Há um olho mágico que todos os dias filma o interior das aulas e o transmite em directo para o computador da Daniela, de 12 anos, que assiste a tudo a partir de casa. A doença arrancou-a da escola e isolou-a entre quatro paredes. Hoje, graças à videoconferência, vê-se de novo entre os amigos da primária. Até vai ao quadro, ditando as respostas... ao microfone..São 11.00. Na pequena sala da EB2 D. Manuel de Oliveira Perpétua, em Porto de Mós, já há muito que ninguém estranha a objectiva colocada no alto da parede de tijolo, oposta ao quadro e à mesa da professora. Da mesma forma que ninguém estranha o computador sempre ligado, de onde espreita a criança, a partir de Alcobaça..Daniela não tem defesas próprias e é portadora da doença do neurónio motor, que causa uma deficiência motora progressiva e acentuada. Ou, como explica o colega Pedro, "um problema de nascença que faz com que não se consiga mover e seja muito fraquinha"..Anabela, a professora de matemática, já interiorizou a rotina. Aponta o comando à câmara e obriga-a a virar um pouco, para filmar melhor o que escreve no quadro. Com gestos rápidos, ilustra no fundo verde as noções de percentagem que vai explicando à turma do 6.º ano. E nem se perde no raciocínio, quando avança e tem que puxar o fio do microfone. "Percebeste, Daniela?", vai repetindo. "Sim", sorri a criança, no ecrã..Daniela não põe o dedo no ar quando quer responder - diz "eu", ao microfone. E não escreve os exercícios do manual ou preenche com a caneta as fichas e os testes - dita as respostas à mãe ou à professora que a apoia em casa, consoante o dia. Mas é uma aluna como qualquer outra. Ou talvez melhor. Na sua pauta das notas, só há 4 e 5. E desengane-se quem pense que é por ser tratada de modo especial. Quando alguém lhe pergunta "Queres ajuda?", responde "já fiz". E, nos trabalhos de grupo, a sua presença é disputada.."A Daniela é uma lição de vida", garante Anabela. "Luta", nunca se queixa, faz sempre os trabalhos de casa, só falta "se estiver muito doente", como diz Pedro..A câmara, avisam os alunos, nem sempre vira à primeira e às vezes a imagem falha, "fica toda azul". Mas não é dramático. A turma é a mesma desde o 1.º ano, quando Daniela ainda se sentava na carteira ao lado dos colegas. Depois a doença foi-se agravando e deixou de ir. Hoje, e desde Janeiro de 2005, após dois anos sem ir à escola, Daniela está de volta. E até Ricardo, o reguila da turma, sabe os cuidados a ter para que a aula resulte. "Não podemos fazer muito barulho." O que "às vezes é difícil".."É uma turma muito humana", conta Anabela. E especial: foi a mesma que há quatro anos viu a roda de um camião cair no recreio e tirar a vida a uma colega....Benjamim Gil, o director de turma, não desistiu até instalar a videoconferência. Mas foi complicado, conta, "a manutenção era dispendiosa". Foi então que conseguiu um acordo com a Fundação PT, que queria testar uma nova tecnologia de teleaula e é quem cobre todos os encargos, desde o início..Os amigos têm saudades de brincar com Daniela. E talvez por isso se empenhem tanto em incluí-la nas brincadeiras, conversando e cantando com ela ao microfone, no final da aula, ou enviando-lhe fotos de todas as actividades. É que, como confessa Ricardo, "é bom tê-la no PC, mas não é a mesma coisa".