Como fazer da música mais que um negócio

No final do ano passado a editora independente City Slang, ligada a nomes como os Arcade Fire ou as Hole, celebrou 20 anos de actividade. O fundador falou com o DN.
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Se hoje a City Slang é uma editora com reputação no circuito da música independente (sendo que há 20 anos esteve ligada ao sucesso do movimento grunge, e actualmente lança discos de nomes tão distintos como os Arcade Fire, Caribou, The Notwist ou Black Mountain), tudo começou numa pequena cidade na Alemanha ocidental onde cresceu Christof Ellinghaus, fundador da editora.

"Quando tinha 16 anos e era um idiota no cume da puberdade conheci um rapaz, que devia ser uns seis anos mais velho que eu, um grande coleccionador de discos e que mais tarde fundou uma fanzine e depois uma editora, a Glitterhouse. Hoje sei que me inspirei ao ver amigos meus a conseguirem lançar música excelente, mesmo que vivessem numa cidade pequeníssima", contou ao DN Christof Elling- haus.

Desde cedo esteve ligado à música e ainda antes de fundar a City Slang geria uma agência de agenciamento e promoção. Acompanhou não só os Nirvana, quando ainda davam os primeiros passos e nem sonhavam com o fenómeno que viriam liderar, mas outras bandas como os Yo La Tengo, Lemonheads ou Flaming Lips. "Foi sem dúvida a altura em que mais me diverti na vida. Andava em digressão com estas bandas todas e era sempre uma experiência divertidíssima ir com os Nirvana a Londres, andar sempre em festas, bebermos imenso...", lembrou.

Na altura chegou a ser convidado por uma editora alemã que teve um sucesso repentino com uma banda de punk rock para criar uma subsidiária. "Eles tinham imenso dinheiro e nem sabiam o que fazer com ele. Mas eu, muito respeitosamente, rejeitei a proposta, porque a música das bandas deles era terrível", contou. Um pouco mais tarde mudou de opinião: "Os Flaming Lips pediram-me se os podia ajudar a encontrar uma editora europeia para lançarem uma cassete com novas gravações. Voltei a falar com a outra editora e disse que fundava a subsidiária, mas com as minhas condições, e eles aceitaram."

Pouco depois decide tornar independente a editora que geria: "Todo o dinheiro que conseguia fazer ficava perdido no sistema deles."

O editor hoje recorda que esta fase inicial "não foi, de todo, fácil" e confessa que foi graças a Courtney Love (vocalista das Hole e viúva de Kurt Cobain) que a City Slang conseguiu crescer: "Imaginem o que era vir de uma editora alemã que ninguém conhece e chegar a Londres com o intuito de vender música americana. É uma ideia estúpida. Demorou muito tempo e foi preciso a Courtney Love falar de nós para termos sido bem sucedidos." O primeiro álbum das Hole, Pretty on the Inside (1991), foi editado pela City Slang. Na mesma altura os Nirvana, com quem Christof Ellinghaus tinha trabalhado como agente, tornam-se um fenómeno. Mas estes acontecimentos não foram vividos pacificamente: "Só me perguntava por que raio tinham eles assinado pela Geffen Records (multinacional)? Foi revoltante, porque a partir daí tornou-se tudo um negócio, de repente tínhamos de competir com os orçamentos das multinacionais", recordou.

Apesar das mudanças que a indústria enfrentou, hoje Christof Ellinghaus mantém a mesma atitude de há 20 anos: "Uma pessoa vai a um bar porque tem boa música, o barman é porreiro e se calhar até tem uma garrafa especial para ti. Gerir uma editora independente é basicamente isto. Torna-se um negócio muito pessoal."

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