Cultas e crentes rainhas da Dinastia de Avis

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Amadas ou traídas, de belas tranças louras ou com dentes estragados, educadas e devotas, ouvidas pelo monarca ou menosprezadas em assuntos de Estado - eis as nove rainhas do esplendor de Avis, num livro em que a investigadora Joana Bouza Serrano quis mostrar essas importantes figuras "tanto tempo na sombra" da nossa História.

Ao longo dos cerca de 200 anos que durou a dinastia, de Aljubarrota a Alcácer Quibir, as mulheres dos monarcas eram escolhidas por jogos de poder e para garantir alianças matrimoniais. "O destino das jovens era traçado pelos pais ou irmãos, sem ter em conta as suas inclinações", vai demonstrando Joana Bouza Serrano. "Desde que nasciam, tornavam-se hipotéticos trunfos que poderiam ser jogados no momento mais conveniente."

E, no entanto, ao descrever o percurso das rainhas consortes da dinastia de Avis, das quais apenas eram portuguesas Isabel de Lencastre e Leonor de Lencastre, a historiadora vai mostrando que, na regência do reino ou pela influência que conseguiam junto do marido, acabariam por definir o futuro de Portugal, impondo o sucessor do rei (Leonor de Lencastre) ou obrigando a expulsar judeus e mouros do reino (Isabel de Castela).

Mas a sua principal obrigação era serem, sobretudo, fêmeas. "Casavam, geralmente, muito jovens, incumbidas de dar herdeiros ao marido." Acordados quase desde o nascimento, e sem atender à diferença de idades nem ao grau de parentesco, os casamentos eram realizados a partir dos sete anos, mas só se concretizavam aos 14 ou 15.

Depois, "devido à implacável mortalidade infantil, e para tentar garantir que pelo menos alguns filhos alcançassem a idade adulta, os partos sucediam-se, muitas vezes até à exaustão". Nesta fase de apogeu, em que Portugal "esteve na vanguarda da História Mundial, protagonizando o início da expansão europeia e a construção de um império pluricontinental", três rainhas morreram por complicações de parto: Isabel de Lencastre, Isabel de Castela e Maria de Castela.

Ao correr de cada reinado, em que a autora vai descrevendo intrigas palacianas e batalhas sangrentas, os enxovais luxuosos (ouro e pedrarias, colchas da Bretanha e lençóis da Holanda, perfumes de almíscar e âmbar) e os festejos por noivado ou nascimento, vai-se sublinhando a importância atribuída à fertilidade feminina. "A esterilidade prolongada era um verdadeiro drama para as princesas e rainhas, que recorriam a médicos, consultavam astrólogos, multiplicavam-se em novenas e peregrinações e submetiam-se a emplastros, purgações e remédios caseiros para obter, com ajuda do Céu ou da Natureza, os tão desejados herdeiros." E havia receitas com leite de burra, vulva de lebre, chifre de veado, a que se juntavam incenso, erva-cidreira, manjericão ou hortelã para obter pós milagrosos.

Joana Bouza Serrano, que é professora de História no Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa, dedicou-se a investigar este universo feminino e concluiu que, durante este período, a educação dos infantes era uma preocupação dominante, o que se pode perceber através da escolha dos mestres, o ensino dos escritores clássicos e de ciências como a astronomia e a astrologia, mas também pelas guerras cortesãs para ver quem ficava com a custódia educativa do futuro monarca.

Num universo muitas vezes pontuado por grandiosas festas, em que se destacavam "multidões de brocados, chaparias e borlados", havendo justas e torneios, acrobatas e jograis, momos e segréis, cantos e danças de judeus e mouros, touradas e banquetes, cortejos de aparato e cidades engalanadas, as rainhas conviviam com partidários e inimigos, amantes e bastardos dos maridos, amas-de-leite e físicos, condestáveis e astrólogos.

E também se fica a saber que durante este período, em que D. Afonso V casou duas vezes e D. Manuel I teve três mulheres (ao contrário de D. Sebastião e do cardeal D. Henrique, "que ainda solicitou a dispensa dos votos eclesiásticos, vindo esta tentativa a ser bloqueada pela acção diplomática de Filipe II"), até o grande pintor flamengo Jan van Eyck veio a Lisboa pintar o retrato da infanta D. Isabel para o mostrar ao noivo duque de Borgonha.

E o resto do papel desempenhado pelas rainhas está nas 350 páginas do livro As Avis, onde se misturam risos e lágrimas, tradições e costumes, pestes e jóias .

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