De cada vez que vou às compras de víveres - e agora, desde há vários anos, vou às compras a pé, na zona onde resido, para tentar reduzir a minha "pegada de carbono" mas também para alimentar o comércio local e porque é muito mais agradável assim do que ir a grandes supermercados - aflijo-me com a quantidade de sacos de plástico que levo para casa..Já não uso os grandes, de transporte, que passaram e bem a ser pagos - tenho um carrinho para levar as compras - mas aqueles em que se pesam peixe, carne, fruta, legumes, e que acabam sempre por ser muitos. Andava há uns tempos a pensar como substitui-los por sacos reutilizáveis, quando descobri que alguém já teve essa ideia. Muitos alguéns, na verdade: na internet há vários tipos de sacos desses à venda. Quase todos de plástico reciclado. Fiquei entusiasmada, mas depois com dúvidas. Será que este é o tipo de compra que serve apenas para eu me sentir bem comigo própria, ou de facto tem valia ecológica?.Devo encomendar os sacos reutilizáveis, que virão por avião ou camião não sei bem de onde, a muitos quilómetros de distância, e cujo método e material de fabrico não conheço realmente, ou continuar a usar os que me dão no supermercado? O que é melhor? Há alguma solução que não seja má?.O problema é este. De cada vez que nos pomos - nós ocidentais das sociedades de abundância e desperdício - a pensar a sério nestas coisas percebemos que praticamente todas as soluções de que nos lembramos são más. Que toda a forma como vivemos está baseada nos combustíveis fósseis e num modo de produção e consumo que depende da destruição de recursos e de poluição mais ou menos desenfreada..Não preciso de falar de carne de vaca - estamos conversados sobre a carne de vaca, ou eu pelo menos estou: é para evitar. Mas, por exemplo, as embalagens da tão saudável quinoa biológica que compro. Que resultado tem a sua produção intensiva para exportação e o aumento do seu preço em virtude disso nos países da América do Sul de onde ela é originária? Há ou não pessoas a passar fome devido a esse aumento de preço, como já li? Há ecossistemas destruídos para obter espaço para essa cultura? E quanto petróleo queimado implicaram estas embalagens para chegar à minha mão?.As mesmas dúvidas se aplicam a uma miríade de outras coisas. E se posso tentar deixar de comprar uma série de produtos - o shop stop que Greta Thunberg prescreve -, não posso deixar de comprar comida. E só aí tenho um rosário infinito de dores de cabeça. Tão infinito que se percebe que a maioria de nós desista sequer de pensar nisso: é demasiado difícil perceber por onde começar. É demasiado difícil encarar a quantidade de coisas com que nos habituámos a contar que fazem parte do problema..É demasiado horrível percebermos que em Portugal praticamente todo o ordenamento territorial dos últimos 40 ou mais anos se baseou na motorização, quer por se ter permitido construção para habitação em locais sem qualquer outro tipo de acessos como pelo abandono da ferrovia e a falta de investimento em transportes não poluentes (ou, vá, menos poluentes) nas cidades. Como se remenda isto? Como se anda para trás (ou para a frente) na noção de que é indispensável possuir um automóvel e fazer todos os percursos possíveis e imaginários nele? Como vamos inibir-nos, os de nós que podem, de viajar de avião?.Tanta coisa errada..Não admira que Greta Thunberg tenha tido, aos 11 anos, uma depressão relacionada com a sua consciência da urgência da mudança e da dificuldade imensa de a iniciar. Não admira que tenha olhado para todas as declarações grandiloquentes que se repetem há décadas, para as promessas de diminuição de emissões de gases com efeito estufa - um dos primeiros textos de fundo que escrevi como jornalista foi precisamente sobre o buraco no ozono, os aerossóis e os clorofluorcarbonetos, um texto que não chegaria a ser publicado porque, disseram-me, era "demasiado deprimente" - e soçobrado de desespero..Essa consciência que a deprimiu mas a levou a erguer-se e a agir - porque, caramba, é uma miúda notável - é a mesma que conduz muitos de nós, eu incluída, a uma espécie de desligar: se é tudo tão enorme e difícil é melhor recalcar, fazer de conta que não sabemos. Sermos comodistas, porque mudar implica sacrifícios e porque talvez, com sorte, a desgraça venha depois do nosso tempo..E como desligamos não fazemos o que devemos: não só tentar mudar o que podemos na forma como vivemos como pressionar no sentido de uma mudança global. É também por esse motivo, para além dos de óbvio ódio político (e quem julgue que o ódio político nunca foi como neste caso dirigido a crianças e adolescentes lembre-se por exemplo de Malala, alvo de uma tentativa de homicídio, e dos jovens do liceu de Parkland, sujeitos a uma campanha brutal de difamação pela sua luta pelo controlo de armas nos EUA), que Greta Thunberg irrita tanta gente..Porque nos lembra daquilo em que decidimos não pensar; porque nos culpabiliza pelo que devíamos fazer e não fazemos; porque nos pede contas sobre o seu futuro e o de todas as miúdas e miúdos da sua idade. E porque não sabemos o que dizer-lhe, como responder à sua justa fúria. Abraçá-la, OK, agradecer-lhe por não se calar (nunca te cales, miúda, nunca tenhas medo), mas mais o quê?.Pois. De facto, como nos atrevemos.