Estabilidade. A palavra foi repetida esta segunda-feira várias vezes por António Costa ao anunciar ao país a remodelação no governo, em que elevou dois secretários de Estado a ministros, João Galamba para o Ministério das Infraestruturas e Marina Gonçalves para o novo da Habitação. A palavra foi também a chave para responder ao discurso de Ano Novo do Presidente da República. Já quanto às críticas de Luís Montenegro - que pediu a demissão do ministro das Finanças -, o primeiro-ministro não se pronunciou.."Governar é uma responsabilidade pesada, mas ninguém que é primeiro-ministro deve ter medo da responsabilidade", afirmou Costa numa inédita comunicação ao país a propósito de uma remodelação, desencadeada com a demissão de Pedro Nuno Santos. No primeiro dia do ano, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sublinhou que 2023 é um ano decisivo, que a maioria absoluta "é vantagem rara" e "responsabilidade absoluta"..Costa foi primeiro ao retrato macro da governação para só depois exultar a escolha de Galamba e de Marina Gonçalves para as duas pastas. "A estabilidade das políticas é fundamental para a estabilidade da vida dos portugueses." E foi com ela, garantiu, que o governo conseguiu nos últimos sete anos ultrapassar várias crises, entre as quais a gerada pela pandemia de covid-19, e manter "uma trajetória constante de crescimento e de convergência com a União Europeia, de emprego e melhoria dos rendimentos"..Insistiu que o Executivo conseguiu "concluir o ano com o segundo maior crescimento da UE, o maior crescimento da nossa economia em 30 anos, com o emprego em mínimos e com uma situação onde as famílias e as empresas fizeram um grande esforço, lado a lado com o Estado, para responder a essa situação de crise"..O primeiro-ministro reconheceu, tal como Marcelo Rebelo de Sousa tinha dito, que 2023 será um "ano muito exigente", até porque há uma contração económica à escala global e em muitos dos parceiros económicos de Portugal. Por isso "é preciso garantir uma boa execução do investimento público", que representa 18% no Orçamento do Estado para este ano..E foi com esta ideia que justificou a "alteração orgânica" no governo - aceite pelo Presidente da República - de elevar a Habitação a ministério, lembrando que estão afetos a esta área, até final da legislatura, 2700 milhões de euros, o que "pode levar a uma mudança estrutural na habitação". Tal como frisou a importância do investimento na ferrovia..Quanto à escolha de João Galamba e Marina Gonçalves para as duas pastas, António Costa recordou que são duas pessoas "com experiência governativa", que "conhecem os meandros da Administração Pública" e que "não se embaraçam com as exigências da transparência e burocracia necessárias à boa contratação pública"..Confrontado pelos jornalistas com a ideia de "fragilização" no governo por ter optado por dois socialistas (ambos considerados próximos de Pedro Nuno Santos) e antigos secretários de Estado para a remodelação do governo, Costa voltou a insistir nas capacidades governativas quer do novo ministro das Infraestruturas quer da nova ministra da Habitação.."Dão garantias de que não haverá descontinuidade do que está a ser executado e que haverá estabilização e estabilidade na execução das políticas", insistiu. "Não é um sinal de esgotamento, é sinal de aproveitamento das capacidades já demonstradas.".Na sua comunicação, o líder do governo não dedicou uma única palavra às demissões nem à polémica que as motivaram - a indemnização de 500 mil euros da TAP a Alexandra Reis, ex-secretária de Estado do Tesouro. Mas perante a insistência dos jornalistas sobre a escolha da ex-governante por parte de Fernando Medina, titular das Finanças, afirmou que o seu ministro agiu bem quando tomou conhecimento da atribuição da indemnização que "chocou o país", que foi convidar a secretária de Estado a demitir-se..Sobre o pedido de cabeça do ministro por parte dos partidos da oposição, entre os quais o PSD, o primeiro-ministro atirou: "Quando as oposições forem governo, mandam no governo.".Já sobre a abertura de um processo por parte do Ministério Público a esta indemnização, escudou-se na separação de poderes. "Se o MP entendeu haver razões para abrir inquérito, excelente!".Precisamente meia hora depois do anúncio dos novos ministros e meia hora antes dos esclarecimentos do primeiro-ministro, Luís Montenegro falou na sede nacional do PSD, em Lisboa, depois da reunião da Comissão Permanente do partido. Ainda sem saber o que António Costa viria a dizer, o líder social-democrata disparou na direção de outro membro do governo: Fernando Medina, ministro das Finanças..Considerando que o governante tem responsabilidades no caso da indemnização da ex-secretária de Estado do Tesouro, Alexandra Reis, o líder da oposição classificou mesmo Fernando Medina como "um peso morto no governo"..Num discurso agressivo, Montenegro considerou ainda que "o problema do governo não são os casos dos últimos meses". Segundo o líder laranja, há, isso sim, "um defeito de fabrico: a incapacidade de transformar e reformar e a governação de truques". "Talvez o povo português o vá habituar [a António Costa] à ideia de deixar de ser primeiro-ministro", acrescentou..Voltando a Medina - que "já perdeu a autoridade política" -, Luís Montenegro disse que "este não é o tempo para abrir uma crise política", mas assegurou que, caso fosse primeiro-ministro, "o ministro era mandado embora". Discordando das interpretações de que o PSD ainda não é uma alternativa - feitas depois de palavras ditas pelo Presidente da República -, o líder social-democrata referiu que "os portugueses anseiam em colocar o PSD no governo", mas garantiu ainda que o partido não tem pressa para liderar os destinos do país..Por isso, quando "esse momento chegar", o partido estará