Quando se diz a uma surfista da elite mundial que uma das primeiras mulheres praticantes da modalidade em Portugal surgiu apenas há trinta anos e aprendeu a praticar num colchão de praia insuflável, não é de estranhar que a reacção seja um sorriso trocista, de quem acha que se deve estar a contar uma estranha piada - afinal, tanto no principal campeonato feminino do mundo como no de acesso, a maioria das surfistas nasceu num país onde o mais estranho seria não fazer surf, dada a longa tradição que, muitas vezes, é de família..Para Teresa Abraços, a tradição é quebrar estigmas desde que há 28 anos resolveu fazer surf. Teve então de lutar contra o preconceito de que surfistas eram os homens, as mulheres ficavam na areia a observar. Agora luta contra o preconceito de que o surf é para jovens - e já organizou uma aula para mulheres com mais de 40 anos para mostrar que este desporto é mesmo para todas as pessoas, independentemente do sexo e da idade. Para Cannelle Bulard, Nag Melamed, Courtney Conlogue ou para a mais veterana e campeã do mundo Sofia Mulanovich, histórias de quebrar barreiras entre homens e mulheres no surf não fazem sentido, tal como haver uma idade para surfar: o limite não existe enquanto se divertirem, o que para estas atletas é sinónimo de «para sempre»..A primeira luta de Teresa foi coroada de sucesso: hoje, Portugal tem várias escolas de surf e muitas mulheres nos campeonatos, num país que tem óptimas condições naturais para a prática deste desporto. Para ver resultados da batalha que trava actualmente contra a questão da idade-limite terá de se esperar mais uns anos, mas a julgar pelo elevado número de alunas que as suas aulas congregam deverá ser mais um sucesso. Teresa tornou-se uma referência para as gerações que se seguiram e fica contente ao ver que as surfistas portuguesas de hoje se aproximam das melhores do mundo. .Carina Duarte, Maria Abecasis e Francisca Santos são três nomes de uma geração que mostra ter capacidade para estar entre a elite mundial. O passo que falta para o surf feminino português, depois de o masculino contar com Tiago Pires. Para este trio, a opção pelo surf já contou com o caminho aberto por Teresa Abraços, apesar de enfrentarem dificuldades comuns a muitos desportistas do país: falta de dinheiro e de apoios..Teresa, hoje com 44 anos, não só abriu a porta do surf feminino como insiste em acompanhar as novas gerações, sem pensar como gostaria de não ter sido ela a iniciar o processo, mas sim a aproveitá-lo: «Abrir as portas foi muito bom. Gosto de saber que contribuí para alguma coisa», diz à nm. Pode ter sido bom, mas não foi fácil. Quando Teresa resolveu experimentar o surf teve de o fazer com um colchão de praia insuflável. Daqueles que se usam para boiar relaxadamente na água. «Enchia-o bastante para não ir tanto ao fundo», recorda, a rir. .A única coisa de que se arrepende é de não ter guardado o colchão que durante um ano serviu de prancha. Sim, Teresa conseguiu colocar-se de pé: «Disseram-me que se conseguia ficar de pé num colchão então era porque tinha talento.» Numa viagem ao Brasil para ir ver os tios comprou a sua primeira prancha - na altura não havia muita escolha em Portugal e lá eram mais baratas. Não demorou muito a começar a competir: «Tive de aprender por mim. Não tinha referências», recorda, acrescentando que teve de ultrapassar alguns olhares menos amigáveis de homens que a viam na água a surfar enquanto todas as mulheres ficavam na areia..Rainha do Peru.Para Sofia Melanovich, estranho é quem fica na areia. A peruana tem uma história típica das principais surfistas mundiais ou das que são candidatas a lá chegar. Começou a surfar aos 9 anos - até pode parecer tarde, comparando com outras que se iniciaram ao 4, como Courtney Conlogue ou Nag Melamed. Toda a família praticava surf, fez uma viagem ao Havai aos 14 anos e ao ver as profissionais disse que também queria ser uma delas..Apesar de só ter 28 anos e de já ser uma das veteranas no circuito, Sofia também sabe o que é abrir portas. Foi com Sofia que a competição ganhou mais significado no seu país. Foi campeã do mundo em 2004, tornando-se a rainha do Peru. Até teve honras de um filme sobre a sua vida: «Foi especial para mim ser tratada assim e uma honra ter feito o surf ainda maior no Peru e na América Latina», fez questão de sublinhar à nm. Diz que nunca pensou em ser um exemplo, pois confessa que fez tudo no momento, tudo foi acontecendo. E é assim que continua a viver: «Aproveito o momento. Não estou preocupada em voltar a ser campeã e muito menos em tentar acompanhar a evolução no surf feminino, que está cada vez melhor. O nível é muito