Demjanjuk renuncia a falar em tribunal

O presumível criminoso de guerra Ivan Demjanjuk abdicou hoje de usar a palavra no Tribunal de Munique, onde está a ser julgado pela acusação de cumplicidade no assassínio de 27.900 judeus no campo de extermínio nazi de Sobibor.
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Deitado numa maca na sala de audiências, Demjanjuk, 89 anos, ouviu a leitura da queixa-crime pelo promotor público sem mostrar qualquer emoção, de olhos fechados, e recusou o direito de usar da palavra em seguida, para se declarar culpado ou inocente.

Segundo a acusação, Demjanjuk, de origem ucraniana, ajudou a enviar para as câmaras de gás de Sobibor, na Políonia ocupada, pelo menos 27.900 judeus, quando foi guarda do campo de extermínio, em 1943, após ter sido capturado pelo exército nazi, como soldado soviético.

O advogado de Demjanjuk, Ulrich Busch, apresentou vários requerimentos, um deles para anulação ou pelo menos para suspensão do processo, mas todos foram rejeitados pelo colectivo de juízes.

O processo torna-se mais demorado porque todas as declarações tem de ser traduzidas para ucraniano, para Demjanjuk tomar conhecimento, e também para inglês e holandês, por causa das 23 vítimas ou familiares de vítimas do nazismo que se constituiram em acusação particular.

Busch alegou que Demjanjuk já respondeu pelas acusações de ter sido verdugo dos prisioneiros judeus em Sobibor perante um tribunal israelita, lembrando que ninguém pode ser julgado duas vezes pelo mesmo crime.

Demjanjuk foi julgado e condenado em Israel à morte pela forca, em 1988, mas libertado em 1993, depois de se ter verificado que o tinham confundido com outro ucraniano que foi guarda do campo de concentração de Treblinka.

A justiça israelita abdicou, no entanto, de o julgar pelo que se passou em Sobibor, considerando as provas contra Demjanjuk insuficientes.

O advogado de defesa alegou ainda que nenhum tribunal alemão tem competência para julgar o seu constituinte, porque este "que não exerceu quaisquer cargos na Alemanha".

Busch disse ainda que os nazis também programaram a matança em larga escala de soldados soviéticos que fizeram prisioneiros, depois de na sessão de abertura, na segunda-feira, já ter falado de "um gigantesco Holocausto" sobre  os mesmos soldados.

Esta comparação com o Holocausto, que custou a vida a seis milhões de judeus durante a II Guerra Mundial, e a alegação de que Demjanjuk foi uma vítima dos nazis, "tal como os prisioneiros judeus", indignou os antigos prisioneiros de campos de concentração e seus familiares presentes no tribunal.

Sobibor fazia parte do complexo de três campos de concentração - em conjunto com Treblinka e Belzec - erguidos pelos nazis na Polónia ocupada para acelerar o extermínio dos judeus, no âmbito da chamada "solução final".

Em 1942 e 1943, foram assassinados milhões de judeus nestes três campos de extermínio.

Demjanjuk, que só pode comparecer em tribunal dois períodos de hora e meia por dia, por recomendação médica, devido à sua avançada idade e precário estado de saúde, incorre na pena máxima na Alemanha, 15 anos de prisão, se o tribunal o considerar culpado.

O julgamento tem agendadas 35 audiências, e a sentença deverá ser lida em Maio de 2010.

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