Aos 72 anos, o filologista e assiriologista britânico Irving Leonard Finkel corporiza a imagem de um excêntrico investigador oitocentista. O curador do departamento do Médio Oriente do Museu Britânico especializou-se em escrita cuneiforme, as inscrições com origem datada do terceiro milénio antes de Cristo, feitas com recurso a objetos em forma de cunha em tabuletas de argila. Um legado com origem entre os sumérios, povo que habitou a antiga Mesopotâmia, território que atualmente corresponde ao Iraque, partes do Koweit, Síria e Turquia. Em 2014, um estudo de uma tabuleta com as dimensões de um telemóvel empurrou Finkel da solenidade dos gabinetes do Museu Britânico para uma praia tropical no Estado indiano de Querala. Datado entre 1900 e 1700 a. C., o artefacto que o investigador tinha em mãos contava uma história de dilúvio com semelhanças àquela descrita no épico sumério A Epopeia de Gilgamesh. A narrativa que Finkel descortinou não se limitava a descrever uma tragédia de águas, juntava-lhe notas explicativas para a construção de uma arca. A estrutura circular rasa, análoga a uma gigantesca cesta flutuante, pedia no seu fabrico cordas de fibra de palma, reforçada por vigas de madeira e impermeabilizada com betume. Paredes dividiam o cerne da estrutura, de modo a separar as bestas predadoras e as presas. A tabuleta que chegara ao Museu Britânico em 1985 pelas mãos de Douglas Simmonds, filho de um oficial inglês combatente na Segunda Guerra Mundial no Próximo Oriente, ofereceu a Finkel um novo entendimento sobre o relato da Arca de Noé, situando-o na antiga Babilónia. No livro The Ark Before Noah (A Arca antes de Noé), Irving Finkel traça a ancestralidade da arca até ao seu relato bíblico. A pequena tabuleta com perto de três mil anos apontou o caminho do assiriologista para os litorais indianos. Uma cópia da arca na escala de um para três foi construída num areal do Sul da Índia, sob um teto de coqueiros e frente ao mar da Arábia. Após quatro meses de trabalho, sob o olhar de Finkel, a arca babilónica, a pesar 35 toneladas, fez-se às ondas, embora com um sucesso discutível. A história é relatada com pormenor em The Secrets of the Noah Ark (Os Segredos da Arca de Noé), documentário disponível na internet..Irving Finkel tem à sua disposição no Museu Britânico perto de 130 mil tabuletas em escrita cuneiforme, uma porta para um mundo extinto com repercussões neste século XXI. Após meses de laborioso estudo de uma tabuleta datada do século II a. C, o curador do departamento do Médio Oriente anunciava ter desvendado as regras básicas de um jogo de tabuleiro multimilenar. Um jogo que no início do terceiro milénio antes de Cristo gozara de assinalável popularidade no Médio Oriente, nomeadamente nos territórios hoje povoados pelo Irão, Síria, Líbano, mas também no Egito, Chipre, Creta e, mais distante, no Sri Lanka. O entretém, disputado entre dois jogadores e que se manteve popular até ao século VIII, ganhou o nome de Jogo Real de Ur. O artefacto que serviu de tabuleiro de jogo foi resgatado na década de 20 das areias do deserto do Sul do Iraque, mais precisamente das ruínas da cidade suméria de Ur, na antiga Mesopotâmia..Entre 1922 e 1934, o arqueólogo inglês Leonard Woolley dedicou-se a um complexo trabalho de investigação no Cemitério Real de Ur, sob a égide do Museu Britânico e da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Um trabalho ao qual Woolley se dedicou com a mulher, a também arqueóloga Katharine, e o assistente, o arqueólogo Max Mallowan. Este último viria a casar-se com a rainha da ficção policial do século XX, Agatha Christie. A autora, nascida em 1890, visitou o sítio arqueológico de Ur em 1928. Não foi apenas a magnificência do local que apaixonou a