Quando naquele domingo, 9 de julho, caiu o pano sobre a exposição "A minha manta sou eu", Zélia Évora soube que dali para a frente seria outro o (seu) caminho. Não contabilizou visitas (sabe que foram muitas), mas reteve as conversas, os olhares, tudo o que lhe disseram muitas pessoas: que aquele conjunto de obras de arte as inspirava também a mudar de vida. E a dela já deu tantas voltas quanto o número de pontos em ziguezague que lhe saem da máquina de costura. Afinal, ainda há 10 anos ela era uma escriturária com horas certas para trabalhar, numa empresa de materiais de construção que, um dia, sem aviso, a mandou embora. "Eu nunca tinha tido outro emprego", conta ao DN, quando recua até 2012, o ano em que se viu despojada do trabalho de sempre..Natural de Toronto, no Canadá, para onde os pais tinham emigrado, Zélia chegou ao Oeste quando tinha apenas 10 anos. Cresceu na Foz do Arelho, entre a neblina e os barcos de pesca, onde o pai e o avô passavam muito tempo. "Só me mudei para as Caldas quando já tinha 35 anos. Até lá, mesmo já tendo lá um apartamento, continuei a viver em casa da minha mãe", conta, recuando ao tempo em que conheceu o marido, César, e começaram uma vida a dois..No secundário, nas aulas de desenho, a jovem Zélia revela já traços da sua criatividade. "Fazia croquis de moda", gostava de (todas) as artes. "Mas também gostava de números, de contabilidade", e por isso, quando termina o 12.º ano, coloca um anúncio na Gazeta das Caldas à procura de emprego. Recebe logo duas respostas, opta pela empresa onde se manteve 24 anos, como escriturária. Alice, a filha mais nova, ainda não tinha um ano quando a mãe foi despedida. Tem agora 12 anos, menos seis que o irmão, Rafael..Nascida no tempo "em que as meninas tinham todas que saber costurar, bordar, tricotar", Zélia Évora foi sempre "fazendo várias coisas" nessas áreas, ao longo da vida. "No Canadá, a minha mãe comprava-me a roupa para as Bárbies. Mas quando chegámos cá, não havia absolutamente nada disso. Então comecei a fazer", recorda, ligando esse momento à velha máxima de que "a necessidade é a mãe da invenção". E na adolescência, com a ajuda da mãe, costurava as suas (originais) roupas..Mas foi quando, inesperadamente, se viu desempregada, que acabou por dar a volta à (sua) vida. "Fazia umas coisinhas e vendia, por graça, na internet. Mas não de forma profissional". Quando, há 11 anos, a sua vida mudou em meia hora, nasceu uma artista. "Naquela altura uma amiga disse-me: "Zélia, tu tens duas mãos. Nunca te esqueças disso". E realmente, hoje penso que aquela frase faz cada vez mais sentido"..A pequena Alice ainda tinha meses e a mãe passeava-a no baby sling. Percebeu "que a menina andava sempre com a cabeça ao sol, e fui comprar-lhe um chapéu. No caminho para casa, percebi que já não o tinha. Fiquei furiosa. Cheguei a casa e fiz-lhe um chapéu. Era dupla face - como ainda hoje são os meus chapéus. Como correu bem, fiquei toda vaidosa. Fiz um para mim. Tirei uma selfie, coloquei nas redes sociais, e de imediato uma senhora que se chama Dulce Bragança perguntou "quanto custa"? Eu nunca tinha pensado nisso. Vendi-lhe, baratíssimo. Depois diz outro e aconteceu o mesmo. E depois passei a fazer chapéus todos os dias"..De repente, tinha a casa cheia de trapos. Foi quando começou à procura de um sítio que lhe servisse de atelier. Encontrou-o no Hotel Madrid, onde fervilhava a criatividade. Mas ao fim de uns anos acabou por se mudar para os Silos - Contentor Criativo. De permeio, escreveu dois livros: Terapia do Tricot (um manual que ensina a tricotar a disponibiliza modelos originais) e Re-Use, este dedicado à costura e como dar nova vida a peças usadas. O primeiro aconteceu numa altura em que Zélia criou, a partir das Caldas, e em parceria com o arquiteto Filipe Santos, o "Gang da Malha". Foi um círculo que chegou a ter várias células espalhadas por todo o país, com o objetivo de "tirar as pessoas de casa e dar vida aos espaços públicos". Com o tempo, e à medida que foi sendo cada vez mais requisitada para os trabalhos de costura criativa, acabou por deixar esse movimento de serviço público que melhorou a vida de tanta gente.."Nós não somos uma ilha. Precisamos sempre