Cinema e televisão globalizaram o beijo

O cinema e a televisão banalizaram o beijo, mas "nem sempre assim aconteceu" e até foi desconhecido em algumas civilizações, disse à Lusa o sociólogo José Machado Pais, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
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"Por exemplo, os chineses tinham asco em relação aos beijos na boca dados pelos europeus, suspeitando ainda de poderem constituir simulacros de canibalismo", exemplificou.

Num café de aldeia, a seguir ao 25 de Abril de 1974, Machado Pais observou que um "velhote protestava, cuspindo para o chão, contra um beijo ousado, boca a boca, de uma cena de telenovela".

"Poucos dias depois, no mesmo café e já com uns copos, ufanava-se de ter ensaiado a cena em casa, apesar das resistências da sua velhota", contou.

Para o investigador, apesar de haver "tantos beijos quantas as formas de beijar", o cinema e a televisão fizeram globalizar o beijo e "tomou-se como modelo de experimentação".

Também lembrou que "chegou a ser proibido na ditadura salazarista", mas que hoje "se beija a torto e a direito".

"Nos inícios do século XX, o beijo ainda era um mistério, até para a própria medicina", contou ainda, lembrando uma tese de doutoramento defendida nos anos 20, na Faculdade de Medicina do Porto, sobre o porquê de lábios e língua se afirmarem como os principais órgãos do beijo.

"Havia a curiosidade científica por desvendar se o paladar tinha alguma influência sobre o beijo", acrescentou.

José Machado Pais "suspeita" que se "esteja a beijar mais, embora menos bem": "É a preponderância da lógica quantitativa sobre a qualitativa", afirmou, dando o exemplo dos jovens das classes médias do Rio de Janeiro (Brasil) que disputam o 'prémio' do maior número de beijos dados numa discoteca a desconhecidos numa só noite.

"O beijo parece estar a banalizar-se e talvez se esteja a perder a magia do beijo", defendeu o sociólogo que no seu próximo livro - "Lufa-lufa quotidiana" - contrapõe o "paradigma da lentidão" da sociedade de outrora ao "paradigma do encontrão" que agora vigora.

"As saudações outrora tão cheias de vénias simplificaram-se, consumando-se num simples 'Oi!' ou 'Olá, que tal?'. Três beijos? Não há tempo. Um chega. Vá lá, dois", argumenta.

No entanto, apesar de a sociedade tender a "cristalizar" algumas convenções, estas podem ser postas em causa, como no caso das ameaças de contaminação de gripe A, que no último ano "colocaram como possibilidade a recuperação tradicional da vénia nos ritos de saudação".

"Nos planos de contingência adoptados pela Universidade de Lisboa, recomendava-se que alunos, professores e funcionários deveriam substituir os habituais abraços, beijinhos e apertos de mão por um sorriso ou uma vénia. O tempo não volta para trás mas antigos costumes podem ser reapropriados, com outros sentidos", concluiu.

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