Delphi recorda fecho da Renault
São poucos os trabalhadores da Delphi, na Guarda, que restam dos tempos da Renault. Grande parte estão reformados. "Ainda há alguns, mas são poucos", diz Júlio Balreira, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas e Metalomecânicas. Para esses, a decisão anunciada há uma semana pela Delphi de suprimir 500 postos de trabalho não é nova. À memória vem o ano de 1989, e que agora parece que aconteceu ontem, quando a Renault anunciou a intenção de encerrar a fábrica. Na altura, a unidade dava emprego a milhares de pessoas numa região muito marcada pela interioridade.
A decisão de a Renault instalar uma fábrica na Guarda, junto à estação dos comboios, em 1965, deveu-se a uma orientação política conhecida pela famosa "Lei da Montagem", que impunha a montagem em Portugal de veículos destinados ao mercado doméstico, passando ainda pela restrição da importação de veículos completamente construídos. Esta lei levou à instalação de vários construtores. Em 1970, operavam em Portugal 18 unidades, responsáveis pela montagem de 73 180 unidades. Também a indústria de componentes florescia. Mas a Revolução de 25 de Abril de 1974 alterou o tecido industrial e as fábricas começaram a fechar. A unidade da Guarda manteve-se, mas por pouco tempo.
Em 1989, a Renault vende a fábrica aos alemães da Reinshagen, ligados à General Motors (GM). Na altura, os baixos salários praticados em Portugal ainda atraíam grande número de multinacionais. Mas não eram só custos laborais, eram também os incentivos financeiros que o Governo dava.
A presença da GM nos componentes para o sector automóvel começou a fazer-se sentir através da Cablesa, que substituiu a Renault na Guarda, com a passagem da montagem automóvel para a produção de cablagens. Depois veio a Delco Remy e finalmente a Delphi, quando a GM colocou na Bolsa a sua subsidiária dos componentes para o sector automóvel.
O curioso da evolução da fábrica da Guarda da montagem automóvel para a produção de cablagens é que os trabalhadores mantiveram os laços com a sua actividade original - a metalúrgica - e continuaram a ser representados pelo sindicato dos metalúrgicos.
A Cablesa ficou responsável por três fábricas em Portugal - Carnaxide, Linhó e Guarda. A primeira encerrou em 2002 e a segunda o ano passado. O futuro da Guarda é uma incógnita.
Os problemas financeiros do ex-líder mundial do automóvel GM afectaram a sua associada Delphi, que nos Estados Unidos pediu a protecção dos credores, ao abrigo da lei de falências. A presença do grupo americano faz-se sentir em Ponte de Sor, que arrancou através da Inlan, e da fábrica do Seixal, com a Delco Remy, inaugurada em 1993. A unidade de Braga, comprada em 2003 à Grundig, foi a única adquirida em Portugal pela Delphi.
As restantes foram integradas na Delphi depois de a GM decidir vender as áreas que não tinham a ver com o seu core business. |

