Confissões de uma ex-adolescente

Na sua primeira visita a Portugal, a ex-futura professora de Geografia Amy MacDonald explicou como se tornou uma estrela emergente em apenas um par de anos. Um exclusivo de imprensa da NS’.
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MARÇO, MARÇAGÃO rima com Verão e quem estivesse por Lisboa na última semana diria que as estações se tinham baralhado com o calendário. Um fenómeno habitual para qualquer latino residente para cá de Badajoz mas não para quem cresceu com temperaturas máximas de vinte graus. E entre uma minoria presente na capital portuguesa em meados do mês, por esta ou aquela razão, encontrava-se uma escocesa ainda desconhecida do grande público mas, claramente, a projectar-se para uma carreira de grande fôlego. O palco escolhido foi o do Ritz, perto do coração de Lisboa e a um passinho da Estufa Fria, onde à noite Amy MacDonald viria a apresentar-se pela primeira vez em Portugal, ainda que perante uma plateia sobretudo composta por jornalistas e agentes ligados ao meio da música. Mas voltemos ao horário diurno. À porta do hotel, a agitação era grande mas não pela presença de uma estrela emergente da pop. O presidente angolano José Eduardo dos Santos atraía todas as atenções de quem circulava nas proximidades do Parque Eduardo VII. A concentração de seguranças podia indiciar a presença de um rapper famoso à escala global, isto se levarmos em conta o aparato que rodeou as visitas de 50 Cent a Portugal. Se, na recepção, todos os olhos permaneciam atentos a qualquer presença estranha que pudesse representar perigo para o líder político, a viagem de elevador até ao sexto andar mais parecia um caminho para a paz.

O PRIMEIRO CONTACTO visual com Amy Macdonald revelou uma figura de tez pálida, tipicamente britânica, própria de quem não via o sol há algumas semanas. Um dado que a escocesa viria a confirmar numa primeira troca de palavras que serviu para quebrar um gelo que, verdadeiramente, nunca existiu. Consciente de uma ascensão meteórica no Reino Unido mas também de algum desconhecimento da sua música no Velho Continente, MacDonald mostrou-se de uma disponibilidade extrema, apesar de uma indisposição a ter deixado algo debilitada. Mas profissionalismo acima de tudo porque the show must go on.  Quem era afinal esta nova artista? Uma consulta rápida a entrevistas anteriores não revelou muito sobre a figura. A música foi quase sempre o tema central e, realmente, a biografia também não evidenciava feitos dignos de registo, descontando as canções. Em Portugal, começava a ser mais que uma perfeita desconhecida. Poucos dias antes da entrevista, foi anunciada a sua primeira visita para actuar num showcase de apresentação do Sudoeste. A notícia trazia água no bico e MacDonald foi quase imediatamente confirmada no festival mais quente do Verão. E que outra maneira de nos dirigirmos a uma rapariga de 21 anos se não pedir um resumo breve do seu percurso de vida? Sem demoras, a menina dos olhos azuis brilhantes responde: «Quando tinha três ou quatro anos fui a um concerto do Michael Jackson, mas o que me fez querer ser artista foi ter visto os Travis no festival T in the Park. Apaixonei-me pela música deles e quis aprender a tocar. Quando voltei comprei uma guitarra e um songbook [livro de pautas] dos Travis. Fui autodidacta. Aprendi sozinha, através das canções deles. Depois, comecei a compor naturalmente. Na escola, já adorava tocar. Entretanto, tive a sorte de aparecer numa revista quando tinha 18 anos. Assinei pela Universal logo a seguir. Em 2006, o meu primeiro álbum saiu no Reino Unido e um ano depois foi distribuído no resto da Europa.»

O resto da história começa a ser amplamente difundido um pouco por todo o mundo, ou não se tratasse de uma artista comparável aos jogadores que se estreiam na equipa principal ainda em tenra idade. A prontidão com que MacDonald respondeu não tem que ver com qualquer efeito de mecanização mas sim com o desejo de conquistar uma audiência mais vasta e também com a catadupa de questões que lhe têm sido colocadas, correspondendo ao interesse crescente que tem havido em torno do seu primeiro álbum This Is the Life. O sotaque escocês cerradíssimo com que se exprime é traduzido por gravador quase tão eficaz quanto os tradutores do Parlamento Europeu.  MACDONALD FALA de coração aberto sobre a sua vida. Mas não se pense que até chegar onde a encontrámos teve um percurso complicado, cheio de dúvidas existenciais, paixões não correspondidas e tendências depressivas. Pelo contrário, a sua adolescência foi «extremamente feliz», refere com um ar cândido. «Tenho excelentes memórias desse período, da escola e das aulas», declara com ar de quem ainda se lembra do primeiro beijo atrás do pavilhão gimnodesportivo. E se Amy MacDonald é cidadã do mundo e também artista, grande parte dessa responsabilidade tem raízes familiares.

