O facto de as guerras comerciais serem fáceis de ganhar, como afirma o presidente dos EUA, Donald Trump, depende muito do oponente. Se o alvo for a Alemanha - um país com um excedente de conta corrente de cerca de 8% do produto interno bruto - então sim, uma guerra comercial é fácil de ganhar..Os EUA visarem a Alemanha é, em alguns aspetos, um erro de categoria. Como membro da UE, a Alemanha não possui uma política comercial independente. Como membro da zona euro, não tem uma moeda nacional. O interlocutor geográfico certo para os EUA seria a UE ou a zona euro: a primeira se a sua indignação for política comercial, a segunda se for a moeda. Mas, no final, essa distinção não importa. A zona euro gerou um excedente em conta corrente de 3,5% do PIB em 2017, o que é imenso dado o tamanho da economia..A estratégia anticrise da zona euro desde 2012 tem sido míope, levando a conta corrente a um forte excedente e esperando que o mundo o absorva. Era uma estratégia de empobrecer o vizinho, mais apropriada para países pequenos do que para a segunda maior economia do mundo. A razão pela qual essa estratégia é insustentável está agora a tornar-se evidente: ela torna-nos vulneráveis a ações protecionistas, como as tarifas de 25% sobre o aço e as tarifas de 10% sobre o alumínio impostas pelos EUA. Estas medidas devem entrar em vigor na sexta-feira, a não ser que haja um adiamento de última hora..A Alemanha é um grande exportador de aço para os EUA, mas o aço é apenas uma questão lateral. A verdadeira questão é se Trump vai avançar com as suas repetidas ameaças de impor tarifas sobre carros importados. O grupo de reflexão Bruegel, com sede em Bruxelas, calculou os efeitos de uma hipotética tarifa de 35% que atingisse a indústria automobilística europeia; o resultado foi uma estimativa de perda de receita de 17 mil milhões de euros por ano. O impacto económico geral seria maior devido aos efeitos sistémicos. A UE não está apenas dependente das exportações, mas também da produção de carros para vender ao mundo..As tarifas dos EUA são apenas um dos três choques potencialmente desestabilizadores para a indústria automobilística. Outro é um brexit abrupto. Não espero que isso aconteça, mas é um cenário mais plausível do que uma revogação do brexit. Nesse cenário infeliz, o Reino Unido poderia acabar impondo tarifas sobre os automóveis importados da UE. De acordo com as últimas estatísticas alemãs, os EUA e o Reino Unido constituem a maior e a segunda maior fonte do excedente comercial da Alemanha. A combinação das tarifas dos EUA com um brexit abrupto seria um choque debilitante..Um terceiro e mais previsível problema é a queda em curso na venda de carros a diesel. Uma recente decisão judicial do Supremo Tribunal Administrativo da Alemanha deu luz verde às proibições de carros a diesel em cidades alemãs, muitas das quais não têm outra maneira de atingir as suas metas de emissões. A indústria automobilística alemã apostou fortemente na longevidade da tecnologia diesel e está agora a ser obrigada a apresentar um plano B. Tendo investido nas tecnologias erradas durante demasiado tempo, as empresas de automóveis não sairão provavelmente vencedoras quando o mundo for tomado por carros elétricos de condução automática..Do ponto de vista estratégico, o facto de a UE se ter permitido tornar-se tão dependente da exportação de um produto com um ciclo de vida tardio é uma loucura total. Todo o seu modelo de negócios acaba por ter sido baseado na aposta de que Donald Trump não se tornaria presidente dos EUA, que não haveria brexit e que se poderia aldrabar nas metas das emissões para sempre..Do ponto de vista dos EUA, as tarifas podem ser economicamente contraproducentes. Mas este é um jogo de poder geopolítico: começa-se com uma tarifa sobre o aço e o alumínio, aguarda-se a reação da UE (talvez tarifas sobre a manteiga de amendoim ou o sumo de laranja) e depois contra-ataca-se com uma tarifa sobre carros. A Comissão Europeia possui uma lista de produtos dos EUA para potenciais sanções de retaliação. A Alemanha quer que a Comissão avance suavemente. Os EUA ainda podem isentar a UE das tarifas sobre o aço e o alumínio, mas com condições duras: um limite para as exportações de aço e um aumento nas despesas com a defesa. Há muita atividade diplomática..Mas os líderes da UE estão numa posição fraca e dependeram durante muito tempo dos EUA para a sua segurança externa e, mais recentemente, para a absorção dos seus excedentes estruturais de conta corrente. Com as suas tarifas de comércio, Donald Trump tem um único instrumento para influenciar tanto a política comercial da UE quanto as metas de despesa com a defesa dos Estados membros e as suas contribuições para a NATO..Pode argumentar-se que é imoral usar a política comercial desta maneira. Mas esse argumento perde força se se considerar a moralidade da política da UE ao gerar um excedente grande e persistente com o resto do mundo; ou, na verdade, ao fazer promessas em relação à despesa com a defesa que não tinha intenções de cumprir..Esta guerra comercial é realmente fácil de ganhar. Vai ser o equivalente ao xeque-mate do tolo no xadrez: o jogo pode acabar em dois movimentos.