2016 foi o ano dos políticos não tradicionais: de Donald Trump, que vai comandar os EUA e o mundo a partir de Washington, a Coroca, o nome de guerra de Francisca da Silva, a nova vereadora da anónima Manacapuru, no Amazonas, Norte do Brasil. De Trump não há nada a acrescentar aos quilómetros de texto gastos com ele nos últimos meses. De Coroca falaremos mais à frente..Para já concentremo-nos no apresentador de O Aprendiz, a versão brasileira do reality show americano The Apprentice, o empresário João Doria, que tal como Trump é um dos grandes campeões eleitorais de 2016, milionário, homem de negócios e político não tradicional..Doria, que pertence ao PSDB de Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Aécio Neves e do seu padrinho político Geraldo Alckmin, venceu as eleições para a prefeitura de São Paulo à primeira volta - facto inédito - superando os experientes Fernando Haddad (do PT de Lula e Dilma), Marta Suplicy (do PMDB de Temer e de Eduardo Cunha) e Celso Russomanno (do PRB da IURD) com o discurso "eu não sou político, sou gestor"..No primeiro dia após a tomada de posse (segunda-feira), o empresário que fez fortuna na área da publicidade mascarou-se de gari (como são chamados os varredores de rua no Brasil) e, de vassoura na mão e sorriso na boca, afugentou o lixo perante repórteres fotográficos incrédulos com uma ação que deu nova medida à palavra populismo..Também na segunda maior cidade do país, Marcelo Crivella, que suspendeu as suas duas atividades principais, ser bispo da IURD e cantor gospel, para assumir a prefeitura do Rio de Janeiro, é uma bofetada na cara dos políticos tradicionais..No meio do discurso de posse, lido no domingo num tom pastoral-litúrgico, não se pense que o novo prefeito tenha citado Montesquieu, Churchill ou o brasileiro Ulisses Guimarães, cliché de políticos no mundo inteiro e no Brasil em particular. Nada disso: limitou--se a uma citação (qualquer coisa sobre Deus e família) de Edir Macedo, o líder da IURD e seu tio por parte da mãe..Em Belo Horizonte, a cidade com a terceira maior concentração populacional do Brasil, chegaram à segunda volta um ex-presidente e um ex-guarda-redes do popular Atlético Mineiro. Talvez porque tenha levantado mais alto a bandeira antipolítica durante a campanha, ganhou Alexandre Kalil, o ex-presidente, que entretanto já nomeou quatro dos seus colaboradores mais próximos no Atlético para as principais secretarias da prefeitura..Porque os eleitores estão fartos de mais do mesmo, porque vivemos na tal era digital, descartável e pós-verdade, porque os prejuízos da globalização baralharam os dados ou por todas estas causas e mais umas quantas outras, 2016 não foi, de facto, o ano dos políticos tradicionais, como a ascensão chocante de Trump é o exemplo mundial mais eloquente..E porque a maioria dos políticos foi salpicada pela lama levantada pela Operação Lava-Jato, no Brasil, o país onde o palhaço Tiririca é deputado desde 2010 porque com ele "pior do que está não fica" e Carareco, o rinoceronte do zoo de São Paulo, chegou a cem mil votos numa eleição nos anos 50, esse efeito chegou ainda mais intenso. E mais longe..Até Manacupuru, no Amazonas. Lá, os eleitores apearam não só o prefeito Jaziel Tororó, que pertence ao mais tradicional e viciado dos partidos brasileiros, o PMDB, como 90% dos velhos vereadores..Com apenas um cartaz afixado e um custo de campanha de 155 reais [44 euros], foi eleita a alcoólica Francisca da Silva, conhecida por Coroca, 32 anos de vida, 21 dos quais a prostituir-se no cais do porto da cidade por dez reais (menos de três euros)..Entrevistada pelo jornal Folha de S. Paulo, admitiu ter-se esquecido do partido pelo qual se elegeu, chorou ao falar dos três filhos, com os quais vive numa casa de paredes de madeira e telhado de zinco e, como o novo prefeito do Rio, buscou uma referência bíblica, comparando-se a Maria Madalena, "a prostituta a quem Jesus deu uma oportunidade". Entre as promessas, garantiu cuidar do lixo, uma epidemia na cidade. Mas, sóbria e séria, não precisou de se vestir de gari para o anunciar..* Jornalista do DN em São Paulo