1-O problema do chamado crowd funding, preconizado por Poiares Maduro para a RTP, é o de sempre: a filtragem das propostas. Entende o ministro da tutela que a estação pública deve criar um espaço online para os espectadores sugerirem projetos e contribuírem para a sua execução. Não é uma ideia nova: várias publicações americanas têm obviado assim à má relação custo/benefício, por exemplo, do exercício da grande reportagem. Acontece que estamos em Portugal, um país tomado pela cólera (com justiça, sim, mas já sem lucidez), onde ironias como a de Joseph Blatter, brincadeiras como a da Pepsi Suécia ou graçolas como a de Bruno de Carvalho levam milhões de cidadãos a exigir sangue. Temo que muitas propostas, em caso de o crowd funding avançar, venham contaminadas do mesmo delírio - e temo também que, quanto mais delirante for a ideia, mais fácil seja reunir o financiamento necessário. Portanto, crowd funding, sim. Mas, mais uma vez, com filtragem profissional. É preciso cuidado com o "mundo Facebook"..2-Celebramos o estudo da Marktest que diz haver em Portugal 1,2 milhões de pessoas a ver TV online, mas não nos detemos na questão essencial: que TV? Através da internet, e salvo exceções, não se "vê" televisão: respiga-se e pirateia-se. Ou seja: conferem-se os golos dos jogos do dia anterior, selecionam-se notícias dos telejornais, espiam-se vídeos "engraçados" carregados à margem da lei - e, quanto ao resto, vê-se futebol em canais injetados à margem da lei também. É por isso que o principal consumidor são os jovens do sexo masculino. A internet já está a mudar a TV, sim. Mas ainda não mudou.