um cliente de um spa de emagrecimento. No hotel Grande Real Villa Itália, em Cascais, um programa promete ajudar-nos a perder peso e, principalmente, a ser 'reeducados' alimentarmente. Há refeições muito ligeiras, exercícios, tratamentos, massagens. Será possível que alguém habituado a excessos gastronómicos consiga aguentar este rigor durante quase uma semana? Foi o que tentámos descobrir.Pré-obeso. Depois de quase dez anos ao serviço da gastronomia e dos leitores do DN, foi assim que a esbelta e simpática nutricionista Patrícia me classificou quando cheguei ao Grande Real Villa Itália, um hotel de cinco estrelas quase em frente à Boca do Inferno, em Cascais. Passei lá cinco dias "internado", alheio às invectivas dos meus invejosos camaradas de Redacção, para fazer um programa de emagrecimento no spa do hotel, outrora residência do rei Humberto II, de Itália. . A Patrícia pesou-me e deu 97,2 kg. É muito, eu sei, para o meu 1,79 m. Mediu a minha cintura e deu 99 cm. Mais três centímetros e entrava na zona de risco cardiovascular. Calculou a minha massa gorda em 31% e não se comoveu quando lhe expliquei que a minha profissão implica visitas a restaurantes, provas de produtos gourmet e de vinhos, viagens gastronómicas. Além disso, bons jantares são, para mim, essenciais para a alegria de viver e para o equilíbrio do dia-a-dia. .Informou-me de que eu precisava de 2394 calorias por dia e não há cá Atkins, nem hidratos de carbono misturados com proteínas animais, nem índices glicémicos, nem dietas da Lua, nem pílulas milagrosas. Há calorias que se ingerem e calorias que se gastam, o resto é conversa. E ou eu comia menos ou fazia mais exercício. Aliás, ia mas é fazer as duas coisas, porque, aos 45 anos, tinha de ter cuidado. O resultado foi um plano alimentar de 1200 calorias diárias, exercícios e "tratamentos" no spa. Agora, pode um homem sobreviver durante cinco dias a comer metade das calorias de que necessita? E o sacrifício vale a pena? Perdi peso? Sou um novo homem? A resposta a essas e outras perguntas serão encontradas neste artigo que descreve a minha odisseia..Malditas calorias.A seguir à consulta com a nutricionista Patrícia, veio a da fisiologista Cristina, também ela simpática e esbelta. Explicou-me de novo o princípio da caloria ingerida, caloria gasta, e que há exercícios "formais" (desporto, ginástica, etc.) e "informais" (caminhar, subir escadas, etc). Como há já muitos anos que não tenho paciência para os primeiros, concentrámo-nos nos segundos. Moro a 15/20 minutos a pé do Diário de Notícias e faço diariamente esse percurso de ida e volta. E nunca pego no carro em Lisboa, durante o dia. Pareceu-lhe bem, mas insuficiente. Tenho uma bicicleta estática em casa, que serve mais de cabide do que de outra coisa. Danço ocasionalmente. Moro num segundo andar sem elevador... Nada a demoveu. Tenho de fazer muito mais exercício..E foi isso que me disse a seguir o responsável pelo spa, Cristóvão Silva. Iam fazer uma reunião entre eles e o chefe de cozinha do hotel, Paulo Pinto, para me prepararem o programa para os próximos dias. Logo a seguir vou almoçar e encontro precisamente Paulo Pinto, o responsável por eu estar ali. A ideia surgiu há uns meses, depois de um óptimo e lauto almoço no Belvedere, o principal restaurante do hotel. Ele garantiu-me que eu conseguiria perder peso sem passar fome, comendo pratos gastronomicamente válidos, em apenas uma semana. Eu duvidei. Sempre tive horror a dietas de nutricionistas: duas tostas integrais e 15 g de queijo magro ao pequeno-almoço, meia maçã a meio da manhã, salada ao almoço, lanchar a outra metade da maçã, ao jantar só sopinha e vinho nem vê-lo. Prefiro morrer de uma vez. Ele disse que não era nada disso e convidou-me a experimentar..Após este primeiro almoço do programa, com a imprescindível sopa de legumes e um carpaccio de óptimas vieiras com salada de rúcula, vou conhecer finalmente a minha cela, um espaçoso quarto com vista para o mar. É para não fumadores, mas a varanda será um excelente local para as minhas cachimbadas..Desço então para o spa e vou fazer os primeiros "tratamentos", neste caso uma esfoliação com açúcar. Pequena, vigorosa e extrovertida, a técnica Margarida mostra-me que, quando somos massajados