Com este D. Pedro Carlos (1786-1812) Um infante de Espanha em Portugal e no Brasil, a historiadora Isabel Drumond Braga dá a conhecer não só pormenores da vida trágica de alguém que viveu entre países e continentes diferentes, como as possibilidades dinásticas que a época lhe deu..Quando falamos do seu biografado D. Pedro Carlos, estamos a falar de um infante espanhol, mas filho de uma portuguesa e de um espanhol, que por ter sido órfão, tem uma vida completamente surpreendente, nomeadamente acompanhar a família real portuguesa na ida para o Brasil. Explique-me qual é a ligação de D. Pedro Carlos com o nosso D. João VI. D. Pedro Carlos é de facto um infante de Espanha. É filho de D. Mariana Vitória, uma infanta portuguesa, e de D. Gabriel de Bourbon que, por sua vez, é filho de Carlos III de Espanha. A infanta portuguesa, D. Mariana Vitória, é filha de D. Maria I e do seu marido, o rei D. Pedro III. Ou seja, qual é a relação? É que é sobrinho de D. João, primeiro príncipe-regente e depois rei D. João VI, coroado no Brasil..Sei que D. Pedro Carlos ficou órfão, tanto de pai como de mãe, muito cedo, e numa visita a Portugal, a Lisboa, acaba por ficar cá e cria uma relação especial com este tio. Com que idade é que chega a Lisboa? Chega muito cedo porque nasceu em 1786, e no final de 1788 perdeu os pais e também o avô paterno. O materno já tinha perdido durante a gravidez da mãe..Portanto, com que idade é que chegou? Chegou, portanto, no ano seguinte, ou seja, tinha três anos e pouco..O futuro D. João VI, o tio, é ainda relativamente jovem, não é? É, exatamente. D. Pedro Carlos vem para Portugal para uma visita a pedido da avó que, pesarosa, naturalmente, de ter perdido a sua filha está desejosa de conhecer o então único neto. Ela vai solicitar, primeiro a Carlos III, e depois a Carlos IV de Espanha, que permitisse a vinda do infante para uma visita. Nunca ficou estabelecido, efetivamente, quanto tempo é que duraria a visita. A comitiva tinha mais de 100 pessoas e o infante acaba por ficar, e muito próximo sempre do tio, o futuro D. João VI. Essa proximidade explica-se porque D. João ainda não tinha filhos e era casado com a D. Carlota Joaquina que, por sua vez, era prima de D. Pedro Carlos, isto é um entrelaçado de famílias, mas é isso mesmo. Portanto, D. Carlota Joaquina, a futura Rainha de Portugal é em primeiro lugar prima e depois tia do infante D. Pedro Carlos. Essa proximidade é grande porque, de facto, desde cedo, desde a sua chegada, o futuro D. João VI acolhe esse sobrinho como filho da sua querida irmã e isso porque D. Mariana Vitória e D. João eram particularmente próximos, não só em idade, como dois irmãos muito cúmplices. Isso prova-se na correspondência trocada. E nós temos as cartas de D. João, não temos as da infanta, mas, de facto, mostram isso. Portanto, criou-o como se fosse um filho. E essa proximidade manteve-se até ao final da vida do infante, em 1812..D. Pedro Carlos, chegando cá com três anos, e acompanhado por uma comitiva de espanhóis, fala só castelhano de início? Exato. Ele fala inicialmente castelhano, tem inclusive professores de castelhano. Passa de uma visita a uma estada que ninguém devia saber exatamente quanto tempo ia durar. Mas está acompanhado pelos serviçais castelhanos, claro. E depois, quando se percebe, enfim, de forma informal, que ficará e ficará, e aliás nunca voltou a Espanha, teve um ensino que era suposto ser ministrado a um infante português, mas também a um infante castelhano, na verdade..Então, provavelmente, ele falaria as duas línguas a certa altura com desenvoltura. Quando ele chega, D. Maria I, a avó, ainda não está louca? Não, não. Ainda tem clara perceção da realidade. Na verdade, há uma coisa interessante, é que D. Mariana Vitória, a mãe do infante, logo que foi para Espanha, portanto, próximo do casamento, nos primeiros tempos, ia sempre falando nas cartas para a mãe e para o irmão na hipótese de fazer uma visita a Portugal. E depois de fazer uma visita já com o filho. Isso nunca se concretizou. D. Maria I nunca teve qualquer interesse nisso, nem pediu a Carlos III tal coisa, mas depois, efetivamente, quando o neto ficou órfão, empenhou-se muito na sua vida..Em 1807, quando a família real vai para o Brasil para escapar à invasão napoleónica, estamos a falar de um miúdo que tem 11 anos. Não se colocou a questão de ele não acompanhar a família real portuguesa? Na verdade, o que se passou foi isto. Logo naqueles anos anteriores, e naquele período de tensão entre Portugal e Espanha, com a Espanha a ser aliada da França e Portugal a ser aliado de Inglaterra, houve troca de correspondência entre o D. João e o rei Carlos IV, perguntando, efetivamente, qual era a decisão que Carlos IV queria tomar. Ou seja, se o infante teria de voltar para Espanha ou se podia ficar com a família real portuguesa. O rei de Espanha foi particularmente gentil, digamos, no sentido em que permitiu que o infante ficasse, o que muito agradou quer ao futuro D. João VI quer a D. Maria I, e depois, em 1807, isto já se deu como uma realidade mais inequívoca. No entanto, o infante foi chamado a opinar. O infante tinha os seus rendimentos em Espanha, que herdou do pai, o infante D. Gabriel, e, portanto, o acompanhamento da família real portuguesa para o Brasil, ou seja, o seu afastamento de Espanha, já