Tal como no humor, também o que gira à volta dele está longe de gerar consenso. Numa altura em que o dinheiro escasseia, os portugueses estão mais deprimidos e uma das televisões, a pública, enfrenta cortes severos de grelha. Há vontade de rir quando se olha para 2013?.Maria João Cruz, argumentista há mais de 15 anos de formatos de humor, não olha para o futuro a curto prazo com ligeireza. "O humor vai sofrer grandes cortes e com um ano marcado pela austeridade ainda vai ser pior", suspira a coordenadora de projetos como Estado de Graça, que agora chegou ao fim, ou de Herman 2012, que prossegue. "Primeiro, vamos estar mal dispostos e mal humorados e depois, a qualidade pode cair, não vai haver espaço para trabalhar, não vai haver condições. O que é uma enorme pena porque vai haver muita matéria, mas vai faltar espaço para humoristas, comediantes e produtoras, o que é uma enorme pena", explica a guionista. Faz fé de que "não vai haver espaço para a crítica e sátira social" e vai mais longe: "Queremos acreditar que se não há é mesmo por falta de dinheiro e que é generalizado!".Jel, um dos Homens da Luta, da SIC, discorda. "Houve e haverá sempre espaço para o humor. E para o ano também vai haver", diz. Herman José toma também uma posição mais otimista. Apesar de lidar com "o inimigo comum" com que todos se debatem - "os malditos números" -, diz o anfitrião de Herman 2012 e 2013 que conta com a RTP e com o que lhe foi garantido pela direção de Programas da estação pública, tutelada por Hugo Andrade. "Pelo que sei e pelo que já falei com a atual direção de Programas, há um forte empenho e interesse em fazer do humor um dos pilares fundamentais", sustenta Herman José, que olha para a "a cadeia de hierarquia de comando" e acredita que "está cheia de espectadores". Nas palavras de Herman José, a quem têm sido "dados sinais bem claros" na vontade de continuar a apostar neste género televisivo, "Hugo Andrade, diretor de Programas, nasceu no meio de artistas, Luís Marinho [diretor-geral de Conteúdos] é fã da coisa humorística e Alberto da Ponte [presidente do Conselho de Administração da RTP] não é segredo para ninguém, desde os tempos do Vá Vá [pastelaria da Avenida de Roma, em Lisboa] que ele é vidrado no humor"..Nuno Artur Silva, responsável pela empresa que produz a maior parte dos conteúdos humorísticos em Portugal, Produções Fictícias, já revelou à Notícias TV a sua preocupação relativamente à estação pública. "Há 20 anos que trabalho continuamente com a RTP e nunca tinha visto nada assim. Estamos sem saber absolutamente nada do que vamos fazer em janeiro", declarou o responsável por equipas que fazem programas como Estado de Graça, os de Herman José ou o Canal Q, no Meo. É com angústia semelhante que Maria João Cruz encara o futuro mais próximo. "Estamos todos a trabalhar o triplo das horas para conseguir o mesmo que estávamos a ganhar no ano passado. A maioria de nós tem menos trabalho, mas ainda assim temos substancialmente mais trabalho do que o que vislumbramos para o ano que vem", suspira..Público vs privados.Se a estação pública não apostar na sátira social, poderão as privadas interessar-se nisso? Jel, um dos Homens da Luta, da SIC, lembra que "há muitos anos que a RTP não tem o monopólio do humor, é um canal que, nessa matéria, bate-se com a SIC ou a TVI". Considera que o serviço público "não tem a obrigação de fazer um humor de determinado género" e frisa que, no que diz respeito à situação de privatização ou concessão da RTP a privados, "o humor é o aspeto menos ameaçado" no âmbito das alterações possíveis para a empresa pública.."O humor quando é bem feito, tem resultado. E mede-se de duas formas: se faz rir as pessoas e se traz audiência", considera Jel. Opinião distinta tem Herman José: "Os privados estão interessados com o que dá audiência. Se coincidir, como aconteceu com Gato Fedorento Esmiúçam os Sufrágios, tem bom resultado, se não, rapidamente o humor é substituído por outra coisa qualquer." Maria João Cruz recorda-se de alguns exemplos. "Nas privadas, tivemos experiências que não correram bem rapidamente, saíram do horário como Manobras de Diversão ou Programa da Maria. Não sei se é por se tratar de humor político ou não, mas falava-se sempre das audiências", recorda, contemporizando: "As privadas têm de subsistir, a guerra das audiências não se compadece. Por isso é que deve haver serviço público.".É na RTP que, de resto, Herman José se revê. "A estação tem um historial imenso e uma responsabilidade enorme na construção do bom humor em Portugal. Fui lá formado porque, um dia, estava a dar os Monty Python na RTP2. Foi com uma direção de Programas atrevida que criei o Tony Silva, foi numa outra que criei O Tal Canal. É muito importante, como faz a BBC em Inglaterra, que a televisão pública mantenha humor na sua primeira divisão"..Maria João Cruz pede mais. Pede que mantenha os argumentistas. "Temo que os cortes nos canais possam chegar aí e nos confrontemos com o facto de já não precisarem de autores", diz, evocando o exemplo do formato humorístico AntiCrise, com Manuel Marques, Eduardo Madeira e António Machado, que "é produção interna da RTP".