1. O Presidente disse-nos que a vida se mantém congelada até ao fim de março... mas pode ser abril, ou mesmo até ao verão, não se excluindo que talvez só no outono isto alivie, porque muito depende da vacina, mas essencialmente de nós - dos casos. Mas quantos? Podem dizer-nos se estamos confortáveis com... três mil casos? Ou com apenas mil? E se forem cinco mil com alívio do SNS, por força da vacinação dos mais velhos, já podemos funcionar minimamente?.Como mobilizar uma equipa (um país) sem uma meta a atingir? E se chegarmos lá antes, podemos sair?.2. O simples e bondoso "fique em casa", mil vezes repetido, é uma frase de marketing feita para a "elite-covid". Não existe a frase "vá trabalhar com cuidado" para os mais de dois milhões que não podem parar..Passei a seguir a consultora PSE sobre os níveis diários de mobilidade dos portugueses. E o que vemos? No primeiro confinamento tínhamos em casa 65% dos portugueses. Entretanto, em janeiro, com escolas a funcionar, estavam apenas 40%. Quando fecharam, passámos para perto de 55%..É o que se pretende? Na verdade, há quase mais 10% de pessoas a movimentarem-se do que em abril. Explicações possíveis: maior desespero económico, confiança nas máscaras, menos medo....Em paralelo, a indústria e a construção nunca foram englobadas no confinamento (e a produção e os serviços essenciais não podem parar). Portanto, mais de 40% da população ativa tem de circular: foi-lhes proibido confinar, desde o primeiro dia. Isto é assim porque assumimos a impossibilidade de parar radicalmente a economia e baixar mais rapidamente os números..Portugal não é um país rico e aceitamos a ideia de que não se pode pagar lay-off na construção e na indústria. Todavia, temos de tirar duas conclusões: a primeira é de que estamos a concentrar todo o esforço nos que estão em casa. É com estes que queremos baixar o número de casos, salvando-lhes a vida como recompensa. Em contraciclo, os que têm de trabalhar vão continuar a adoecer/contagiar/morrer. Eles e as suas famílias. O que nos leva ao segundo ponto: como é desigual este confinamento. Na indústria e na construção trabalham pessoas tendencialmente mais pobres a quem nunca demos sequer uma semana para se protegerem..Tem de ser assim? Do ponto de vista económico também é paradoxal: vamos aniquilar o turismo, a restauração e tantas outras empresas fechadas durante meses e meses, além do dano nas escolas, tudo porque não podemos fazer uma paragem generalizada desses setores durante alguns períodos - no Carnaval e na Páscoa, por exemplo, fruto de um acordo social. Conclusão: estamos a levar toda a gente à exaustão por não se repartir o esforço social. Isso normalmente acaba mal..3. Escolas. Preocupante o facto de alguns médicos ignorarem a elevadíssima taxa de contágio surgida a partir de 4 de janeiro nos grupos etários 0-5, 6-12 e 13-17 (ver números do matemático Carlos Antunes, TVI 24). Com essa lacuna de dados, mais depressa regressa o tema da abertura do grupo 0-12. Vamos voltar a fazer experiências com escolas e vírus enquanto 60% da população está em casa com o único objetivo de não ser atingida pela covid-19?.4. Janeiro de 2021 ficará para a história o momento em que, só num mês, destruímos a década seguinte em vidas precocemente perdidas, reputação e dívida..A conta explodirá, mas o fantasma da troika já regressou. Tudo porque se temia o que diziam os negacionistas das extremas esquerda e direita. Cá estarão depois, esses mesmos, para capitalizar a revolta sobre a fatura a pagar. Breve breve..Jornalista