Cinco novos filmes portugueses na 63ª Berlinale

Novos filmes de João Viana (uma curta e uma longa), Salomé Lamas, Pedro Pinho e Filipa César e um clássico de 1934 de António Lopes Ribeiro no programa do festival que começa hoje.
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A passadeira vermelha em frente ao Berlinale Palast, a concentração de estátuas de ursos vermelhos (o símbolo do festival), o corropio de conferências num hotel nas imediações, a grande bilheteira que leva muitos cinéfilos a dormir de saco cama nas galerias Arkaden e a presença nas redondezas dos muliplexes Cinestar, Cinemax e das duas pequenas salas Arsenal, não deixa dúvidas que, ano após ano, é na zona de Potsdamer Platz que mora o coração do festival. Mas como acontece também a cada ano, a Berlinale é acontecimento "descentralizado" que passa por muitos outras salas de cinema em Berlim. E assim, a partir de hoje, entre esse núcleo que habita uma zona que em tempos era terra de ninguém junto ao muro e outras salas como o multiplex Cubix (junto a Alexanderplatz), o International Kino (a mais mítica das salas da antiga Berlim Oriental, em plena Karl Marx Allee), o imponente Friedrischstadt Palast e uma multidão de outros equipamentos, mais de 400 filmes dão vida à 63ª edição do festival.

Há dois anos Berlim deixou uma cadeira vazia para o iraniano Jafar Panahi . Foi durante a conferência de apresentação do júri da competição oficial da 61ª edição da Berlinale, na qual o realizador deveria tomar o seu lugar entre os demais jurados. Acusado de exercer atividades de propaganda contra o regime, foi preso pelas autoridades do seu país em 2010 e condenado a uma pena de seis anos de prisão e a 20 anos de interdição de fazer cinema. Estava então sob prisão domiciliária, tendo conseguido pouco depois fazer chegar a Cannes o documentário Isto Não É Um Filme. Mas este ano Jafar Panahi estará "presente" Berlim. Não ainda em pessoa, mas na forma de um novo filme. Co-assinado por Kambuzia Partovi (que já trabalhara com Panahi como argumentista), Pardé (que tem o título internacional Closed Curtain) é um dos títulos que integram a lista dos filmes da seleção oficial da edição deste ano.

Confirmando as palavras do também iraniano Abbas Kiarostami, que em outubro do ano passado dera em primeira mão notícia de um novo filme de Jafar Panahi, Pardé é assim um dos títulos numa competição que, entre outros nomes, junta novos filmes de Gus Van Sant, Steven Soderbergh, Bruno Dumont ou Denis Cotè (ver lista completa em baixo). Também integrando a Seleção Oficial, mas fora de competição o festival verá ainda filmes como Comboio Noturno para Lisboa, de Bille August, uma coprodução com participação portuguesa (parcialmente rodado em Lisboa e com Jeremy Irons como protagonista) e Dark Blood, filme de George Sluizer que corresponde à última obra do ator River Phoenix, que morreu antes de concluídos os trabalhos. Rodado em 1993 (o ator morreu a 31 de outubro desse ano), o filme só no ano passado teve a sua primeira exibição pública, num festival em Utrecht.

O júri internacional que terá a cargo a escolha do vencedor do Urso de Ouro, o principal troféu do festival, é presidido por Wong Kar Wai (de quem o novo The Grandmasters é exibido hoje como filme de abertura) e junta ainda as presenças dos realizadores Andreas Dresen (Alemanha ), Susanne Bier (Dinamarca), Athina Rachel Tsangari (Grécia) e Shirin Neshat (de origem iraniana), a diretorade fotografia Ellen Kuras (EUA) e o ator Tim Robbins (EUA).

