Contra a obesidade: "Todos temos de agir"
Assinala-se hoje o Dia Mundial da Obesidade e o mote deste ano, definido pela Federação Mundial da Obesidade, é: "Todos temos de agir", uma frase que acredito que não pode sintetizar melhor os desafios que Portugal enfrenta, atualmente, no âmbito da luta contra a obesidade.
Em primeiro lugar, "todos temos de agir" porque já assumimos, como nação, a relevância e a urgência de travar a obesidade no nosso país. Recordo que Portugal foi pioneiro, em 2004, ao ter reconhecido a obesidade como uma doença crónica e um problema prioritário de saúde pública. Contudo, ser pioneiro não chega, apesar dos sucessivos programas e iniciativas públicas ao longo dos anos, a prevalência da doença continua a aumentar no nosso país.
Sublinho que, de acordo com as primeiras conclusões do estudo "Custo e carga do excesso de peso e da obesidade em Portugal", 67,6% da população portuguesa tem pré-obesidade ou obesidade (ou seja, têm um índice de massa corporal (IMC) acima de 25 kg/m2), sendo que a prevalência de obesidade (IMC acima de 30 kg/m2) é de 28,7%; 43% dos óbitos totais ocorridos em Portugal continental, no ano em análise, deveram-se a doenças relacionadas com obesidade e que a obesidade e a pré-obesidade representam um custo direto anual de 1,2 mil milhões de euros no país, ou seja, 0,6% do PIB e 6% das despesas de saúde.
Estes são números que não podemos ignorar e que nos dizem, inequivocamente, que "todos temos de agir". Naturalmente, a pergunta que se segue é: como? E, ainda que o caminho não seja fácil, há um conjunto de prioridades já identificadas.
Foi precisamente há um ano que lançámos o "Recalibrar a Balança" - um call to action com recomendações e estratégias, alicerçadas em cinco eixos de atuação essenciais para uma resposta holística e equitativa contra a obesidade. Elaborado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), pela Associação de Doentes Obesos e Ex-Obesos de Portugal (ADEXO) e pela Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), este apelo à ação propõe: a promoção de uma abordagem holística e digna no tratamento da obesidade; a mobilização de recursos para a formação médica especializada; a criação de um programa de consultas de obesidade nos cuidados de saúde primários; a comparticipação do tratamento farmacológico para a obesidade e a implementação de mecanismos para eliminar o estigma e a discriminação associados à doença.
A boa notícia é que já foram dados passos importantes. Depois de apresentadas aos diferentes grupos parlamentares, estas prioridades foram traduzidas na publicação, em Diário da República, de uma recomendação da Assembleia da República ao governo para que sejam implementadas 13 medidas para a prevenção e o tratamento da obesidade.
É assim que, neste dia simbólico, e num momento em que se avizinha um novo ciclo político e um período de reformas estruturais no país, é urgente que, não só os deputados eleitos e os futuros governantes, mas também todas as associações, instituições, profissionais de saúde, doentes e cidadãos, contribuam para passarmos das palavras à ação, sabendo que "todos temos de agir" e que o tempo de agir é agora, se queremos assegurar aos portugueses um país mais saudável, mais resiliente e mais próspero.
Presidente da SPEO - Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade

