terreno de jogo, usando inscrições de versículos da Bíblia e celebrando touchdowns de joelho no chão, em pose de meditação -, Tim Tebow tornou-se um raro fenómeno de popularidade, tão admirado quando satirizado.

Contudo, o sucesso foi fugaz: em 2012, o quarterback acabou transferido para os New York Jets e a estrelinha apagou-se: de dispensa em dispensa (não foi além da pré-época nos New England Patriots, em 2013, e nos Philadelphia Eagles, em 2015), Tebow não voltou a jogar na NFL.

Agora, o atleta tenta reencontra-se com a outra paixão da juventude - jogou basebol até entrar para a universidade e chegou a estar na lista dos olheiros dos Los Angeles Angels (da MLB). "Bater umas bolas é das coisas que mais prazer me dão no desporto", garante. E nem o aceno de uma eventual nova oportunidade no futebol americano o faz desviar-se. ""Agora, jogo beisebol": é o que vou responder se alguém da NFL me contactar. Agora, faço parte da família Mets", conclui Tebow. O tempo dirá se é só uma jogada de marketing condenada ao fracasso (como a passagem de Michael Jordan por uma equipa satélite dos Chicago White Sox, em 1994) ou se a Tebowmania vai continuar.

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