Com os males da Samsung pode a Apple bem

O "batterygate" da Samsung e como (não) estamos a preparar as nossas crianças para o futuro
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A bateria do seu telemóvel pode explodir. A do computador também. E num carro híbrido, ou elétrico, o risco é o mesmo. Sabia?

Vem isto a propósito dos Samsung Galaxy Note 7 que ardem. Um caso que representa, segundo as mais recentes estimativas, cinco mil milhões de euros de prejuízo, e terá um gigantesco custo na reputação do fabricante sul-coreano.

Pouco adianta lembrar que qualquer bateria de lítio, as que atualmente equipam todos os aparelhos eletrónicos, é potencialmente explosiva. É algo intrínseco à sua tecnologia. O lítio é excelente para armazenar e descarregar energia porque, basicamente, reage eletricamente a quase tudo. O que gera calor (por isso o telefone aquece enquanto carrega) e faz que seja fácil criar uma reação em cadeia que provoca, literalmente, um meltdown.

Para evitá-lo, as baterias necessitam de ter uma construção microscopicamente precisa - em que os vulgarmente chamados polos negativo e positivo nunca entrem em contacto direto - e software que impeça a sobrecarga. Qualquer erro num ou noutro destes fatores e... bum! Lembra-se dos aviões Boeing 787 Dreamline que tiveram incêndios nos primeiros voos? Aconteceu-lhes algo semelhante ao que está agora a passar-se com os Galaxy Note 7.

Mas quando as companhias aéreas aconselham passageiros a não ligarem aqueles telefones a bordo, é difícil não ficar com a reputação queimada (trocadilho intencional...). Ou quando uma centena de pessoas se queixa de queimaduras. Ou quando a autoridade federal das telecomunicações americana manda recolher mais de um milhão de aparelhos. Ou, no que é provavelmente o fator mais prejudicial de todos, as redes sociais se enchem de memes a comparar a Samsung às bombas do Estado Islâmico...

Vale a pena lembrar que o Note 7 é apenas um de centenas de modelos que o fabricante coreano já fabricou? Que o número de casos de incêndio registados representa 0,01% dos modelos vendidos nos EUA - e 0,004% dos distribuídos no mundo? Ou que a Samsung é apenas um de dezenas de fabricantes de smartphones, que vão da HTC à LG, da Huawai à Sony, da Alcatel à Blackberry, passando pela Acer, HP ou Microsoft...?

Provavelmente, não. Para milhares de potenciais compradores norte-americanos, o recall oficial desta sexta-feira só significou uma coisa: que o seu próximo telefone será um iPhone 7. E se os casos das cassetes de vídeo Beta ou dos discos de música Minidisc nos ensinaram alguma coisa, é que nenhum produto de tecnologia de consumo vinga se não for adotado nos Estados Unidos.

Importante como a tabuada?

Com o ano letivo a arrancar, apetece refletir um pouco sobre a educação que, enquanto sociedade, damos às nossas crianças. Muito já mudou nas últimas décadas, em especial nas disciplinas ligadas às ciências exatas (se tem mais de 35 anos, pergunte a uma criança no ensino básico como é que lhe ensinam a "fazer contas"). Mas será que chega?

Longe vão os tempos - felizmente - em que se tinha de saber todas as estações e apeadeiros da CP. Era, aparentemente, uma ferramenta fundamental para uma vida adulta plena... Mas numa realidade em que cada um tem no bolso um aparelho capaz de lhe mostrar num mapa exatamente em que lugar do mundo se encontra, importante será ensinar ao futuro adulto como funcionam as tecnologias de que, e cada vez mais, ele dependerá para viver.

Passámos do tempo em que se cantava tabuada em coro na sala de aula para o enfoque no desenvolvimento do raciocínio lógico. E que tal explicar aos mais novos como se programam as máquinas que nos rodeiam? O futuro já chegou (há algum tempo, diga-se) e é digital. Quem melhor souber falar as suas linguagens maiores hipóteses de sucesso tem na vida.

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