escritora. Max Mallowan teceu os seus encantos sobre Agatha Christie, 14 anos mais velha. Mallowan e a criadora da personagem de Hercule Poirot casaram-se em 1930. Em 1936, o mundo da escrita ganhava o livro Murder in Mesopotamia (Crime na Mesopotâmia). A visita da escritora a Ur saltava para uma teia de crime e mistério nas dunas iraquianas..Do Cemitério Real de Ur sairiam cinco tabuleiros de jogo ricamente fabricados em madeira, com incrustações em madrepérola e lápis-lazúli. Outros seriam, entretanto, descobertos em diferentes sítios arqueológicos do Médio Oriente. Todos os objetos tinham o mesmo formato, embora construídos com materiais diversos e com diferente decoração. Um destes exemplares do Jogo Real de Ur, adquirido em 1928, ficaria à guarda do Museu Britânico..Dos mistérios engendrados a Oriente por Agatha Christie para a decifração de códigos antigos escondidos numa tábua de argila com pouco mais de 10 cm de comprimento, à guarda de uma instituição britânica, volveram perto de oito decénios. Na década de 2010, o sempre laborioso Irving Finkel desvendou o segredo guardado numa tabuleta babilónia talhada cerca de 177 a. C. pelo escriba Iti-Marduque-balatu. Este detalhava as regras do jogo tal como era praticado no século II antes da era Cristã. Finkel traduziu aquela informação guardada na tabuleta adquirida pelo museu em 1879. Ganhava significado o artefacto de 30 cm de comprimento e entre 5,7 e 11 cm de largura, catalogado com o número 120.834 e descrito como "tabuleiro de jogo; de madeira, originalmente oca; topo coberto com 20 placas quadradas incrustadas; bordas feitas de pequenas placas e tiras, algumas esculpidas com olhos e outras com rosetas"..O Jogo Real de Ur é uma corrida disputada sobre um tabuleiro com dois grupos de sete peças semelhantes às usadas no jogo de damas. Ao tabuleiro e às peças junta-se um conjunto de quatro dados fabricados a partir de osso de ovelha ou de boi. O objetivo do jogo passa por mover as peças ao longo do percurso marcado por casas. Ganha o jogador que primeiro levar as suas peças até ao fim do tabuleiro. Um percurso sinuoso, com ataques e defesas entre oponentes. O jogo promoveria um aceso confronto, misto de sorte e de estratégia. Sobre as regras do jogo não daremos por perdidos os cerca de sete minutos do filme Deciphering the world"s oldest rule book, relatado pelo próprio Irving Finkel..A propósito do declínio da prática do Jogo Real de Ur pendem várias teorias, entre os que afirmam que terá evoluído para um outro jogo, o gamão, cujas formas embrionárias datam de 3500 a. C., no antigo Egito, e os que defendem que o gamão, nascido autónomo do jogo de Ur, suplantou-o em popularidade. Tido como certo é o caminho que o Jogo Real de Ur trilhou rumo a Oriente. Caído em desuso no Médio Oriente, o jogo foi introduzido na indiana cidade de Cochim por um grupo de mercadores judeus. Ali, adquiriu o nome de Aasha e foi praticado até à década de 50..Sobre a dinâmica do jogo, que adquiriu no passado um significado espiritual com a crença de que os eventos durante uma partida refletiriam o futuro do praticante, pormenoriza Irving Finkel uma história à revista Times num artigo redigido por William Green, em 2008: "Finkel convenceu o museu [Museu Britânico] a criar e vender uma réplica do jogo. Não muito tempo depois, a lenda do xadrez Garry Kasparov, juntamente com a esposa e o guarda-costas, visitaram o museu para um tour privado. Finkel ofereceu-lhe uma cópia do jogo. O agente de Kasparov telefonou mais tarde a anunciar que o mestre russo passou um fim de semana em Moscovo a jogar com o campeão francês de xadrez. O francês "venceu por cerca de 36 a 29 jogos", recorda Finkel, "e tornou-se o novo campeão mundial do Jogo Real de Ur"."