Excessos. Quique Flores viu-se, de repente, com cinco adjuntos, três da sua confiança pessoal e dois contratados pelo clube antes de ele chegar. Era gente a mais e o mais normal seria que alguém caísse da folha ou fosse desviado para tarefas fora do campo de treinos. O espanhol optou pelos homens em quem tem confiança e de cuja competência não duvida.De repente, o que fazem Diamantino e Chalana começou a ser importante e os jornais passaram a ter relatos não apenas do que sucede no treino do Benfica mas do que ocupou os dois adjuntos impostos a Quique Flores pelo clube: se participaram no treino, se ficaram apenas a ver, de camisa e calças de ganga, ou até se estiveram num gabinete a observar adversários num DVD. O treinador espanhol fará seguramente tudo para que os dois históricos não se sintam hostilizados, tentará mesmo encontrar formas de os ocupar, mas não é normal que lhe peçam para mudar toda a planificação do trabalho por causa disso. Porque, na hora de formar equipa técnica, Quique optou por homens que conhece bem - Escribá, Ayestaran e Alvarez. E já se sabe que o excesso de cozinheiros pode estragar o mais fino dos pratos..Afinal, como se forma uma equipa técnica? Há aqui uma série de critérios universalmente seguidos, o primeiro dos quais é, obviamente, a confiança pessoal do treinador principal. Poucos treinadores aceitam um desafio sem para ele arrastarem o seu assistente principal, a sua alma gémea: quando foi para o Chelsea ou para o Inter, Mourinho levou Rui Faria; na altura de emigrar para Londres, Scolari não abdicou de Murtosa; à chegada a Portugal, Adriaanse, que foi o último estrangeiro a ganhar a Liga, trouxe com ele Riekerink. E nem é preciso pensar-se em realidades estranhas e na necessidade de, nelas, ter alguém do seu lado. Mesmo nas mudanças de clube em Portugal, os treinadores gostam de se fazer acompanhar do seu primeiro imediato: Jorge Jesus levou Raul José de Belém para Braga; José Mota fez o mesmo com Jorge Mendonça na passagem do Paços de Ferreira para o Leixões; Daúto Faquirá imitou-os com Luís Queirós ao trocar o E. Amadora pelo V. Setúbal; e Manuel Machado continuará no Nacional a ter com ele José Augusto, com quem trabalhou na época passada na Académica e no Sp. Braga. .É claro que, para estes treinadores manterem vivas parcerias de tantos anos com os seus principais auxiliares é porque lhes reconhecem competência. A questão da competência, aqui mencionada como segundo critério na formação de uma equipa técnica, contudo, deve sempre ser vista por dois prismas. Um, inquestionável, o da competência parcelar em determinados aspectos do treino: há, por exemplo, treinadores que têm o seu próprio técnico de guarda-redes, ou o seu próprio observador de adversários. Neste aspecto, embora adoptando um treino totalmente integrado (entre as vertentes física, táctica e técnica), o futebol está, a exemplo do futebol americano, a tornar-se cada vez mais compartimentado na forma de trabalhar determinadas competências: treinar um guarda-redes não é a mesma coisa que treinar um goleador. .Outro prisma, bem mais discutível, é o do excesso de competência para o que deles se espera, que pode bem ser misturado com o primeiro critério, o da confiança. No momento em que, confrontado com a possibilidade de regressar ao Benfica e com a oferta de um contrato feita pelo FC Porto, José Mourinho recusou a Luz por ali quererem impor-lhe a presença de Jesualdo Ferreira como adjunto, não seria certamente por ter dúvidas acerca da competência do treinador que é actualmente bicampeão nacional para as tarefas que lhe restavam. A questão era outra. Por um lado, acharia Mourinho, que queria continuar a trabalhar com Rui Faria, que Jesualdo era demasiado competente para ser um terceiro treinador e que, por isso mesmo, poderia rapidamente transformar-se num foco de desestabilização do grupo. Por outro, as funções de Jesualdo - que era uma espécie de pensador global do futebol do Benfica - interferiam claramente com o organigrama em que o treinador acreditava: o de uma equipa técnica de competências globais, que iam da planificação e execução dos treinos à definição de perfis de jogadores a contratar para a equipa..Esta crescente importância da vertente científica no treino não levou, contudo, a que o terceiro critério para a composição de uma equipa técnica tenha perdido espaço. É sempre importante haver alguém que domine as lógicas do balneário, alguém que tenha influência junto dos jogadores, que seja uma espécie de irmão mais velho que com eles partilha segredos, alegrias e angústias, e que os filtre antes de chegarem ao treinador principal, ao qual muitas vezes os jogadores até temem expressá-las. Era o papel de Octávio Machado no FC Porto de Artur Jorge, como foi o papel de Toni na primeira passagem de Eriksson pelo Benfica. E foi o papel reservado por Mourinho a Carlos Mozer na Luz e depois a Baltemar Brito na U. Leiria, no FC Porto e no Chelsea. "O que eu quero é alguém do futebol, com sensibilidade para falar com os jogadores, que se consiga afirmar, que tenha autoridade dentro de um balneário e? que seja grande", disse Mourinho à mulher, Tami, antes de esta lhe sugerir que falasse a Brito. E, como se conta no livro José Mourinho, de Luís Lourenço, Brito começou naquela altura uma carreira de treinador adjunto inesperada para quem andava longe do galarim há muito tempo..É claro que, tradicionalmente, os clubes gostam de ter sempre um adjunto da casa. Para enquadrar o treinador principal, diz-se. No Benfica, a esse papel se prestaram, durante décadas, Fernando Cabrita, Fernando Caiado, Peres Bandeira, Toni, Eurico Gomes, Álvaro Magalhães ou Fernando Chalana, para citar apenas alguns. Este ano, Quique Flores, que já tinha equipa técnica formada, limitou-se a aceitar que dela fizessem parte dois portugueses, um porque tinha salvo o clube do vazio na deserção de Camacho, o outro porque tinha sido contratado para adjunto de Eriksson, quando se presumia que seria este a ocupar o banco da Luz. Mas a equipa técnica estava formada de acordo com os principais critérios: confiança e competência, já que o espanhol, ele mesmo um antigo jogador de craveira, julgará ser capaz de assegurar em nome próprio o domínio do balneário. De resto, Fran Escribá já fora seu adjunto no Valência, Alvarez trabalhara-lhe os guarda-redes em Valência e no Getafe, e Ayestarán fora campeão da Europa com Rafa Benítez no Liverpool. Até seria possível encaixar aqui um adjunto português, para o necessário enquadramento e para satisfazer as massas. Agora, dois?|