Das revistas masculinas à política cheia de testosterona

Não parece ser fácil trabalhar com Silvio Berlusconi. Mas Mara Carfagna, de 34 anos, sempre foi um caso especial: ex-modelo de fotografias sensuais, a preferida do primeiro-ministro ameaça agora demitir-se por uma questão de lixo.
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O jornal popular alemão Bild escreveu uma vez, sem qualquer exagero, que Mara Carfagna era "a ministra mais bela do mundo". Outras publicações, também sem exagero, preferiram a definição de "ministra mais sexy do mundo". O chefe do Governo italiano Silvio Berlusconi já concordou com estas ideias, mas não estará por estes dias a pensar nas palavras "sexy" ou "bela" para se referir à ministra da Igualdade de Oportunidades, que ameaça demitir-se após fazer críticas ao partido no poder.

Numa ocasião, Berlusconi dirigiu-se a Carfagna e disse-lhe em voz alta, para escândalo dos italianos mais conservadores e grande irritação da sua própria mulher: "Se já não fosse casado, casava-me já contigo". Entretanto divorciado, e quando precisou de uma acompanhante oficial no G8, Berlusconi escolheu de novo Mara Carfagna. Mas esta confiança baseada na beleza parecia excluir a política a sério.

A ministra era uma espécie de troféu do mulherengo e desbocado primeiro-ministro italiano. Foi sempre considerada um adereço ou um capricho do velho magnata. A ex-modelo servira para embelezar as listas de deputados do Povo da Liberdade (PdL), o partido de centro-direita que viria a vencer as eleições de 2008.

Nesse ano, a escolha foi vista como uma excentricidade pessoal do líder: a candidata a deputada era uma bela mulher de 33 anos, com curso de Direito, mas conhecida como antiga concorrente a Miss Itália, e que entretanto aparecera seminua em fotografias provocantes de revistas para homens.

A novata não tinha qualquer experiência política, mas talvez Berlusconi tenha subestimado a sua capacidade. Na semana passada, Carfagna insurgiu-se publicamente contra a escandalosa gestão da crise do lixo na sua região natal e prometeu demitir-se a 15 de Dezembro, no dia seguinte a uma votação crucial para o primeiro-ministro. A 14, o Senado italiano votará uma moção de confiança ao Governo e a Câmara dos Deputados vota a moção de censura apresentada pela oposição. A dupla votação ditará a sobrevivência do Executivo.

Votação e demissão Das capas de revistas masculinas para um cenário político cheio de testosterona. Este é, no fundo, o resumo da carreira da ministra mais bela do mundo. Na câmara alta existe maioria suficiente para apoiar o Governo, mas na câmara baixa tudo dependerá da votação de quatro dezenas de deputados que pertenciam à maioria, mas que se juntaram em novo partido.

Estes são os fiéis de Gianfranco Fini, antigo aliado de Berlusconi entretanto caído em desgraça, porque o primeiro-ministro teve de escolher entre duas formações que o apoiavam. Fini, presidente do Parlamento, foi tratado com menos dignidade e transformou a sua facção de direita numa nova bandeira, Futuro e Liberdade (FLI), sem condições para enfrentar o primeiro-ministro mas que pode escolher a altura de derrubar o Governo.

Nos últimos dias houve grande especulação em Itália sobre Carfagna e a FLI e até sobre se o anúncio da demissão da ministra e deputada era definitivo. A acontecer, será a quinta saída consecutiva de ministros do Governo Berlusconi, sendo os quatro que já abandonaram o barco todos do grupo de Fini. Aliás, o astuto presidente do Parlamento já fez elogios públicos a Mara Carfagna e especulou-se que ela poderia juntar-se ao partido de dissidentes.

Mas é prematuro dizer. Mara Carfagna prometeu abandonar o PdL, demitir-se de deputada e de ministra apenas no dia seguinte ao da votação crucial para o Governo, na qual conta votar a favor de Berlusconi. Isto tem mais ar de posição negocial do que de ruptura.

Questão de lixo O fundo político da polémica mostra a fragilidade do Executivo e os crescentes problemas que ele enfrenta. O lixo continua a amontoar-se em Nápoles, devido a um conflito entre autarquias. Em Outubro, Berlusconi afirmou que estava iminente um acordo que permitiria abrir o novo aterro sanitário (junto a parque protegido) e resolver o problema, mas a crise continua sem fim à vista: em partes da cidade há resíduos com cheiro nauseabundo e que ocupam ruas inteiras. A situação assume proporções de calamidade pública.

Mara Carfagna foi eleita pela Campania e fez críticas duras, sugerindo que havia uma guerra de facções com interesses dúbios. Em causa, está a construção de uma incineradora de lixo que custa mil milhões de euros. Ora, os autarcas envolvidos são do PdL e a região é dominada pelo partido de Berlusconi, que se arrisca a perder votos no Sul.

A imprensa italiana explica que a crise tem a ver com a rivalidade entre políticos que se posicionam para eventuais eleições já na Primavera. Por seu lado, Silvio Berlusconi tem feito duros ataques à imprensa, que julga ser tendenciosa nesta matéria.

Carfagna foi penalizada pelas críticas que fez à gestão da crise. Os jornais próximos de Berlusconi publicaram artigos hostis à ministra e o chefe do Governo explicou que a ameaça de demissão não representava "uma dificuldade particular" para ele.

Deve ter soado quase a insulto, para uma mulher tão bela. Carfagna prometeu demitir-se, já que a sua influência parecia ser nula. Pelo menos na aparência, a ministra perdera os seus poderes de sedução, embora Berlusconi seja demasiado imprevisível para que esta história não tenha uma reviravolta antes de dia 15.

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