Os críticos têm razão: o atraso da Protecção Civil no fogo assassino e o roubo de armamento num paiol militar resultam indirectamente dos cortes orçamentais. Apesar disso, grande parte dessas críticas são míopes, hipócritas e ingénuas. Míopes porque a despesa pública tinha de descer; hipócritas porque foram as reivindicações desses críticos que forçaram estes cortes específicos; ingénuas por ignorarem a vastidão da calamidade que aí vem..Sem ilibar os profissionais que falharam, ou entrar na tolice dos bodes expiatórios, é evidente que estes terríveis acidentes resultam da decadência estrutural da função pública na última década. Mas a história é muito mais antiga, e terá duradouras consequências no futuro..O Estado foi dos que mais beneficiaram nos 15 anos da fartura paga a crédito externo. Do Tratado de Maastricht de 1992 à crise financeira de 2008 viveu-se a mais gloriosa época de serviços públicos em Portugal, com enormes ganhos de qualidade e eficácia em múltiplas infraestruturas. Saúde, educação, transportes, segurança, defesa, território, energia, ambiente e tantos outros beneficiaram de investimentos e melhorias impressionantes. Multiplicaram-se as bibliotecas municipais, pavilhões polidesportivos, centros de saúde, parques industriais, etc. Portugal, que há 25 anos era um país modesto e atrasado, aproximou-se rapidamente da média europeia, graças aos empréstimos desses mesmos parceiros europeus..Quando os mercados fecharam no colapso global, revelou-se a ilusão, tornando-se então evidente que as melhorias não eram sustentáveis. Evidente para todos, menos para parte da nossa intelectualidade, que ainda nega a necessidade dos cortes, exigindo direitos sem pensar em pagá-los. Mas os cortes eram inevitáveis e até foram poucos, dado que, após quase dez anos de aperto e redução, a dívida pública continua a subir, só mantendo aparência de normalidade graças à política extraordinária do BCE, que aliás se aproxima do fim..Claro que o ajustamento indispensável não impunha interrupção de serviços, nem sequer o regresso ao atraso de 1992. Não só o país, mesmo na crise, é muito mais rico do que era, mas grande parte do endividamento fora para edifícios e equipamentos, que permanecem no aperto. Impunha-se, porém, uma racionalização profunda de escala e operação dos vários mecanismos, reduzindo os custos para níveis suportáveis com orçamentos realistas. Isso seria, em qualquer sociedade, sempre muito difícil de fazer. Um emagrecimento tão drástico nunca evitaria perdas dolorosas; para mais com tal vastidão e diversidade de sectores envolvidos. Os cortes seriam inevitavelmente devastadores. Só que a nossa gestão política do dramático ajustamento, dominada por grupos instalados, colocou o interesse público em última prioridade..Desde o início da chamada austeridade que a referida intelectualidade tem centrado as queixas nos apertos em salários e pensões. Funcionários e reformados têm fortes razões de queixa da política de rigor, mas as maiores vítimas são, sem dúvida, os utentes e cidadãos em geral. Porque, como os cortes eram inevitáveis, o grosso do esforço acabou por cair em reduções muito mais ferozes de gastos de manutenção, custos correntes, despesas de material e afins..Aliás, esse é o campo mais fácil de cortar, aquele que evita protestos imediatos do pessoal e até do público, apesar de comprometer drasticamente o funcionamento das instituições. Despedir funcionários é impossível, e fechar delegações suscita celeuma. A maneira expedita de poupar é deixar de repor o pessoal que sai, esquecer a compra de sobressalentes, reduzir o material corrente, omitir a reparação de avarias, evitar manutenção e tantos outros gastos operacionais. Os serviços mantêm-se nominalmente, mas como conchas vazias de conteúdo e eficácia..Este processo, começado em 2008 e agravado após 2011, atingiu o paroxismo com o actual governo. Apregoando a ilusão do fim da austeridade e a (ínfima) reposição de salários e pensões, o rigor orçamental foi abertamente desviado para cativações e cortes no investimento, direitinhos nos custos de operação. O problema fica escondido no curto prazo, até a paralisação da actividade gerar um desastre. Nessa altura, aqueles mesmos que forçaram a situação, com desvios de dinheiros públicos para "direitos inalienáveis" dos seus constituintes, são os que mais se indignam com a calamidade. Mas nunca chegam a explicar onde teriam encontrado os fundos para a evitar..A culpa destes desastres é, sem dúvida, da austeridade. A hipocrisia está nas críticas virem de muitos dos que tornaram inevitável esta inoperacionalidade. Negando a necessidade dos cortes, conseguiram servir-se primeiro dos recursos reduzidos, à custa da paralisia dos serviços. Mantêm a concha pública, mas vazia de eficácia e operação. Pior, com instituições e infraestruturas ocas, o torpor, incompetência e, até, desastres destes só podem multiplicar-se.