Contar a história dos que devemos admirar

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Um entre seis filhos de uma costureira e de um zelador que partilhavam a vida num minúsculo sótão no Bairro Alto, Alberto saiu da sua casa em Lisboa com 17 anos mal feitos, desceu ao rio e embarcou à socapa e sem planos para os Estados Unidos. Quatro horas depois de chegar a Manhattan, estava enfiado numa copa a lavar pratos. Trabalhou nas obras e no mais a que conseguiu deitar mão e foi sobrevivendo sem grande perspetiva mas com a certeza de querer construir uma vida melhor para si e para a família que deixaram em Portugal. Até que o seu visto expirou e deixou de conseguir quem lhe confiasse trabalho, vendo-se finalmente a viver na rua, a sobreviver de esmolas, a comer quando e como podia.

Tudo havia para a história ter um final infeliz - e seria então certamente contada de semblante carregado, recebida por olhares cabisbaixos e esquecida mal surgisse novo drama mobilizador das atenções do povo. Mas Alberto Carvalho não estava disposto a desistir, a deixar-se transformar em coisa triste. E só precisava de se pôr de pé para mudar o que parecia ser o seu fado.

Passados 40 anos, graças à visão e solidariedade de um professor que o puxou das ruas e lhe deu as ferramentas para um caminho de futuro, acaba de ser escolhido, por unanimidade, para liderar todo o sistema educativo de Los Angeles.

Não chegou aqui com favores, conhecimentos ou compadrios, mas com trabalho árduo e dedicação. Rejeitou os cargos políticos que lhe propuseram em diversas ocasiões, porque reconheceu mais importância em manter-se firme na vontade de melhorar outras vidas, multiplicando por muitas crianças o que outros haviam feito por ele. Recusou ser ele a brilhar, para ajudar novos candidatos ao sucesso. Não se deixou cegar por prémios, elogios ou recompensas porque fixou os pés bem no chão e manteve presente a memória da sua história - não para se martirizar com o que sofrera ou vangloriar-se pelo que atingira, mas como mote para dar-se todo à sociedade.

Depois de décadas a servir os miúdos de algumas das escolas mais problemáticas de Miami, Alberto Carvalho continua a ter bem presente que a verdadeira riqueza e a real recompensa não estão no dinheiro, nos cargos, no poder, mas na capacidade de dar a mão a quem não conseguiria subir a escada social sozinho. Sabe que o que é mesmo importante não é pregar. É fazer, procurar resultados ao lado dos mais frágeis, por eles e para eles, acreditar no potencial de cada criança e ensiná-la a fazer o seu próprio caminho, em vez de levá-la ao colo ou dar-lhe desculpas para falhar.

Alberto Carvalho é português e orgulha-se disso. Não deixou família nem raízes; visita frequentemente Portugal e os seus. E provavelmente nunca foi abordado numa rua de Lisboa, reconhecido pelo seu mérito, pelo seu valor, pelo seu trabalho, por ser um embaixador do melhor que Portugal espalha pelo mundo. Como muitas vezes passarão os banqueiros António Horta-Osório e António Simões, o neurocientista Rui Costa, a empreendedora Daniela Braga, o engenheiro aeroespacial Nuno Sebastião e tantos outros, sem que uma só cabeça se vire.

Está na hora de ouvir as histórias dos que contam. Para que os nossos filhos cresçam de olhos postos nos bons exemplos.

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