Confrontos e falta de gasolina na luta contra Sarkozy

DN falou com franceses e emigrantes portugueses, que hoje vão aderir à sexta greve geral, em mês e meio, contra aumento da idade da reforma defendido pelo Presidente.
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"Os protestos não vão parar. Amanhã [hoje] toda a gente vai para a rua", disse Maryvonne. Em contacto telefónico, esta funcionária pública francesa, de 59 anos, confirmou ontem ao DN que a "situação não é fácil" e que, afinal, todos os protestos poderão "não servir para nada".

A ideia da intransigência do Governo de Nicolas Sarkozy não era uma percepção apenas de Maryvonne, mas de muitos dos que, hoje, vão sair à rua em França para contestar o projecto de lei do Presidente que aumenta de 60 para 62 anos a idade da reforma e de 65 para 67 anos a idade para receber a pensão por inteiro. Uma reforma que "é essencial para a França e que a França vai pôr em prática", garantiu, ontem, Sarkozy.

"O Governo, porque já foi demasiado longe, não irá recuar. Nem que cinco milhões saiam à rua", garantiu Hermano Ruivo, que hoje voltará a fazer greve e a protestar no centro de Paris. Oriundo de Alcaíns (Castelo Branco), de onde partiu com apenas cinco anos, Ruivo não hesita em criticar o projecto de reforma de Sarkozy como uma "lei injusta, com profundos desequilíbrios, que importa modificar".

Para este funcionário público, de 44 anos, "o movimento de protesto radicalizou-se" com a adesão dos estudantes e do poderoso sindicato dos transportes, o que significa que a mobilização vai acabar "por deixar lastro". E desabafa: "Teria sido melhor se o Governo tivesse dialogado com os sindicatos, se se tivesse preocupado com algum esclarecimento, procurado a concertação; tivesse posto em prática a democracia participativa".

A trabalhar no centro de Paris, Ruivo tem uma visão clara da cidade que, em sua opinião, "não está mais caótica do que nos outros dias; as pessoas já se organizaram".

Mesmo em frente às suas janelas, cerca de 500 alunos de um liceu da capital protestam. Fazem--no sem qualquer tipo de violência, ao contrário do ocorrido em Nanterre, Lyon, na Île-de-France ou em Seine-et-Marne.

Em Nanterre, por exemplo, os alunos do liceu Joliot-Curie bloquearam o acesso ao edifício logo de manhã, ao mesmo tempo que cortavam a circulação na zona da avenida junto ao liceu, transformada em palco de vandalismo: carros incendiados, paragens de autocarro e cabines telefónicas destruídas. Chamados para apagar o incêndio, os bombeiros foram recebidos à pedrada pelos jovens contra quem a polícia acabaria por ter de usar granadas de gás lacrimogéneo. Um total de 196 "desordeiros" foram detidos pela polícia à margem dos protestos junto dos liceus.

"Não são os alunos quem provoca os confrontos mas pessoas que vêm do exterior", disse ao DN José Rocha, funcionário público em Paris. Para este português de 44 anos, que aos 8 anos deixou a Póvoa de Lanhoso, a situação "está a tornar-se cada vez mais tensa". Também ele tem a consciência de que os campos se extremaram e nenhum quer ceder.

"A França pode estar a aproximar-se a passos largos para um outro Maio de 68. Após a votação da lei, amanhã ou quinta-feira, pelo Senado tudo pode acontecer. Porque as pessoas estão cansadas e desiludidas", garante e adianta: "Tudo vai depender da decisão dos sindicatos".

Fernanda Pinto, uma outra portuguesa que há 28 anos optou por viver em França, "amanhã [hoje] será o pior dia, porque decisivo". E, como muitas outras pessoas, esta ex-professora de física nuclear na Escola Politécnica de Paris, considera também que a reforma de Sarkozy "não foi negociada, mas imposta" e que não vai resolver os problemas dos franceses, em especial "dos milhares que fazem fila diariamente para ir à soa dos pobres".

O Governo criou ontem uma célula de crise para lidar com a falta de combustível que afectava, ao fim do dia, 1500 das 12 mil estações de serviço do país. A falta de combustível foi provocada pela greve das 12 refinarias do país e pelo bloqueio dos camionistas a vários depósitos do país.

Responsáveis da aviação civil francesa pediram às companhias aéreas para restringirem, hoje e drasticamente, os voos com destino a França, em cujos principais aeroportos as partidas vão ser canceladas entre 30 a 50%.

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