elevado, há mulheres a dar espectáculo. Esta nova geração é muito boa e eu nem sei se quero tentar acompanhá-la», diz, com o sorriso de quem está satisfeita por tudo o que já alcançou..Filha domina na água, a mãe fora dela.Courtney Conlogue é uma das surfistas que andam a impressionar com as suas manobras. Lidera a nova geração (literalmente, já que está em primeiro no ranking de acesso à elite mundial) e recebe muitos elogios das mais velhas que já a vêem como potencial campeã do mundo nos próximos anos. A norte-americana já tem algo que a distingue da concorrência. No que diz respeito à família, a mãe já ganhou a alcunha de coolest mom on tour, ou seja, «a mãe mais fixe do campeonato»..Tracy não sabe por que a classificam assim. Talvez por tentar apoiar Courtney. A filha não tem dúvidas sobre a razão da distinção que a deixa orgulhosa da mãe: «A minha mãe e o meu pai ensinaram-me a perseguir os meus sonhos. A mãe apoia-me em tudo.» Mas então o que faz a mãe? «Cozinho, conduzo e trato da logística.» Tracy tenta simplificar, mas esta mãe fixe faz muito mais por Courtney e pelos outros dois filhos, que também praticam surf, embora o façam apenas por divertimento. Tracy deixou o trabalho como corretora da bolsa para estar com os filhos (ia perder os melhores anos a pagar a pessoas para tomar conta deles «e isso não podia ser»), incutiu-lhes o espírito de viajar («é verdade quando dizem que os norte-americanos não viajam, eu só tirei o passaporte aos 45 anos e a minha primeira viagem foi ao Brasil com a Courtney, que foi lá competir) e a única coisa que exigiu aos três foi trabalharem «para serem pessoas diversificadas, que não se concentrassem apenas numa coisa, porque se alguma coisa corre mal é bom ter algo mais»..Com Courtney é assim mesmo. Quer ser campeã do mundo, quer inspirar outras mulheres, mas o que não falta são planos B, pois praticou natação, atletismo, artes marciais. Desde que envolva desporto, está tudo bem para a norte-americana, apesar de também ter talento para as artes, como desenho, e até pertenceu a um coro. Mas o surf foi a profissão eleita e Courtney ainda se lembra da primeira vez que competiu: «Baralhei-me com as prioridades e tinha as outras surfistas a refilarem comigo. Mas foi óptimo! Adorei!».Só há um senão nesta relação mãe-filha: se Courtney é uma das surfistas mais talentosas do momento, se toda a família faz surf (o pai foi quem passou «o bichinho»), porque é que Tracy não vai também para a água? «A mãe gosta mais de ver», explica Courtney. Tracy confirma que já tentou e até se colocou em pé na prancha: «Mas já parti um dedo do pé e fiquei com um olho negro, já me lesionei mais do que a Courtney.» Talvez uma aula com Teresa Abraços a faça mudar de ideias, até porque Portugal vai ficar na memória das duas: Courtney venceu a competição de seis estrelas realizada em Junho no Guincho..Portugal mesmo especial.Cannelle Bulard tem uma característica que a torna popular no surf: está sempre a sorrir. Quando se fala de Portugal parece sorrir ainda mais. Nasceu nas ilhas Reunião, tem uma natural ligação a França e desde o ano passado começou a estabelecer uma com Portugal. Venceu quatro vezes a campeã do mundo Stephanie Gilmore num heat em Peniche, na etapa a contar para o Mundial, o que lhe valeu uma atenção mediática a que não estava (e ainda não está) habituada. Tornou-se amiga de várias surfistas portuguesas e até arranjou um amigo especial que, a muito custo, lá admitiu ser seu namorado: Vasco Ribeiro, uma das grandes promessas do surf nacional. «Sim, é verdade, gosto mesmo deste país.» Cannelle já vai dizendo umas palavras em português. Uma entrevista em português? «Este ano talvez seja cedo, tenho de aprender mais», conta, sempre com o tal sorriso. Cannelle tem mais pormenores que a diferenciam. Um, em particular, surpreendente para quem aspira a estar entre as melhores do mundo: «Comecei a surfar com o meu pai e com o meu irmão mais velho, mas não gostei.» E lá vem uma gargalhada: «Verdade. Foi quando voltei para as ilhas Reunião [antes estava em França] e vi todas as raparigas a surfar que fiquei interessada. Então também quis ganhar provas. Nessa altura passei a adorar.».Admite que foi por imitação que começou, mas agora quer ser original. Ainda que aos 17 anos pense em divertir-se e aproveitar todos os momentos que está a viver nos países tão diferentes que vai conhecendo, Cannelle é vista como mais um talento a ter em conta. Ganhar está-lhe no sangue: «Comecei a competir com o meu irmão e queria sempre ganhar-lhe. Sempre treinei com ele e acho que beneficiei de treinar com rapazes. Eles são melhores do que as raparigas. Mas