muito uns dos outros", sublinha Zélia Évora, quando fala dessa necessidade de fazer coisas com os outros. Mas dos outros não tolera o lado paternalista que vigora no meio de quem faz trabalho manual, como ela. "As pessoas não fazem por mal. Mas também não fazem por bem... e isso nota-se com a utilização dos diminuitivos. Se reparares, essas páginas chamam-se sempre "cantinho", "miminhos", coisas assim. Mas as pessoas que fazem esses "trabalhinhos" é que têm a culpa. Porque não se impõem. Eu vou ali a uma feira, vender as minhas peças, e chama-se sempre "feirinha". E isso incomoda-me", justifica Zélia Évora, inconformada com o paternalismo que apouca. "Depois as coisas são vendidas por trocos. Estou convencida que a maioria dessas pessoas paga para trabalhar"..Quando lhe diziam que o seu trabalho era artesanato, discordou sempre. "Para mim, artesanato é algo local que passa de geração em geração. Por isso nunca me considerei artesã..Mas quando chegava ao momento de preencher a profissão na escola da filha, ficava sempre sem saber o que colocar. Começou a escrever "costura criativa", mas por artes e manhas "aparecia lá sempre escriturária". Até que há uns meses, isso mudou. Zélia sabia que "não era costureira nem era artesã. Houve um tempo em que usei a palavra maker". E foi quando pensou em fazer uma exposição que ocorreu a metamorfose: "Acho que posso dizer com toda a propriedade que sou artista plástica." Como não? Afinal, transformou tecidos em obras de arte. E tudo -- mais uma vez -- "por acidente". Durante os últimos meses não aceitou encomendas. Decidiu que iria trabalhar exclusivamente em peças para a exposição. Mas essa, à partida, não era nada do que foi à chegada..Há uns tempos, depois de ler o livro Do Design, de Alan Moore, identificou-se muito com o pensamento: "Para chegares a algum lado tens de saber para onde queres ir, qual é o teu destino." Terá sido essa a descoberta.."Eu comprei pela primeira vez um cabaz de frutas e legumes da praça, daqueles que nos entregam em casa. E dentro do cabaz vinha uma couve lindíssima. E eu, que tiro fotografias a tudo, fotografei-a. Passado pouco tempo fomos passar uns dias a Aveiro. E todo o tempo em que estive lá eu só pensava em fazer uma couve em tecido", recorda Zélia, que então já estava a preparar a exposição, "com mantas, almofadas, coisas dessas". Regressada às Caldas, no Dia da Mãe, disse aos miúdos que "ia só um bocadinho ao atelier. Estive aqui horas", conta ao DN. Mas nesse dia chegou a casa com a couve. Os olhos lacrimejantes, a cabeça a explodir de criatividade. "Olhei para a couve e pensei: isto parece uma flor". Facilmente percebeu que poderia fazer o que quisesse. E fez. Brincos de princesa, folhas de zinco e monstera, girassóis, e também mantas, sim, almofadas, quimonos.."O mais bonito da exposição foi a reação das pessoas. Ninguém estava à espera daquilo". Deve muito desse sucesso a dois rapazes estrangeiros que agora moram nas Caldas: o indiano Rahul, que organizou, e o brasileiro André Peluso, que a montou. "Eu posso fazer peças bonitas mas como eu não sei montar uma exposição, aquilo será só um objeto em cima de uma mesa. E o que o André fez foi mágico". Mais uma vez, o acaso. Ele trabalhava como empregado de mesa num café onde Zélia vai todos os dias, beber a sua bica "em pé, porque passo a vida a correr". O rapaz meteu conversa com ela, à conta do ar cansado. Sabendo que estava a preparar uma exposição, ofereceu-se para ajudar. "Mas não era para carregar com coisas. Era mesmo para a montar. Porque o empregado do café era, afinal, arquiteto de interiores. Pediu-me uma planta do espaço, foi ver as peças, e montou tudo". No final, o resultado foi o que se sabe: "as pessoas emocionavam-se. Muita gente saiu de lá a dizer que aquilo era um impulso para seguir os sonhos"..Zélia Évora equaciona agora levar a exposição para outros locais, para que mais público possa ter acesso a essa transformação que aconteceu na sua vida, dentro de um pequeno atelier nos Silos, em Caldas da Rainha, onde é sempre uma agente de mudança. "Nós não somos ilhas. Só conseguimos resistir com a ajuda dos outros", afirma, certa de que, agora, já não pode voltar atrás..paula.sofia.luz@ext.dn.pt