Como definir o subúrbio? A tentação é quase sempre a de ligar estes núcleos habitacionais a factores como a pobreza. Porém, subúrbio tanto pode ser o bairro de realojamento da Bela Vista, em Setúbal, como o condomínio fechado Belas Clube de Campo, em Queluz..A jornalista do Diário de Notícias Fernanda Câncio respondeu ao desafio lançado em 2001 pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDRLVT) e partiu em busca das Cidades sem Nome, o título que veio dar ao livro que hoje é lançado na cidade do Sado. Em conjunto com o fotógrafo Abílio Leitão, Fernanda Câncio percorreu ao longo de cinco meses a Brandoa (Amadora), a Bela Vista (Setúbal) , o Belas Clube de Campo (Queluz) e Vila Franca de Xira, numa viagem que, como escreve o presidente da CCDRLVT, António Fonseca Ferreira, "nos transporta para um mundo sibilino, habitado por 'gente feliz com lágrimas', onde até a dor é vivida com chorada alegria". É também em 2001 que o Governo, através da CCDRLVT, lança um programa de requalificação dos espaços públicos e das pessoas que vivem nos subúrbios - o Proqual. ."Já tinha feito trabalhos sobre os subúrbios, sobre esta realidade que é mais típica do Sul da Europa a grande cidade rodeada por uma coroa de pessoas e construções", conta Fernanda Câncio. A desertificação do centro de Lisboa, a aglomeração desordenada de construções, sobretudo nos anos 60, em mancha de óleo, foram factores inerentes ao aparecimento do que hoje é "um grande problema": os subúrbios."Nesses lugares as pessoas vivem mal, gastam tempos infindos nos transportes públicos entre casa e trabalho, a vida familiar é estilhaçada", conta a jornalista, que sublinha: "Tive total liberdade na concepção e abordagem do tema e do trabalho." Partindo da etimologia da palavra - do latim suburbium (sub+urbs, is), o que está próximo da cidade, os arredores -, Fernanda Câncio procurou questio- nar o conceito e os vários tipos de subúrbios, através do trabalho no terreno. E descobriu coisas interessantes como a diluição da ideia convencional de subúrbio. "Hoje, a cidade e o subúrbio confundem-se", diz a autora, lembrando que no seu trabalho "as pessoas que vivem nos subúrbios recusam essa ideia". Simultaneamente a autora também quis questionar a ideia de que "suburbano" é igual a "desqualificado". "Por isso incluí também o Belas Clube de Campo. Com isto pretendi perceber como é viver num condomínio fechado, solução urbanística com uma tendência crescente no nosso país. Procurei saber porque é que estes sítios estão conotados com o privilégio, como é que as pessoas ali vivem. E descobri que também elas se debatem com problemas idênticos aos dos habitantes daquilo a que chamamos subúrbios. Estão no meio do nada, não têm um supermercado, não têm transportes", conclui, sublinhando que o livro é, acima de tudo, "um olhar descomplexado sobre esta realidade".