atenção - já não há tanto machismo e as raparigas estão cada vez melhores.» E para concluir : «Quero chegar a número um do mundo.».Só não chora dentro de água.Cannelle tem a concorrência assumida de Nag Melamed. Esta havaiana tem objectivos bem definidos: ser campeã do mundo e consolidar o Havai como local das melhores surfistas - apesar de ser uma das mecas do surf, o país só tem três campeões desde 1977, a última das quais Carissa Moore, que venceu o Mundial de 2011, vinte anos depois de Margo Oberg ter levado um campeonato para o Havai..Ao contrário de Cannelle, Nag adorou o surf desde que os pais a puseram numa prancha pela primeira vez. «No Havai é impossível não começar a surfar. O oceano está mesmo ali e não há muito mais para fazer. Seria esquisito não surfar, com toda a família a fazê-lo», conta, acrescentando: «Eu só podia dar em surfista. Nasci numa banheira, passava o tempo dentro de água porque sempre que me tiravam desatava a chorar e só parava quando me punham lá outra vez. Era onde eu pertencia. Onde eu pertenço. E tenho ainda o nome, que significa "nadar" em francês.».Competir acabou por ser um passo natural, e realça como o surf feminino está cada vez melhor. «Ainda estou a divertir-me, mas para o ano vou concentrar-me em qualificar-me para o Mundial. A Carissa [Moore], a Sally [Fitzgibbons], a Stephanie [Gilmore], elevaram o surf feminino para outro nível. As raparigas estão cada vez melhores e os patrocinadores vão aparecendo mais, assim como o público. As miúdas estão mais confiantes», salienta. Nag admite que gostaria de ser um exemplo a seguir por outras raparigas..O futuro pós-competição.São jovens e estão mais concentradas no surf do que noutras alternativas de vida. Têm dificuldade em imaginar o que poderão fazer quando deixarem a competição, mas de uma coisa têm a certeza: o surf fará sempre parte das suas vidas. Teresa Abraços, que confessa não ter grande espírito competitivo, trabalha na área comercial da TAP e arranjou uma forma de ligar os dois mundos, com um toque de solidariedade. A surfista portuguesa organiza viagens para divulgar bons destinos de surf (alternativas aos mais conhecidos, como Indonésia ou Austrália) e ganhou uma paixão por África. Convida um dos grandes nomes portugueses do surf, um repórter fotográfico e um repórter de imagem para documentar e divulgar a viagem, e munida com pranchas de surf e com material escolar já foi a Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, locais com potencial para a prática da modalidade: «O objectivo é estar com a população. Visitamos escolas primárias e oferecemos material que lhes faz falta.» Este ano vai tentar ir ao Gana..Courtney Conlogue diz não ter planos específicos, mas quer ficar sempre ligada ao desporto, seja surf ou outro. Cannelle não convence quando diz que se o surf acabar vai arranjar um emprego - talvez relacionado com animais. Para Nag, falar de outra vida que não o surf não faz qualquer sentido. É este o ponto em comum entre estas gerações de mulheres que fazem surf: surfar para sempre..PERFIS.Sofia Mulanovich, 28 anos .Nasceu em Lima, Peru. Estreou-se no campeonato do mundo em 2003. Soma dez vitórias. Campeã do mundo em 2004 tem, desde então, sido uma presença assídua entre as melhores, mas sem conseguir repetir o feito que a tornou rainha do Peru, onde é idolatrada por homens e mulheres..Courtney Conlogue, 18 anos .Nasceu em Santa Ana, Califórnia, EUA. Faz este ano a estreia entre a elite mundial. Venceu em Junho a etapa de seis estrelas que decorreu no Guincho. Lidera o ranking de acesso à elite mundial. É vista como uma das melhores surfistas norte-americanas da nova geração..Cannelle Bulard, 17 anos .Nasceu nas Ilhas Reunião. É 15.ª classificada no ranking de acesso elite mundial. Destacou-se na etapa do Mundial em Portugal (Peniche), no ano passado, ao vencer Stephanie Gilmore na primeira ronda, poucas semanas antes de a australiana conquistar o quarto título mundial consecutivo..Nag Melamed, 17 anos .Nasceu em Hanalei Bay, Havai. É 17.ª classificada no ranking de acesso à elite mundial. O seu nome significa «nadar» em francês. É considerada um dos melhores novos talentos do Hawai, com potencial para um dia estar a lutar pelo título mundial..Teresa Abraços, 41 anos .Nasceu em Lisboa. Competiu durante 12 anos, conquistando alguns títulos, tanto em Portugal como no estrangeiro, ao serviço da selecção nacional. Porém, é a primeira a minimizar esses triunfos, pois a sua maior vitória, a que lhe dá mais prazer, é ver como o surf feminino em Portugal está a desenvolver-se depois de ter sido ela uma das primeiras mulheres portuguesas a praticar o desporto.