CRISE DE VALORES CHEGA ÀS BALIZAS

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Oportunidade. Os primeiros jogos da Taça de Portugal são muitas vezes os únicos feitos no ano inteiro pelos guarda-redes suplentes dos clubes da Liga. Recebem nessas tardes a recompensa pelas semanas de trabalho e paciência, de forma a estarem aptos a prevenir eventuais lesões dos titulares

Rotatividade é cada vez mais vício de grande

Quando chega a Taça de Portugal, pelo menos duas mãos cheias de guarda-redes vão aos armários, sacodem o pó das luvas e preparam-se para uma situação que raramente vivem: entrar em campo. De todas as posições numa equipa, a baliza é a que menos rotatividade promove. O titular mantém-se inamovível até se magoar, ser expulso ou comprometer seriamente os interesses da equipa e ao suplente não resta sequer a possibilidade de jogar um pouco mais à frente ou um pouco mais atrás para somar minutos de competição. Vai ficando, a treinar, à espera de uma oportunidade. E neste fim-de-semana, com a entrada em acção dos clubes da I Liga na Taça de Portugal, essa oportunidade vai chegar para alguns dos mais habituais suplentes do futebol português. Cada vez menos, porém. É que a crise parece ter chegado às balizas e nem todos os suplentes poderão mostrar-se às bancadas, gozar os seus 90 minutos de fama.

A rotatividade é mais própria de clubes grandes, que têm mais de uma opção de alto nível para a baliza. Manuel Machado, actual treinador do Nacional, não a pratica desde que, há três épocas, na anterior passagem pela Choupana, tinha a partilhar balneário o suíço Diego Benaglio e o português Hilário. Depois, tanto na Académica, com Pedro Roma, como no Sp. Braga, com Paulo Santos, manteve sempre na Taça a aposta no titular da Liga. "É uma questão de coerência na política que leva à escolha. Jogam os mais aptos em cada momento e não é por estarmos a falar de uma competição diferente que isso muda", explica Machado ao DN Sport. E essa é também a opinião de José Mota, treinador do Leixões, que até chegou a avaliar o austríaco Berger na Taça da Liga mas depois optou por Beto, já titular na época passada. "A Taça da Liga é diferente. Jogámos com o Sp. Braga e o Rio Ave, que são equipas da I Divisão. Agora será com o Caniçal e as equipas tendem a facilitar, pelo que não vou correr riscos", diz Mota, ressalvando ainda que na Taça da Liga jogou Berger "porque era quem merecia".

Jorge Jesus, treinador do Sp. Braga, já enveredou pelos dois caminhos. "Quando tenho dois guarda-redes muito parecidos em termos de valor, não tenho problemas em trocar. Mas quando isso não sucede, opto sempre por aquele que dá mais garantias no momento", explica Jesus, que conta no plantel com o maior "papa-minutos" do futebol português: o guarda--redes Eduardo, que até começou a carreira com quase sete anos a jogar apenas pela equipa B. A última vez que Eduardo falhou um segundo de competição por opção de um treinador foi a 18 de Dezembro de 2006, quando não foi convocado por Rogério Gonçalves para um Sp. Braga-Boavista. Desde então, no Beira-Mar com Carvalhal e Soler, no V. Setúbal de novo com Carvalhal e agora no Sp. Braga com Jesus, desde que disponível, jogou sempre, na Liga, na Taça de Portugal, na Taça da Liga ou na Taça UEFA. Ao todo, descontando jogo e meio falhado por causa de uma expulsão e do concomitante castigo, soma 6795 minutos consecutivos sem dar hipóteses a mais ninguém. E em Chaves, no jogo da Taça de Portugal, será também ele a jogar, mantendo no banco o polaco Kieszek, titular no Sp. Braga em parte da Liga anterior. "Jogará o Eduardo, sobretudo porque esteve na selecção sem jogar e, a seguir a Chaves teremos logo o Portsmouth, para a Taça UEFA. Ora eu quero-o rotinado e motivado nesse jogo", explica Jesus. No Nacional de Machado, em contrapartida, Bracalli vai desta vez repousar. "Dou-lhe essa de avanço: vou, de facto, trocar de guarda-redes contra o Angrense, mas porque o titular está lesionado", revela Manuel Machado.

Quem também deve trocar são os três grandes. No FC Porto, Jesualdo Ferreira manteve a aposta em Nuno Espírito Santo até à final da Taça de Portugal da época passada, pelo que deve voltar a dar ao português a possibilidade de iniciar a partida na Sertã. A dúvida, a existir, será mais em torno do guarda-redes titular contra o Dynamo de Kiev, na terça-feira, pois entre lesão e interrupção do campeonato, Helton está sem jogar desde os 0-4 em Londres, a 30 de Setembro. No Sporting, só a lesão de Tiago e o conflito com Stoijkovic levaram Paulo Bento a apostar em Rui Patrício em cinco das seis partidas da Taça de Portugal da época passada (a excepção foi a recepção ao Lagoa, ainda em Janeiro, onde jogou o sérvio). No Benfica, o treinador é novo, mas ainda na época passada Quim cedeu a baliza a Butt em todas as partidas da Taça de Portugal até à meia-final contra o Sporting. Amanhã, com o Penafiel, Moreira deve voltar a sentir uma baliza em competição, algo que já não lhe sucede desde que Quim se magoou, a 12 de Março de 2007, numa recepção à U. Leiria: o português era o suplente de turno, alinhou 18 minutos, mas três dias depois, quando teve de assumir uma opção, Fernando Santos escalou Moretto para defrontar o Paris St. Germain em desafio da Taça UEFA.

Os grandes acabam por ser quem mais aplica a teoria da rotatividade, dando aos guarda-redes suplentes a rotina de baliza em competição e a motivação para que continuem a trabalhar com o mesmo afinco, dessa forma obtendo mais garantias de que responderão a bom nível caso uma lesão ou abaixamento de forma do titular venha a obrigar à troca de número um. Para evitar que a desmotivação leve a segunda escolha a baixar a guarda, Manuel Machado tem um segredo de recrutamento. "Normalmente escolho um guarda-redes de valor seguro e um elemento jovem, com potencial e margem de crescimento, mas que reconheça o estatuto de titular do outro, de forma a manter a motivação no trabalho", revela Machado. Já Jesus é mais directo. "Não estou nada preocupado com isso", afirma. "Quando tomo uma opção, faço-o por convicção de que é a melhor. Não vou pôr um guarda-redes a jogar por favor", reforça. Depois, se houver um azar, haverá seguramente formas de se lidar com ele.

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