Criador da espingarda nunca perdeu o sono

Antigo general soviético faz hoje 90 anos  e não vive arrependido por ter inventado,  na cama do hospital, a arma à qual deu o nome
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Mikhail Kalashnikov é um velho condenado. Se 90 anos é idade de certezas, o general soviético reformado, que hoje celebra o seu aniversário, não duvidará por um segundo que o seu nome ficará para sempre emprestado à espingarda que mais homens matou.

Uma sentença cruel mas que não o assusta nem o deixa arrependido. A kalashnikov é a arma mais vendida no mundo (estima-se que existam cem milhões) e anda nas mãos de guerrilhas e terroristas. Nas guerras dos anos 1990, 300 mil pessoas morreram pelas suas balas. Mikhail jura que nada disso lhe "tira o sono".

"Eles espalharam a arma pelo mundo fora", contou numa entrevista ao The Guardian. "Ela foi como um génio que saiu da garrafa e seguiu o seu caminho em direcções que eu não queria. A política, e não o desenhador, é culpada por essas mortes. Eu fiz a kalashnikov para proteger a minha pátria".

Mikhail passou os últimos anos da sua vida com a filha e a neta, numa casa de floresta com vista para um lago, no coração dos Urais, os montes que dividem a Rússia e separam a Europa da Ásia. A poucos quilómetros dali fica Izhevsk e a principal fábrica daquelas armas, hoje na falência devido às muitas falsificações. Mikhail quase ensurdeceu, mas ainda pega na sua criação e leva-a para a floresta para recordar o som dos disparos.

Para se perceber o orgulho do velho é preciso regressar ao tempo em que ele era um jovem talentoso e um comunista fanático. Mikhail Kalashnikov nasceu numa família de camponeses a 10 de Novembro de 1919, dois anos depois da Revolução de Outubro. Os pais exilaram-se no sul da região de Altai, na Sibéria, aceitando uma vida miserável de camponeses, para fugir aos massacres da guerra civil.

Mikhail sentia vergonha pela família, que não partilhou o sonho soviético, e empenhou-se em mostrar como era diferente. "Eu queria ser o melhor. Era apenas um rapaz, mas já trabalhava bem com a foice", contou ao jornal britânico. Bem com a foice, talvez melhor com o lápis. Kalashnikov tinha o talento de um inventor e queria tornar mais fácil o trabalho dos camponeses. A prova foi dada quando construiu um moinho de madeira para fazer farinha. Depois foi contratado para os caminhos-de-ferro e pôs-se a trabalhar num motor que "nunca havia de parar".

A II Guerra Mundial interrompeu-lhe os planos. Aos 19 anos foi combater os nazis. Kalashnikov integrou uma divisão de tanques e quase morreu com um bombardeamento inimigo. O desabafo de um soldado - porque é que nós temos uma espingarda [manual] para três e os alemães uma automática?" - ficou-lhe gravado na memória. E foi na cama do hospital que inventou a espingarda que lhe roubou o nome.

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