Além dos prémios Alfred Bauer e Fipresci que Tabu, de Miguel Gomes arrebatou em 2012, há um ano o filme português Rafa, de João Salaviza, venceu o Urso de Ouro para Melhor Curta Metragem. Portugal tem este ano uma outra curta na seleção oficial. Trata-se de Tabatô, de João Viana, que terá ainda em exibição, na secção Forum, a longa A Batalha de Tabatô. A representação portuguesa nesta edição da Berlinale inclui também Terra de Ninguém, de Salomé Lamas (Forum), Um Fim do Mundo, de Pedro Pinho (Generation 14plus) e Cuba, de Filipa César (Forum Expanded). Há contudo mais um filme português no programa. Trata-se de Gado Bravo, de António Lopes Ribeiro (1934), que surge no quadro de um ciclo retrospetivo - sob o título "The Weimar Touch" - que integra obras de Douglas Sirk, John Ford, Fritz Lang. Jacques Tourneur e Max Ophüls.

Fora deste ciclo, entre outras memórias, Berlim vai ainda rever Há Lodo No Cais de Elia Kazan, Cabaret, de Bob Fosse ou Viagem a Tóquio de Ozu. As homenagens com a Câmara de Ouro destacam este ano a atriz Isabella Rosselini e o realizador Rosa Von Praunheim.

Apesar de muitas das atenções estarem concentradas na competição oficial e do nosso natural foco de interesse em acompanhar os novos filmes portugueses do programa, esta edição da Berlinale apresentará, entre as suas outras secções, títulos novos como Don Jon'sAddition (a estreia na realização de longas pelo ator Joseph Gordon Levitt), Frances Ha (de Noah Baumbach), Ayer No termina Nunca, (de Isabel Coixet), Bambi (de Sébastien Lifschitz, o autor de Presque Rien), Lovelace (de Rob Epstein e Jeffrey Friedman, os mesmos autores de Howl), Interior Leather Bar (de Travis Mathews e James Franco, que evoca o mítico Crusing, de William Friedkin) ou Sing Me The Songs That Say I Love You (de Lian Lunson, documentário sobre o concerto de homenagem a Kate McGarrigle, a mãe de Rufus e Martha Wainwright).

Seleção oficial (competição):

"Camille Claudel" 1915, de Bruno Dumont (França)

"On My Way", de Emmanuelle Bercot (França)

"An Episode in the Life of an Iron Picker", de Danis Tanovic (Bósnia Herzegovina/França/ /Eslovénia)

"Gloria", de Sebastián Lelio (Chile/Espanha)

"Gold", de Thomas Arslan (Alemanha)

"The Nun", de Guillaume Nicloux (França/Alemanha/Bélgica)

"Layla Fourie", de Pia Marais (Alemanha/África do Sul/França/Holanda)

"Paradise: Hope", de Ulrich Seidl (Áustria/França/Alemanha)

"Child"s Pose", de Calin Peter Netzer (Roménia)

"In the Name of", de Malgoska Szumowska (Polónia)

"Harmony Lessons", de Baigazin (Alemanha/Cazaquistão)

"A Long and Happy Life", de Boris Khlebnikov (Rússia)

"The Necessary Death of Charlie Countryman" de Fredrik Bond (EUA)

"Nobody"s Daughter Haewon", de Hong Sangsoo (Coreia do Sul)

"Pardé (Closed Curtain)", de Jafar Panahi e Kambozia Partovi (Irão)

"Promised Land", de Gus Van Sant (EUA)

"Side Effects", de Steven Soderbergh (EUA)

"Prince Avalanche", de David Gordon Green (EUA)

"Vic + Flo ont vu un ours", de Denis Côté (Canadá)

Fora de competição, a seleção oficial inclui ainda: The Grandmaster, de Wong Kar Wai (filme de abertura, numa coprodução entre Hong Kong e a China); de Kirk De Micco e Chris Sanders (animação 3D norte-americana), Night Train to Lisbon, de Bille August (coprodução entre a Alemanha, Suíça e Portugal), Before Midnight, de Richard Linklater (Grécia / EUA) e Dark Blood, de George Sluizer (Holanda).

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