Copianço

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Quem é que não copiou alguma vez na escola? A pergunta é demasiadas vezes capciosa. Procura desvalorizar uma prática generalizada, que costuma ser confundida com a sabedoria da habilidade. O estudo que o DN hoje divulga sobre a fraude académica confronta-nos uma vez mais com essa habilidade. A dimensão da arte do copianço em Portugal é enorme e deixa a nu a inconsciência geral. Convive-se bem com o copianço. As escolas, as famílias e os governos não parecem preocupados com a fraude generalizada na avaliação de competências.

São muitos e variados os artifícios para tornear as dificuldades da memória ou da inteligência. As novas tecnologias de comunicação estão a substituir as cábulas em letra microscópia, quantas vezes inscritas no próprio corpo. Hoje utilizam-se auriculares e mensagens telefónicas. Mas o copianço não passa apenas pelos exames. O plágio de trabalhos disponíveis na Internet é mais um exemplo de uma prática com muitos seguidores.

A novidade do estudo da Faculdade de Economia do Porto, que avaliou 21 países de quatro continentes, é o facto de haver uma forte correlação entre os países com um índice elevado de corrupção e os que mais se distinguem na fraude académica. O paralelo não é surpreendente, mas serve para confirmar o laxismo vigente, a rendição de um sistema que pouco se preocupa com a fraude, que é "mole e permeável", como diz Maria José Morgado. Antes de tudo, é um problema cultural. Estamos longe de cultivar a exigência e o rigor ético. Confunde-se competitividade com desenrascanço. E assim assimila-se como norma a desfaçatez que tudo permite e relativiza.

O sociólogo Ivo Domingues, que também estudou o alcance do copianço entre nós, conclui que a fraude escolar funciona como válvula de segurança perpetuadora do sistema. Se houvesse prevenção, muito provavelmente aumentaria o insucesso com a retenção de alunos nas escolas, o que política e socialmente seria pouco cómodo. Quando hoje ouvimos discursos preocupados com a qualidade do ensino e da aprendizagem, e com os seus reflexos na economia portuguesa, devemos lembrar-nos do grande contributo do laxismo na avaliação.

O problema português é que de pouco nos vale o copianço. Nem sequer somos competentes a copiar... Os resultados escolares são maus. Pior, revelamos grande resistência a copiar bons exemplos. "A ciência da mais ampla usança é a arte do fingimento", dizia o jesuíta renegado espanhol Baltasar Gracián. Para muitos portugueses é a grande doutrina. E os exames estão à porta...

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