Conhecimento sobre dinheiro? Uma vergonha nacional!
Ah, a literacia financeira em Portugal, ou melhor, a falta dela. É uma daquelas questões em que podes certamente bater palmas ao nosso grande país, proclamando: "Parabéns, Portugal, por manteres a tradição de sermos completamente ignorantes sobre dinheiro!"
Vejamos, há tantos benefícios na literacia financeira que é quase um crime não a teres. Em primeiro lugar, a literacia financeira permite-te tomares decisões informadas sobre o teu dinheiro. Mas, em Portugal, quem precisa disso? Preferes atirar moedas ao ar para decidir se compras ou não uma casa!
E não esqueças o belo mundo dos juros compostos. Saber como eles funcionam é como ter uma varinha mágica para fazer crescer o teu dinheiro. A maioria dos portugueses não sabe o que é uma taxa de juro nem tão pouco um spread em cima dela. Não sabe o que é a Euribor e o porquê dos meses associados. Euribor a 6 meses? O que é isso? Claro está que, em Portugal, preferes o exercício da adivinhação e depois ficar chocado quando a tua conta bancária é um deserto com juros.
Já nem falo da terrível armadilha da dívida. Mas por que deverias evitar isso? Endividas-te até ao pescoço pois esse é o passatempo nacional preferido. E o "agiotismo" dos 15 ou 20% de juros em suaves prestações mensais. Ora bem! Se todos fazem porque é que eu não faço também? Mas sou menos que o meu vizinho? Afinal, quem precisa de um teto sobre a cabeça quando se pode ter uma coleção de cartas de cobrança e notificações de escritórios de advogados sobre eventuais execuções coercivas?
E, claro, também não podemos esquecer o investimento. Sim, o investimento onde o dinheiro trabalha para nós. Mas, em Portugal, preferimos investir em coisas como brinquedos de plástico e eletrodomésticos caros que nunca usamos ou, até, em veículos último modelo porque sim: por status. Porque, afinal, quem quer um futuro financeiro seguro? Ora, ora, o futuro a Deus pertence.
Agora, passemos aos motivos pelos quais Portugal está tão determinado a manter a sua baixa literacia financeira.
Primeiro, o nosso sistema de ensino é um verdadeiro exemplo de como não fazer as coisas. Ensinar matemática já é complexo porque ninguém a quer. E vamos no bom caminho quando chegarmos ao ponto de não exigir matemática para entrar na universidade. Mais, ensinar como aplicar essa alquimia à vida real é claramente para génios.
Além disso, a falta de ensino financeiro na base educacional é algo que podemos aplaudir. Afinal, por que ensinar às crianças como gerir o dinheiro quando podem aprender tudo com os pais (que nada sabem) e é muito mais importante serem ensinados sobre como chegarem a líderes? Mas líderes de quê? Os bons será na fuga de Portugal. Tenho a certeza de que todos os conselhos sobre self-awarness serão muito úteis quando os portugueses enfrentam dívidas monstras. Muito úteis.
Há mais de 20 anos tive a ousadia de traduzir para português um livro/manual que saiu de Valnalón (https://valnalon.com/), a cidade empreendedora espanhola. À data fui aos colégios quase todos da grande Lisboa apresentar a ideia e vender a necessidade de preparar miúdos até à 4ª classe para fazerem um projeto financeiro. Enquanto aqui ao lado, em Espanha, os miúdos
eram obrigados a ir a um banco negociar com o gerente um empréstimo fundamentado para o seu projeto (sim, uma empresa que fariam e que teria pelo menos um produto que iriam vender, recuperando o dinheiro no final do ano letivo - devolvendo o empréstimo ao banco - e num grande certame a nível regional) nós, por cá, tínhamos os professores e os pais a gritarem: "mas achas mesmo que eu devo conspurcar uma criança inocente com dinheiro e ensinar-lhe agora coisas que não lhe interessam para nada?". Sim, há mais de vinte anos o projeto falhou rotundamente. Sem hipótese. E até no colégio onde andei, e onde há, diria eu, uma maior apetência por estas coisas, o projeto falhou.
Isto era uma proposta de um ATL como qualquer outro. Era útil. 80% deles são inúteis. E poderia ter sido uma revolução que se iria estender a todo o país. Estupido, eu, em achar que a ideia era magnífica e a estar disposto a pagar os royalties a Valnalón pela ideia e implementação do seu projeto em Portugal.
Não podemos esquecer nunca, em paralelo, a gloriosa tradição de evitar falar sobre dinheiro em casa. Afinal, é muito mais divertido falar sobre o tempo ou sobre a última novela da televisão ou, ainda, sobre os golos do nosso clube de futebol que não entraram por culpa de sabe-se lá quem. Ignorar o tema financeiro é a melhor maneira de garantir que a ignorância financeira é passada de geração em geração.
Portanto, Portugal, tens de ter fé e força, mais agora que tanto se fala em literacia financeira, pois continuas a ignorá-la e a e a orgulhar-te da tua falta de conhecimento básico sobre dinheiro. Afinal, quem precisa de um futuro financeiro seguro quando pode viver no doce êxtase da ignorância financeira? Uma vergonha nacional.

