Na localidade toda a gente sabia que os irmãos Vicário estavam a preparar alguma coisa e que Santiago ia morrer, mas quando realmente aconteceu ninguém estava à espera. Crónica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, é um livro genial, como são os livros de García Márquez. O que arrepia neste é o quanto despe a realidade das cumplicidades não assumidas, cobardes e perigosas, e do lavar de mãos quando a tragédia acontece..Nesta semana partilhei o avião com uma magnífica mulher que trabalha sobre a violência doméstica. Comentámos os relatórios da Equipa de Análise Retrospetiva de Homicídio em Violência Doméstica (EARHVD). Crónicas de mortes anunciadas, socos no estômago, vergonha alheia e própria. São relatórios públicos e a pública demonstração do nosso falhanço. Deixo-vos os factos de um deles. Poderia ser qualquer um. Dispensa análise..Ela e ele casaram-se no dia 30 de janeiro de 2015 e foram viver para casa dela. Ele deixa assim a casa dos pais. Ela e ele desentenderam-se em data não apurada. Ela disse depois às autoridades que começou dois meses depois quando ela descobriu que ele tinha uma doença que não lhe comunicou. Ela pediu-lhe para ficar noutro quarto. Ele saiu de casa no dia 25 de setembro de 2015. Já fora de casa discutiram e ele ameaçou-a de morte. Ela empurrou-o e ele socou-a na cara. Ela ficou com escoriações e hematomas na cara. Ele não aceitou a separação e passou a vigiá-la, a controlar os seus movimentos e a telefonar-lhe insistentemente. No dia 2 de novembro ele foi a casa dela e disse-lhe que ela não ia chegar ao Natal. No dia 4 de novembro voltou lá e escondeu-se na caixa de água. Ela chegou a casa, estacionou e dirigiu-se à porta da cozinha. Ele aproximou-se e deu-lhe uma pancada na cabeça com um pau que tinha apanhado. Ela fugiu e ele deu-lhe mais um golpe. Ela continuou a fugir e ele deu-lhe o terceiro golpe, o que a deixou inanimada. Ele pegou nas chaves da porta da cozinha que tinham ficado caídas, abriu a porta, arrastou-a pelas costas para dentro da cozinha e deixou-a deitada no chão. Depois saiu, fechou a porta por fora e empurrou as chaves por debaixo da porta. Foi-se embora. Ela foi encontrada morta no interior da residência no dia 7 de novembro, ao fim da tarde..Durante este período, ela foi ao Ministério Público apresentar queixa no dia 29 de setembro. No dia 8 de outubro foram-lhe pedidos esclarecimentos. No dia 22 de outubro ela entregou os esclarecimentos por escrito. No dia 26 de outubro foi dada indicação que ela comparecesse para prestar declarações no dia 4 de novembro. Ela foi. No mesmo dia 4 de novembro ela foi assassinada. Ela podia ter sido ajudada nos dias 29 de setembro, 22 de outubro ou 4 de novembro. Ela nunca teve estatuto de vítima atribuído. No dia 5 de novembro, o Ministério Público pediu que ele fosse constituído arguido em data possível. Ela já estava morta..Eurodeputada do BE