De tanto gritar lobo...

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Quando Schäuble afirmou que Portugal viria a precisar de novo resgate - ainda que o tenha desdito minutos depois e mais tarde esclarecido o "lapso": afinal o que queria dizer era exatamente o contrário -, os juros da dívida portuguesa subiram em todos os prazos. No mesmo dia, Espanha, Itália, Irlanda e França batiam mínimos históricos, mas para Portugal os custos de financiamento subiam. A história tem-se repetido. Em janeiro, ainda antes de se pronunciar oficialmente sobre o Orçamento do Estado de Costa e Centeno, a Comissão Europeia fez saber que estava inclinada a chumbar as contas, que os valores inscritos eram demasiado otimistas e que havia ali erros técnicos graves, levando os juros da dívida a subir 50 pontos em dois dias e o risco a voltar a máximos de 2014. Semanas depois, a mesma CE dava luz verde aos planos do governo - ainda que mandando recado pelo seu vice-presidente, Dombrovskis: há riscos de incumprimento, o melhor é irem preparando mais medidas. A mensagem foi repetida vezes sem conta e pôs o país a falar em planos de B a Z, que o governo sempre garantiu não existirem porque tudo estava a correr bem. E como nada de apocalíptico aconteceu - até a DBRS manteve o rating, ao contrário do que alguns anunciavam, permitindo-nos manter o acesso à bazuca do BCE -, os mercados começaram a sossegar. Portugal voltou a financiar-se a preços reduzidos, apesar do arrefecimento da economia europeia e, nas últimas semanas, dos efeitos (antecipados e reais) do brexit, conseguindo até fechar junho com a taxa a dez anos abaixo dos 3%. O prémio de risco da nossa dívida, porém, subiu 13 pontos, para 304,8. No mesmo período, Espanha recuou 19 pontos para 116 e Itália manteve--se nos 122. O que significa que o mercado tem mais medo que surjam problemas em Lisboa do que em Madrid, que está há mais de seis meses sem governo, ou Roma, que arrisca perder Renzi no referendo às reformas constitucionais, depois do verão, e precisa de 40 mil milhões de ajuda europeia para limpar os bancos. Por muito que se discorde das soluções de Costa e Centeno ou das políticas promovidas por um governo que precisa de manter próximos os partidos à sua esquerda, esta leitura é no mínimo irreal. Ontem, Bruxelas voltou a lançar um alerta: Lisboa tem três semanas para apresentar medidas que garantam que respeitará as metas neste ano. Implícita, a ameaça do castigo por não ter cumprido o limite do défice em 2015. Acontece que, cada vez que alguém grita lobo, o risco de a economia derrapar aumenta. Se ele chegar a aparecer, também será culpa de Bruxelas.

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