A aventura no citado festival teve como impulsionadora a mãe. «Tinha 12 anos e ela queria ver os Travis.» Surpreendente, ou talvez não. «÷Eu e os meus pais] temos gostos um pouco diferentes mas eles também gostam de música embora não tanto como eu.» Parte do enigma está resolvido. E foi na escola que desenvolveu o gosto pela guitarra, o instrumento que foi e continua a ser parceiro, quer no acto de criação quer na interpretação das canções. «Era a única rapariga que tocava guitarra. Todos os Natais, a escola fazia um concurso e eu concorri. Subi ao palco com a minha guitarra para cantar um tema da Dido e ganhei! É curioso porque a partir daí houve uma série de raparigas que quiseram aprender a tocar, portanto parto do princípio de que inspirei alguém. As pessoas que me conheciam ficaram chocadas. A professora de música também. Todos desconheciam a faceta de artista. Eu guardava esse lado para mim mas havia pessoas que tinham aulas. Foi uma surpresa para elas que eu soubesse tocar e cantar.» Sem saber, esta loira de maçãs rosadas começava a escrever um capítulo decisivo para a definição do seu futuro.  MacDonald era uma espécie de maria-rapaz no seu enclave, o que se confirma quando lembra que «era a única rapariga que tocava guitarra». E também por isso nunca se mostrou apaixonada pelas «bandas de raparigas», como as Spice Girls ou as All Saints. Exceptuando esse dado curioso, MacDonald era uma rapariga normalíssima. «Sempre tive um grupinho de amigos. A minha melhor amiga era mais de ir às compras enquanto eu ia para casa tocar guitarra, mas sempre foi uma relação saudável.» Um modelo oposto ao de tantas outras figuras que alimentam mitos rock’n’roll e se comportam segundo esse padrão. E se outra prova fosse necessária, percebe-se que não é preciso ser rebelde sem causa para legitimar uma carreira na música.

Uma das artistas que é normalmente associada a Amy MacDonald é a sempre polémica Amy Winehouse. Sem papas na língua, a escocesa diz o que pensa sobre duas das grandes estrelas da pop actual: além de Winehouse, a mais tranquila Duffy. «É curioso porque nunca tinha sido comparada com elas. Só cá em Portugal [risos]. Acho que sou completamente diferente delas. Sinto-me orgulhosa por ter escrito todas as canções e ter tocado guitarra. Não é música de produtor. Eu sei que a Amy Winehouse batalhou muito para chegar onde chegou. No caso da Duffy, eu já a conhecia antes de ela se ter tornado estrela. Acho que é tudo tão calculado, parece que é a indústria que lhe diz como é que as canções hão-de ser feitas. É um caso de hype [êxito fabricado pela publicidade], mas eu prefiro que a música seja o mais importante.»

Nunca se saberá se Amy MacDonald seria capaz de assumir uma opinião tão polémica num Reino Unido em que os músicos estão constantemente a ser escrutinados pelos tablóides. No reverso da medalha, os enérgicos Arctic Monkeys recolhem a preferência de alguém que não podia estar mais distante em termos estilísticos. «Eu adoro-os e a forma como eles surgiram. Ninguém os conhecia mas uma canção apareceu e foi suficiente para atrair uma série de pessoas. Quem os ouviu percebeu que eles iam ser grandes. E eles não são nada pretensiosos! São naturais, fazem o que sabem.»   SERIA NATURAL para quem aterra de pára-quedas numa montra tão apetecível como é a música um certo deslumbramento, que se poderia também reflectir numa manipulação de quem conhece apenas o lado cor-de-rosa das canções e não aquilo que as projecta nos nossos ouvidos. Amy MacDonald está bastante consciente dos truques da indústria mas pouco interessada em cair nessa armadilha. «Não tinha uma opinião muito formada sobre a indústria. Agora, sei que há muitas mentiras e odiozinhos. Sei que há muitas influências na maneira como são construídos alguns hypes e tenho alguma resistência a isso. Acima de tudo, procuro que a música fale por si. Não gosto da ideia de serem destruídas pessoas ainda antes de se ter ouvido um segundo da sua música. É ridículo.»


Palavras para quê? Não há aqui contradições e a própria Amy MacDonald assume que «é normal que uma pessoa se torne mais cerebral». O resultado é mais ou menos este: «Sabemos o que fazer para vender discos e pensamos que deve ser a música o mais importante, mas é complicado. Estou satisfeita por ser inteligente e não me deixar levar por algumas tricas da indústria.» E quando é que Amy MacDonald se sentiu pela primeira vez artista? «Na escola trabalhei muito mas nunca me vi como artista até assinar um contrato com a editora. Acho que é bom ter um suporte. Sempre tive boas notas. Quando estava prestes a entrar para a faculdade, a Universal fez-me uma proposta. Neste momento, estudar não é algo de que sinta falta.»

E se não fosse cantora? «Seria professora de Geografia. Sempre gostei muito. A minha professora favorita era a de Geografia. Agora, tenho a oportunidade de conhecer a geografia por dentro porque estou sempre a viajar [risos]. É uma maneira de estudar a matéria.»


Falemos então de música. Os Travis foram os grandes responsáveis pela entrada em cena de Amy MacDonald, o que confirma a sua paixão pela música britânica, mas os Oasis também estão entre os preferidos. Há mais: «Também gosto de artistas americanos como o Bruce Springsteen. Não sou tão rock’n’roll mas acho desinteressante quando um artista vai atrás de outro. Há sempre influências, mas ninguém é obrigado a fazer cópias.» Ídolos com quem já privou e que continua a admirar mesmo depois de se ter quebrado «alguma magia».


Personalidade acima de tudo para quem já vendeu 2,5 milhões de cópias em todo o mundo. Uma responsabilidade «muito fácil de gerir» porque a fama «nunca foi um objectivo». Mesmo assim, há um sentimento de privilégio «por haver tanta gente que comprou o disco».

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