se tinha dado há muito, mas na Península Ibérica, pairava a ameaça que ele iria perder os seus bens em Espanha. O infante seguiu, de facto, a família real portuguesa, com quem tinha sido criado. Aparentemente, as fontes indicam-nos que foi uma decisão dele, até porque, de outra maneira, ele teria ficado na situação da família real espanhola..Claro, preso provavelmente pelos franceses, como foram Carlos IV e Fernando VII, depostos por Napoleão, que pôs um irmão no trono. Exatamente..Formalmente D. Pedro Carlos é o único membro da família real espanhola que atravessa o Atlântico. Exatamente. Carlota Joaquina também era espanhola. Só que já princesa e depois Rainha de Portugal..Quando D. Pedro Carlos está no Rio de Janeiro, perante o que se passa na Europa com o derrube de monarcas, há a questão do trono de Espanha. D. Carlota Joaquina, por sua própria iniciativa, chegou a ser vista como uma alternativa a Fernando VII. D. João VI pensou também em D. Pedro Carlos neste jogo de disputas dinásticas? Pensou claramente porque há a documentação que nos diz que, em 1812, isto é, à data da morte do infante, D.João, que ainda era regente, estava a pensar numa viagem de D. Pedro Carlos à Península Ibérica, mais concretamente, a Espanha. Portanto, numa situação ainda de alguma instabilidade, como sabemos. E que ainda se tentava, de alguma forma, colocar a hipótese que D. Pedro Carlos tivesse um papel político relevante em Espanha. O que não aconteceu. Certamente não teria acontecido mesmo, mas foi impossibilitado de tentar isso, uma vez que morreu nesse ano..Então, o maior protagonismo da vida deste infante, que morre com 25 anos, foi esta possibilidade de reinar dada pelos acontecimentos gerados pelas guerras napoleónicas, como a prisão da família real espanhola e a mudança da nossa para o Brasil? Há um momento em que pode, de repente, ter um protagonismo que o facto de ser filho de filhos segundos não lhe daria? Sem dúvida. E antes, essa situação também se pôs para Portugal. Ou seja, no período em que D. João VI esteve casado com a D. Carlota Joaquina, mas ainda sem filhos, pensou-se, inclusivamente, em alterar as leis do reino para que ele pudesse vir a herdar o trono de Portugal. Tanto mais que houve opiniões que ele deveria ser educado à moda portuguesa, conhecendo os usos e os costumes, o que, na verdade, acabou por acontecer..Mas essa questão de ser herdeiro não é porque houvesse problemas de infertilidade de Carlota Joaquina? Ocorriam aquelas ideias bizarras, sem qualquer fundamento, que eram muito típicas dos séculos XVIII e XIX, de olhar para uma pessoa e concluir que ela ia ser boa ou má parideira. E como D. Carlota Joaquina era de compleição franzina achava-se que ela ia ser infértil. Mas acabou por ter uma catadupa de filhos. E durante aquele período em que há casamento consumado, mas não há filhos, e o primeiro filho é a princesa Maria Teresa, com quem D. Pedro Carlos aliás se casará, durante esse período, em termos formais, se bem que nunca tenha sido jurado, e se bem que ninguém tivesse muito interesse em falar nisso e falava-se aparentemente mais em Espanha do que em Portugal, nomeadamente os embaixadores falavam bastante nesse assunto, dizendo que D. Carlota Joaquina não iria ter filhos, o que era um consumado disparate, e que D. Pedro Carlos seria naturalmente o herdeiro..Ou seja, no fundo é um filho de segundos filhos, que podia ter sido rei de dois países. E não foi de nenhum. Como disse, ele morre muito jovem, deixa a viúva, a princesa portuguesa no Brasil, mas chega a ser pai. Sim, um filho de segundos filhos que poderia ter sido rei de Portugal e Espanha. Em teoria. E sim, casou-se em 1810, foi pai em 1811, e morreu em 1812. E foi pai do infante D. Sebastião Gabriel, que depois estará com a mãe. A mãe volta-se a casar em Espanha, com o infante espanhol Carlos Maria Isidro, e durante um período significativo, Sebastião Gabriel integrou a fação carlista e, portanto, lutou contra a situação estabelecida. Afastado da coroa, acabou por se afastar da mãe e das questões carlistas, e por fazer as pazes com Isabel II, Rainha de Espanha..Embora nascido de mãe portuguesa no Brasil colonial, Espanha será o país dele? Sim, sim, sim. Ele vai muito jovem com a mãe para Espanha, quando a família real portuguesa, exceto o então príncipe-herdeiro D. Pedro, volta em 1821 a Portugal. Logo em 1822, D. Maria Tereza e Sebastião Gabriel vão para Espanha para reivindicar os tais bens, e depois lá ficam. A vida de Sebastião Gabriel passa a partir dai por Espanha e por outros países que não Portugal. De qualquer maneira, manteve sempre contactos, quer com a família imperial brasileira, quer com a família imperial portuguesa, e sabemos isso através da troca de correspondência, de ter tido uma casa aqui em Portugal, de ter passado algumas temporadas de visita, de ter passado alguns tempos, mas quer dizer que toda a sua vida e o seu património estava, aquilo que contava estava lá..Estou agora a pensar, então, neste caso, este Sebastião Gabriel é o único membro da família real espanhola que nasceu no Brasil. Exato, só que também é da família real portuguesa..D. Pedro Carlos - (1786 - 1812): Um infante de Espanha em Portugal e no Brasil Isabel Drumond Braga Temas & Debates 392 páginas.Artigo originalmente publicado no DN a 17 de maio de 2023.