Da loja até ao trono do império Zara

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Dobrar camisolas, pendurar calças, repor stocks e atender o público são acções que fazem parte do dia-a-dia de qualquer empregada das 449 lojas da Bershka espalhadas pelo mundo. A partir de Setembro serão rotina para Marta Ortega Pérez, que seria uma quase anónima campeã de provas hípicas não fosse o facto de ser a filha do homem mais rico de Espanha, Amancio Ortega Gaona. A jovem de 23 anos iniciará assim, desde baixo como o seu pai, um caminho que só deverá acabar quando um dia herdar o império da Inditex - que é como quem diz, da Zara, da Bershka e de outras cinco marcas de pronto-a-vestir.

Quando (e se) isso vier a acontecer, Marta terá conseguido fazer, segundo o El País, a transição do papel brilhante das revistas "cor-de-rosa", em que foi presença assídua graças à sua paixão pelos cavalos e alegados romances, para o salmão das páginas financeiras dos jornais. A fortuna do pai, estimada em 24 mil milhões de dólares, coloca-o em oitavo lugar - e a subir - na lista dos homens mais ricos do mundo, segundo o ranking de 2006 da revista Forbes.

Amancio Ortega, hoje com 71 anos, é o exemplo típico do self-made-man, que começou a trabalhar aos 14 anos como estafeta de uma loja, na Corunha, antes de passar para o balcão. Milionário, graças ao império que começou a criar em 1963, juntamente com os dois irmãos e a primeira mulher, quer que a filha tenha esse mesmo contacto com o negócio. A aprendizagem de Marta, pensada por peritos, começará nas lojas, mas vai levá-la nos próximos anos a passar pelos vários departamentos da empresa, revelou o jornal espanhol no seu suplemento de domingo. Este trajecto é conhecido no mundo dos negócios como fast track rail - à letra, caminho rápido sobre carris.

Assim, durante mês e meio, a filha mais nova de Amancio Ortega trabalhará como assistente de loja na Bershka, realizando todas as funções inerentes ao cargo, à excepção do trabalho na caixa registadora. Duas vezes por semana, entrará às 7.30 da manhã, de forma a supervisionar a chegada da mercadoria nova e proceder à sua catalogação.

"Conhecerá em pormenor a milimétrica organização de um conceito de loja onde cada detalhe foi estudado previamente, desde o desenho da montra até à colocação do frasco de rebuçados na zona da caixa", escreveu o jornalista Luis Gómez.

Depois desta experiência, a jovem, que estudou gestão de empresas na European Business School, em Londres, irá trabalhar no departamento financeiro e administrativo, na secção de análise de vendas. Segue-se a área de responsabilidade social e corporativa, onde inspeccionará o cumprimento do código de conduta e a qualidade do produto. A filha de Amancio passará também pelo departamento de comunicação, pelos serviços fiscais e jurídicos e terá formação em mercado de capitais.

No final da sua aprendizagem, a jovem que domina três línguas (inglês, francês e italiano) terá passado pelas oito marcas da Inditex e pelas sedes da empresa de Londres, Paris e Xangai - esta última a pedido da própria. De momento, e antes de ir de férias em Agosto, está a acabar um curso em economia financeira fora de Espanha.

Marta não é a típica menina rica que foi mimada pelos pais. A construção do centro hípico Casas Novas, em Larín, foi talvez a única extravagância que Amancio Ortega lhe proporcionou. Desde os dez anos que a filha do magnata do têxtil pratica equitação, tendo mesmo chegado a ser campeã espanhola da modalidade. O centro é considerado o mais avançado da Europa e recebe vários concursos internacionais.

Foi graças a esta paixão pelos cavalos que a jovem começou a sair nas revistas cor-de-rosa em que o pai, obcecado pelo anonimato, muito raramente se deixa aparecer. Os rumores infundados de uma série de romances com filhos de políticos e banqueiros acabaram por terminar quando foi fotografada com o seu namorado, o cavaleiro catalão Gonzalo Testa, com quem tem uma relação há mais de dois anos.

A estreia nas páginas salmão dos jornais financeiros deu-se quando, em Dezembro, foi anunciado que Marta tinha sido nomeada vice-presidente das duas empresas - Gartler e Partler - que detêm 59% das acções da Inditex e são lideradas pelo pai. O cargo é apenas simbólico, "sem qualquer função executiva", mas abriu caminho às especulações sobre a sucessão do império. A decisão final caberá contudo a Marta. "Estamos a falar de uma pessoa muito jovem e ninguém sabe o que acontecerá no futuro", disse ao The Guardian um porta-voz da empresa, Raúl Estradera.

Para já a filha do milionário - fruto de um caso extraconjugal com uma funcionária da Zara que viria depois a torna-se na sua segunda mulher, Flora Pérez - começa a adoptar o estilo de vida do pai, que nunca deu uma entrevista na vida. Amancio levou à letra o ditado que diz que o silêncio é a alma do negócio, tendo sido um perfeito desconhecido para o mundo financeiro até que, relutantemente, foi obrigado a dar a cara pela empresa, antes de esta entrar em bolsa. A ocasião não teve qualquer glamour: os investidores conheceram o rosto por detrás do império no relatório anual da Inditex.

A partir de Setembro, Marta quer ser mais um dos rostos anónimos das lojas Bershka, desconhecendo-se em que cidade trabalhará ou mesmo se estão previstas medidas de segurança especiais para a proteger. Seguramente, não deverá receber o salário das companheiras de trabalho, sabendo-se que, em média, uma empregada das lojas de Espanha que faça um horário completo de 40 horas ganha pouco mais de 800 euros. Afinal, Marta não deixa de ser a filha do patrão e a futura herdeira do império Zara.|

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