Coser três orquestras e pô-las a respirar Mahler

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Maestro Michael Zilm brilhou no domingo, no Grande Auditório do CCB

Juntar 61 estudantes de cursos superiores de orquestra a 28 instrumentistas profissionais e reforçar o todo com 20 músicos convidados (dois nos jovens, 18 nos profissionais), com o objectivo de tocar a gigantesca e dificílima Sinfonia n.º 3, em ré m, de Mahler, poderia soar a ambição a mais. Mas não nas mãos de Michael Zilm: com um raro talento de moldar corpos orquestrais e nada comprometendo da sua inclinação mahleriana, Zilm levou uma potencial manta de retalhos a comportar-se como um corpo coeso, técnica e mentalmente, logrando projectar para o auditório um som distintamente mahleriano.

Se a tudo isto juntarmos um jovem contralto russo (Ekaterina Gubanova) de belíssima voz e dois coros (35 crianças do Instituto Gregoriano e 59 senhoras do Lisboa Cantat) bem ensaiados no estilo e na dicção, mais reforçada sai a impressão descrita.

Mas é evidente que houve falhas durante aquela hora e três quartos de música, na leitura de Zilm: trompas menos bem nos agudos em f e trompa-solista (and. 3) com algumas falhas (dificultando coordenação com acompanhamento orquestral); trombone com (ligeiros) desvios na intonação; articulação, coesão e volume sonoro das cordas em vários pontos; portamenti e tremoli desajustados nas madeiras (and. 4, p. ex.) e, no final, entrada desencontrada dos tímbales na Coda. Mas se pensarmos como madeiras, percussão e percussões são convocados nesta sinfonia e em tudo o que as cordas fizeram de bom, as falhas ficam bastante diluídas.

Posto isto, o que nos "deu" Zilm? Uma leitura sólida, coerente e fundada sobre um entendimento da arquitectura global (mormente nos andamentos extremos) de cada um dos seis andamentos. Diremos que só no 3.º andamento a sua condução se deixou cair num arrastamento que roçou o torpor, afectando a "identidade" rítmica e formal desse Scherzo.

A estreia de Messiaen

Na próxima semana (dia 19), Michael Zilm volta a "pegar" nas orquestras da Metropolitana, não para Mahler (do qual a Orquestra irá dirigir uma obra sinfónica por ano até 2011 - a próxima será A Canção da Terra), mas para a estreia portuguesa de uma importante obra de Olivier Messiaen, autor de que se comemora este ano o centenário do nascimento. Falamos de Et Exspecto Resurrectionem Mortuorum (de 1964), para 40 instrumentistas de sopro e percussões metálicas. O concerto tem lugar na Igreja de S. Vicente de Fora (21.30) e conta ainda com a participação do Coro Gregoriano de Lisboa.

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