preparado. "O que o Presidente da República disse - e nós corroboramos - é que 11 meses depois de eleições não é ainda o tempo de se confrontarem alternativas. É uma interpretação correta e que nós acompanhamos", disse, referindo que "em democracia há sempre alternativa"..Discursando momentos depois das duas novas nomeações para o Executivo, o presidente do PSD deixou também críticas às escolhas de João Galamba e Marina Gonçalves, que, afirmou, demonstram um dado: "Torna-se claro aos olhos de todos que o primeiro-ministro tem dificuldade em olhar para a sociedade. Temos a entrada de novos membros do governo que já pertenciam ao governo.".Na sua declaração, Montenegro recusou ainda ter estado na sombra da reação partidária ao caso da ex-secretária de Estado. Todas as manifestações públicas foram feitas por outras figuras do aparelho social-democrata, como os vice-presidentes Miguel Pinto Luz e Paulo Rangel, algo que o líder máximo desvalorizou: "Estava fora do país. O presidente do PSD falou quando quis falar", preferindo apontar - novamente - baterias a Costa: "No momento de maior crise do governo, o primeiro-ministro desapareceu, ninguém o ouviu nestes dias, e vai reaparecer hoje [segunda-feira] de braços caídos a ir ao banco de reservas fazer uma remodelação.".Sendo esta a quarta remodelação governativa desde 31 de janeiro de 2022, o líder do PSD considerou ainda que foi um período de "brutal instabilidade governativa", tudo por culpa do PS, que considerou estar a desperdiçar a maioria absoluta de forma "irresponsável e inexplicável"..Horas antes, também a coordenadora do Bloco de Esquerda pedira a demissão de Fernando Medina. Acusando o Executivo de "conviver bem" com o "regime de privilégios" que existe no Conselho de Administração da TAP, a líder bloquista considerou que "na verdade não há condições para continuar um ministro que não quis saber o que se passa numa das empresas mais importantes do país", disse Catarina Martins depois de um encontro com trabalhadores de um café no Porto. "Não está nada explicado e uma demissão não apaga o problema", afiançou..Também o presidente do Chega, André Ventura, veio também deixar críticas às nomeações conhecidas esta segunda-feira. Para Ventura, "a nomeação de João Galamba é uma afronta ao país e à justiça" - tudo porque o novo ministro "está a ser investigado pelos negócios do lítio do hidrogénio". Por isso, Marcelo Rebelo de Sousa, sendo Presidente da República, "não deveria" ter aceitado o nome de Galamba para a pasta das Infraestruturas..Já o Livre, pela voz do líder, referiu que apesar do discurso do PM se focar em estabilidade, "tal não é suficiente". "É infelizmente mais do mesmo", considerou Rui Tavares na antena da RTP3..João Galamba - Ministro das Infraestruturas.Até agora secretário de Estado do Ambiente e da Energia (cuja tutela é do Ministério do Ambiente e da Ação Climática), João Galamba foi anunciado esta segunda-feira como o novo ministro das Infraestruturas..O nome não é novo dentro do aparelho socialista, tendo até, na altura da liderança de António José Seguro - entre 2011 e 2014 -, feito parte do chamado grupo dos "jovens turcos", uma ala mais à esquerda dentro do PS, liderada por... Pedro Nuno Santos, a quem sucede na pasta das Infraestruturas. Nessa linha, considerada como mais radical em termos políticos, estavam também o agora ministro do Ambiente e Ação Climática, Duarte Cordeiro, e o vice-presidente da bancada parlamentar, Pedro Delgado Alves..O agora ministro das Infraestruturas não é novo também em andanças de governo: entrou para o Executivo em 2018 , como secretário de Estado da Energia, cargo onde se manteve até às legislativas do ano seguinte. Aí voltou à energia, como secretário de Estado Adjunto e da Energia, onde esteve até à nova eleição. Desde 2009 que é eleito deputado, primeiro pelo círculo eleitoral de Santarém e desde 2015 por Coimbra..João Galamba, 43 anos, é licenciado em Economia pela Universidade Nova de Lisboa, tem um doutoramento em Ciência Política na London School of Economics. Trabalhou na Direção-Geral dos Assuntos Técnicos e Económicos do Ministério dos Negócios Estrangeiros durante a presidência portuguesa da União Europeia, em 2007. Antes, trabalhou ainda no Banco Santander e na consultora Cluster Consulting..Marina Gonçalves - Ministra da Habitação.Marina Gonçalves, 34 anos, passa a ser ministra da Habitação - uma pasta que antes estava agregada às Infraestruturas, ambas tuteladas por Pedro Nuno Santos..Tal como João Galamba, agora ministro das Infraestruturas, Marina Gonçalves também vem do aparelho governativo: neste caso, a nova ministra vem diretamente do cargo de secretária de Estado da Habitação (para o qual foi nomeada em 2020) para o novo ministério..Licenciada em Direito, Marina Gonçalves é uma figura próxima de Pedro Nuno Santos. Quando o ministro demissionário foi secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, a nova ministra foi sua assessora. Na anterior legislatura foi vice-presidente do grupo parlamentar do PS..Entre março de 2018 e outubro de 2019, Marina Gonçalves foi chefe de gabinete de Pedro Nuno Santos, quer ainda como secretário de Estado, bem como depois, já enquanto ministro das Infraestruturas e Habitação..Natural de Caminha, foi eleita deputada nas eleições legislativas de 2019 por Viana do Castelo, integrando no Parlamento a Comissão de Trabalho e Segurança Social e a Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar à Atuação do Estado na Atribuição de Apoios depois dos fogos de 2017..Licenciada em Direito pela Universidade do Porto, tem também um mestrado em Direito Administrativo. Exerceu como advogada-estagiária e, depois, como advogada, até novembro de 2015, quando assumiu funções como assessora de Pedro Nuno Santos. Foi ainda deputada municipal em Caminha.