Coreia e Vietname são filmes diferentes

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Não é preciso ser um cinéfilo para conhecer Nascido para Matar, Platoon, O Caçador ou Apocalypse Now. Apesar do filão inesgotável da Segunda Guerra Mundial e das películas que vão aparecendo sobre o Iraque, alguns dos melhores filmes de guerra saídos de Hollywood continuam a ser os da Guerra do Vietname, o que mostra como esse conflito marcou a sociedade americana (veja-se o recente The Post). Contudo, outro conflito na Ásia, também a envolver os Estados Unidos e no contexto da Guerra Fria, chegou a dar grandes filmes, caso de Missão na Coreia, As Pontes de Toko-Ri ou O Enviado da Manchúria (e aqui recorro à ajuda do crítico do DN João Lopes). É justo, afinal nessa Guerra da Coreia morreram 54 mil americanos em apenas três anos, quase tanto como os 58 mil que terão morrido nos 15 anos da Guerra do Vietname.

Não trata, porém, de crítica de cinema esta crónica. É sim uma análise histórica às duas principais guerras combatidas pelos Estados Unidos para travarem a expansão comunista no mundo. E de como foram diferentes as suas origens, também o modo como foram feitas, o resultado final de cada uma e as consequências ainda hoje. E se são duas guerras que parecem pertencer a um mundo que já não existe (o Muro de Berlim caiu em 1989 e a União Soviética desintegrou-se dois anos depois), a realidade é que os jornais não se cansam por estes dias de falar sobre a possível cimeira entre entre Kim Jong-un e Donald Trump e também sobre uma visita do porta-aviões USS Carl Vinson ao porto vietnamita de Danang.

A divisão da Coreia ocorreu no momento da rendição das tropas japonesas no final da Segunda Guerra Mundial. A norte do paralelo 38, os soviéticos impuseram um satélite comunista, enquanto a sul os americanos criavam to seu próprio aliado. Uma falha de Dean Acheson, secretário de Estado americano, deixando a Península Coreana de fora do perímetro de defesa dos Estados Unidos na Ásia Oriental, convenceu Kim Il-sung, e os seus protetores em Moscovo e Pequim, a tentar a reunificação pela força. A reação de Washington foi firme e conseguida sob a égide da ONU (devido a uma ausência do embaixador soviético no momento da votação no Conselho de Segurança), arrastando uma série de outros países ocidentais. Ao fim de três anos de conflito (1950--1953), o resultado foi um empate.

Já no Vietname, a divisão em Norte e Sul ocorreu depois da derrota em 1954 da França, potência colonial decadente que falhou o regresso à Indochina no pós-Segunda Guerra Mundial. Com um regime comunista acima do paralelo 17 e um pró-americano abaixo, pouco a pouco o envolvimento militar dos Estados Unidos (com base na Teoria do Dominó) foi alastrando, incapaz, porém, de parar a ofensiva do Norte e a rebelião armada no Sul. Em 1975, Saigão caiu e tornou-se a Cidade de Ho Chi Minh (o grande líder nacionalista vietnamita). O resultado foi, pois, uma clara derrota americana.

Ora, o empate de 1953 continua a ser ameaçador para a segurança dos Estados Unidos, até porque um neto de Kim Il-sung governa e tem armas nucleares. E, apesar do esforço da Coreia do Sul para convencer tanto Pyongyang como Washington a dialogar, não é certo que a paz prevaleça, com tudo o que isso implica de risco na relação com a China (e com a Rússia). Bizarramente, é a derrota de 1975 que os Estados Unidos tentam transformar em vitória, pois Hanói e Washington partilham agora da vontade de contrariar a ascensão chinesa, sobretudo no mar da China do Sul.

As duas guerras na Ásia originaram muitos filmes, mas sempre foram filmes diferentes. Hoje, porém, o filme é mesmo muito diferente.

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