Depois de Pedrógão a ministra não podia sair porque havia que enterrar os mortos e cuidar dos vivos. Depois não podia sair porque não estavam certificadas por comissão cientificamente habilitada responsabilidades da estrutura da qual é a máxima responsável - a Proteção Civil - por aquelas 65 mortes. Depois, na quinta-feira da semana passada, saiu o relatório da tal comissão cientificamente habilitada, a comissão técnica independente: houve "subavaliação e excesso de zelo na análise da fase inicial do incêndio", "deficiências no comando" - enfim, "as consequências catastróficas do incêndio não são alheias às opções táticas e estratégicas que foram tomadas". Ontem, o relatório de Xavier Viegas reforçou: "Estamos convencidos de que se poderia ter evitado algumas mortes e muito sofrimento aos feridos se este socorro tivesse sido mais pronto e mais bem organizado." Dito de outra forma: houve culpa humana nas 65 mortes de Pedrógão. Mas a ministra ficou - incrivelmente ficou. Entretanto, o IPMA ia avisando que vinha aí mais um fim de semana quente (no fim de semana passado). E assim como Pedrógão ocorrera com o dispositivo ainda em construção, também agora se estava perante uma situação semelhante, com o dispositivo já em fase de desmobilização. Resultado: pelo menos mais 38 mortos. E assim pergunta-se: porque se repetiu tudo? Se não se aprendeu nada em quatro meses, que falta é que a ministra faz? O que é que, por sua ação ou sob a sua inspiração, mudou para melhor? Está lá apenas porque é preciso cuidar dos vivos e enterrar os mortos? Para isso não faz falta nenhuma e é mesmo melhor que não apareça. Já reparou a ministra que a sua existência enquanto tal foi absolutamente indiferente para a evolução dos acontecimentos? Não percebe que já só é um verbo de encher? E acha o senhor primeiro-ministro que o país pode mesmo ficar à espera dez anos da sua famosa "reforma da floresta"? Fomos da náusea ao vómito. Com a história que se repete e com uma governante que em plena tempestade fez questão de nos recordar que não teve férias, como se tivéssemos de ter pena dela (e dando-nos uma imensa vontade de passar da crítica ao insulto puro e duro). Como se mantém uma pessoa no governo que, cada vez que aparece, já só é questionada por que razão não se demite? O Estado foi-se embora. Um secretário de Estado às tantas já só dizia que devia ser o povo a tratar dos fogos. Se no dia seguinte o povo começar também a tratar dos incendiários não se admirem.