"Maioria absoluta não é poder absoluto". A frase é de António Costa no discurso que fez na noite eleitoral de 31 de janeiro, que lhe deu uma inesperada maioria, conseguindo assim a estabilidade que pedira durante toda a campanha. A porta estava então aberta aos entendimentos entre governo e outros partidos. Terá havido essa abertura? "Analisando, houve sempre uma dificuldade de articulação com a oposição. Se for feita a comparação com a anterior legislatura e a de 2015, este período desde as legislativas de janeiro foi mais duro", considera Paula do Espírito Santo, professora e investigadora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa..Isso fez com que, segundo a politóloga, 2022 tenha sido, sobretudo, "um ano de incerteza, até do ponto de vista da comunicação política"..Para António Costa Pinto, investigador no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, "houve coisas que correram menos bem e que acabaram por marcar a imagem do governo", cuja ação, ressalva, "tem sido pautada por situações de emergência em 90 por cento do tempo. Primeiro a pandemia de covid-19, agora a guerra na Ucrânia e os seus efeitos". Contudo, situações como a que se passou "com o ministro das Infraestruturas e Habitação, Pedro Nuno Santos acerca do aeroporto de Lisboa ou o caso do secretário de Estado Adjunto", Miguel Alves (que foi afastado do leque governativo depois de acusado de crimes quando era autarca de Caminha) "acabaram também por afetar a própria ação do Executivo". No caso de Pedro Nuno Santos, a saída do governo chegou depois de nova polémica, agora ligada à TAP, e nome do substituto ainda não há..Apesar das polémicas no raio de ação do governo, ambos os investigadores convergem na análise: a maioria absoluta foi o acontecimento político do ano, trazendo uma reconfiguração do Parlamento, com o CDS a deixar de estar presente no hemiciclo ("um caso de estudo extremamente interessante", define António Costa Pinto), ao mesmo tempo que Chega e Iniciativa Liberal ganharam bancadas parlamentares depois de na anterior legislatura serem partidos com apenas um deputado - e tudo isto sem novos partidos à esquerda do PS..Segundo António Costa Pinto, "tal como o PS não esperava a maioria absoluta, também o CDS não esperava desaparecer do Parlamento". Este fator "acaba por fazer com que o PSD tenha uma maior vocalidade na oposição, até para se cimentar do ponto de vista de alternativa política, sempre com um olho no outro partido à direita com quem se pode coligar", analisa. Por outro lado, acrescenta Paula do Espírito Santo, "esperar-se-ia do CDS mais capacidade de imposição depois do impacto grande das Legislativas. Estando ainda presente em algumas câmaras municipais e no Parlamento Europeu, tem de fazer um esforço para tentar perceber como ocupar o espaço, algo que o PSD tem sabido fazer, apesar de ter mais mediatismo, mesmo com o líder fora do Parlamento"..Ao longo do ano, foram também várias as vezes em que a bancada parlamentar do Chega entrou em conflito com Augusto Santos Silva, presidente do Parlamento. Situação que, diz António Costa Pinto, "é normal". "Não é novidade nenhuma que um partido radical, de extrema-direita, entre em conflito não só com o presidente da Assembleia como até com as instituições de poder. É até algo natural que assim seja, considerando que o presidente da Assembleia foi eleito por uma maioria de esquerda", afirma. A mesma leitura tem Paula do Espírito Santo, que diz "não ter havido surpresas" por parte do partido. "O uso de expressões laterais ao debate, e até alguma boçalidade argumentativa, minimizando os assuntos essenciais da discussão, acabam por atrair um eleitorado mais popular, como se sabe", afirma.."Um governo de maioria absoluta acaba sempre por introduzir algumas radicalizações no discurso. É algo relativamente natural", conclui António Costa Pinto..2022 ficou também marcado pela troca de líder no PCP ao fim de quase duas décadas. Há 18 anos como secretário-geral, Jerónimo de Sousa abandonou o lugar e deixou também o seu assento na Assembleia da República - onde era o último dos deputados constituintes de 1976..No último discurso que fez enquanto líder, a 12 de novembro, Jerónimo de Sousa firmou a posição do PCP por entre as dificuldades após as Legislativas de janeiro, que depauperaram o grupo parlamentar para metade: "O vento está duro e muito forte, fustiga-nos o rosto, mas nunca hão de ver-nos levar com ele de costas, porque estaremos sempre virados para a frente, em todo o nosso projeto, do nosso ideal, do nosso partido". No dia seguinte, na sua primeira intervenção, o sucessor, Paulo Raimundo, manteve o tom: "Há quem salive pelo fim do PCP. Pois daqui fica um conselho: esperem sentados.".Apesar das mudanças na liderança, o discurso do PCP não deverá mudar, consideram os investigadores ouvidos pelo DN. "A alteração na liderança acaba por não ser uma consequência direta dos resultados eleitorais, algo que se verificou no PSD e no CDS, por isso o discurso pouco ou nada sairá afetado", diz António Costa Pinto. "Ainda é uma fase de observação na qual os novos líderes procuram o espaço de ação, apesar de, no caso do PCP, a nova liderança surgir por motivos diferentes de PSD e CDS", complementa Paula do Espírito Santo..Depois do ano político de 2022, o que esperar então para os próximos 12 meses? "Não devemos esperar grandes surpresas, sobretudo tendo em conta um governo de maioria absoluta", afirma Paula do Espírito Santo. Munindo-se de uma das palavras de ordem de António Costa durante a campanha eleitoral ("continuidade"), a investigadora do ISCSP antevê um 2023 parecido ao ano que agora termina. Além disso, "vão haver novas lideranças que se vão cimentar na oposição e aproveitar a conjuntura de uma maioria absoluta para se reforçarem até do ponto de vista interno". Certo é que, já em janeiro, irá haver outra mudança de líder: João Cotrim Figueiredo vai deixar a Iniciativa Liberal, algo conhecido desde outubro..Já António Costa Pinto espera que seja "um ano em que o governo possa ter condições de estabilidade. Os últimos anos de governação têm sido marcados por contextos de adversidade, com pandemia e guerra. Por isso, esperemos que o governo possa ter condições diferentes dos últimos anos"..No final, que palavra define 2022? Resiliência. "Sei que é uma palavra batida, que está na moda, mas foi um ano difícil, à semelhança dos dois anteriores, quer para a população, quer para o governo. Enquanto houver todos estes sobressaltos e estivermos nesta fase de sobrevivência, será muito difícil ter paz e condições de estabilidade que possam facilitar a vida de todos. Por isso, a palavra que define 2022 é mesmo essa: resiliência, a capacidade de dar a volta por cima das adversidades", remata Paula do Espírito Santo..rui.godinho@dn.pt