Ano de 1902, o estado australiano de Queensland enfrenta uma dura seca. A canícula prolonga-se há meses. O verão austral, período propício a precipitações nesta região semiárida, não acumulara mililitros de água nos pluviómetros. Seguiu-se-lhe um inverno frio e ausente de precipitações. A 26 de setembro, pouco depois das 12:00, um plano gizado há meses na expectativa de pôr fim a longos meses de secura, substanciava-se sob a forma de explosões atordoantes em redor da cidade de Charleville. Ao longo de vários minutos, uma bateria de canhões Stiger Vortex, semelhantes a majestáticos funis apontados ao céu, distando entre si 1,5 Km, disparou salvas de explosivos contra um inimigo feérico, as nuvens. A multidão reunida em Charleville assistiu à encenação de uma batalha antiga, aquela que resultava da crença que, quando agitadas a partir do solo, nuvens estéreis responderiam com um milagre de águas, ou, ao invés, reprimindo-as. No século XIX, em Itália, produtores de uvas recorriam a canhões suíços e germânicos na esperança de estraçalhar nuvens cumulonimbus, guardiãs de tempestades de granizo, carrascas das vinhas. Antes, a Idade Média europeia assistira ao disparo de canhões, flechas e ao repicar de sinos como forma de afastar tempestades em aproximação. Na aridez do outback australiano, sem que houvesse prova científica sustentável, um meteorologista britânico convencera o governo local, a agitar as nuvens que pairavam sobre Charleville. Não obstante todo o aparato, a voz troante dos seis canhões e a notícia da debandada das aves e sustos dos equídeos, os relatos da época não dão notícia de precipitação assinalável nos dias subsequentes à demonstração. Clement Lindley Wragge que, nas últimas duas décadas agitara o marasmo do cenário da previsão meteorológica australiana, viu-se desacreditado. Em 1903, deixaria a Austrália para continuar, até ao ano da sua morte, em 1922, as viagens que o motivavam desde jovem idade..Nascido a 19 de setembro de 1852, na inglesa Stourbridge, Clement Wragge não faria supor nos primeiros anos da sua vida o contributo que traria ao desenvolvimento da ciência meteorológica, nomeadamente no que toca ao estabelecimento de uma padronização das observações e cooperação internacional; à implementação de um sistema de códigos representativos das condições de tempo, capazes de serem transmitidos por via telegráfica e à criação de um sistema de nomeação das tempestades tropicais que, embora arcaico, vigoraria por décadas..Errático no seu percurso escolar, Clement deambulou os seus interesses académicos entre o estudo do Direito e o da Medicina, para, só mais tarde, fixar a sua atenção nos fenómenos que animam a atmosfera, embora sem desmerecer num plano mais espiritual os estudos teosóficos e o espiritismo. Em 1879, estabeleceu duas estações meteorológicas em North Staffordshire, no oeste de Inglaterra, mantidas nos anos posteriores; as primeiras de um conjunto de postos de observação dos estados do tempo ao longo do território. Em 1881, a notícia dos planos da Sociedade Meteorológica Escocesa para o estabelecimento de uma estação em Ben Nevis, tomou de ânimo Wragge. O meteorologista ofereceu-se para ali fazer observações diárias. Oferta que não era de somenos. Ben Nevis, na Escócia, é o cume mais elevado do Reino Unido, com 1345 m de altitude, batido por ventos violentíssimos e chuvas inclementes. A Clement Lindley Wragge coube a tarefa diária de caminhar quatro horas em cada sentido ao encontro dos dados meteorológicos encerrados no observatório no cume de "The Nevis", como é conhecido localmente. Na época, Wragge tinha a responsabilidade sobre três filhos (Leonora, Clement e Rupert), fruto do casamento com Leonora Edith Thornton..Em 1883, quando se muda com a família para Adelaide, na Austrália, os antípodas não eram um território estranho aos périplos de Wragge. No ano de 1874, Clement iniciara com o amigo Gaze Hoclen um tour com Thomas Cook, missionário batista e empresário inglês, pioneiro nas viagens turísticas e promotor da massificação do turismo. Com Cook, a dupla Clement e Hoclen visitou o Egito, o Médio Oriente para, depois, autonomamente, partir à descoberta da Austrália, Estados Unidos e Canadá. No início da década de 1880, no seu regresso aos grandes espaços australianos, Wragge iniciou o estabelecimento de uma rede de observatórios meteorológicos privados. Já com o apoio do governo australiano, Clement Lindley Wragge, foi um dos responsáveis pela fundação da Royal Meteorological Society of Australia. Na época, o governo de Queensland encarrega-o de escrever um relatório sobre o desenvolvimento de uma organização meteorológica local como forma de evitar as perdas de navios para os ciclones. Já como meteorologista oficial do governo de Queensland, Clement monta uma extensa rede de estações meteorológicas. O cientista vira a sua atenção para uma poderosa força da natureza, os ciclones, gigantes com um diâmetro que pode ultrapassar os 1000 Km, nascidos nas águas quentes dos oceanos, com ventos até 300 Km/h, capazes de gerar uma quantidade de energia que supera a potência combinada de várias bombas nucleares. Sobre os ciclones escreveu no seu estilo gongórico Clement Wragee em Experiences of a Meteorologist: "o furor dos ciclones é a dança selvagem da atmosfera, onde os ventos se enroscam numa coreografia caótica, evocando uma beleza terrível e indomável". Wragge sabia que as bacias do Índico e do Pacífico eram uma arena de mortandade nas garras dos ciclones. Em 1876, o ciclone Backerganj atingira o Bangladesh com um número de mortes estimado em 200.000 indivíduos. Há muito que estas bestas da meteorologia recebiam o nome de santos ou das regiões que atingiam. Na década de 1880, Wragge engendrou um sistema de nomenclatura que persistiria até 1907 e que só seria retomado no decorrer da Segunda Guerra Mundial pelo exército, marinha e aviação norte-americanos. Ainda na década de 1880, o meteorologista começa por nomear os ciclones com as letras do alfabeto grego para, posteriormente, enriquecer a lista com os nomes de figuras mitológicas da Polinésia e políticos australianos. Edmund Barton e Alfred Deakin, ambos primeiros-ministros australianos no início do século XX, viram os seus nomes atribuídos à dança funesta de ciclones tropicais. Entre os muitos nomes que preencheram a cartilha de Wragge, estão o de Xerxes, rei da Pérsia, Aníbal, general cartaginês. Em paralelo, Clement editava o seu Australian Weather Guide and Almanac publicação que reunia, sob o mesmo título meteorologia, geologia, artesanato, agricultura e mineralogia, entre outras áreas..O desaire australiano que soprara sob a forma de trombetas aos céus de Charleville não esmoreceu Wragge. Em 1904, visita a Nova Caledónia, as Ilhas Cook e o Taiti para estudar a fauna local. Segue-se-lhes a Nova Zelândia e a Índia onde tem um encontro com Mirza Ghulam Ahmad, fundador da comunidade Ahmadi, movimento religioso muçulmano criado no final do século XIX. Clement Lindley Wragge faleceu em Auckland em 1922. Na bibliografia deixou obras como The Romance of the South Seas e um roteiro global que documentou ventos de nomes tão fabulosos como a hipótese de arrancar chuva às nuvens com a ponta de canhões: Fremantle Doctor, Gregale, Zonda, Chinook, Bora, Harmatão, Willy-willy, Cape Doctor e Brickfielder.