desta maneira, a última coisa em que pensamos é em comer. Antes, vivo um solitário momento de constrangimento no balneário. Tenho de vestir uma ridícula tanga descartável, com um lado mais estreito e outro mais largo. Decido pôr o lado mais largo para a frente, o que se revelou desconfortável, mas correcto. Nestes cinco dias, vestiria muitas tangas e confesso que no fim já nem ligava à figura, para mais pré-obesa, que fazia durante os tratamentos. .O copo proibido.Volto para o quarto, vejo Portugal ser eliminado pela Alemanha em ecrã plano e vou jantar ao Belvedere com a minha mulher, já que comemoramos uma data. Ela, que jantou pratos normais, não se contém e solta uma gargalhada quando, após a sopinha de legumes, colocam um minúsculo bife grelhado à minha frente. Lembro-me então que, ao almoço, me pareceu ver ironia nos olhos do chefe quando me disse que ia ter um bife ao jantar... Mas a verdade é que fiquei saciado e nem invejei o magnífico fideuá (que conheço de tempos mais felizes) que ela comeu. Nesse primeiro jantar, cometo a única infracção em todo o meu internamento. Como a nutricionista me tinha dito que podia beber dois decilitros de vinho ao jantar, peço um copo de tinto para acompanhar o bife e fazer um brinde à data que comemorávamos. Soube depois que não deveria tê--lo feito. Ali, às refeições, só água, mas o pessoal do hotel tem instruções para não recusar nenhum pedido aos clientes, mesmo o que estão no programa de emagrecimento e já houve casos de gente que não resistiu. Porém, a infracção é comunicada aos nutricionistas, que depois falarão com os clientes..No dia seguinte, levam-me o pequeno-almoço ao quarto. Há uma papa de cereais. Fico irritado. Eu tinha dito que detestava estas papas, que só servem a bebés, antes que eles conheçam coisas melhores. E trazem também café (que, por acaso, estava bem bom), quando eu informara que há mais de 20 anos que bebo chá ao pequeno-almoço. Estas falhas de comunicação entre os responsáveis pelo programa e o room service foram o aspecto mais negativo do programa. Apesar de não ter comido mais do que uma ou duas colheradas, serviram-me mais duas vezes os repugnantes cereais. E no segundo dia ainda tive café em vez de chá. Nem sempre cumpriram os horários do lanche (o que é particularmente irritante para quem está de dieta) e uma vez até se esqueceram de o trazer. Se estivesse a pagar os 2700 euros, que custa o programa de uma semana, teriam reclamação por escrito..Quanto ao resto, tudo correu pelo melhor, vivi nos dias seguintes entre caminhadas na marginal, sessões de "treino" (é esta a palavra que usam para tudo o que é exercício, embora eu não perceba para que é que estava a treinar...) no moderno ginásio, tratamentos com massagens que me "relaxaram", "energizaram", drenaram linfaticamente, eliminaram toxinas, adelgaçaram e por aí fora. As técnicas eram muito simpáticas e preocupadas com o meu bem-estar. Estive ainda na piscina interior de água salgada, com jactos variados, fiz banho turco e sauna. Fiquei impressionado com o arrumo e a limpeza de tudo. Não se vê uma toalha no chão ou um copo abandonado e tudo se passa entre luzes e música suave, num ambiente de enorme tranquilidade..Afinal, resultou?.A dr.ª Teresa Branco, que orienta a parte de nutrição do programa, recebeu-me para uma consulta na penúltima manhã que passei no hotel. Já lá estava há quatro dias. Pesou-me e mediu-me. Tinha baixado quase três quilos e perdido cinco centímetros na cintura e abdómen. Deu-me os parabéns, o programa tinha funcionado. Se fosse uma semana, seria ainda melhor. E, apesar de estar com bastante apetite quando chegava a hora das várias refeições, nunca senti fome. Ela tem uma clínica em Oeiras e propõe a quem faz este programa que lhe dê continuidade, mediante 1200 euros anuais. Fiquei entusiasmado, mas pedi-lhe tempo para pensar. É provável que venha a aceitar..No momento em que estou a escrever, passou uma semana desde que saí do hotel. Tenho procurado seguir o plano alimentar que me deram e retomei os exercícios caseiros. Os movimentados elevadores do Diário de Notícias têm agora menos um ocupante. Mesmo assim, estive na festa dos dez anos do Chafariz do Vinho e não me poupei. Já fui a dois restaurantes para escrever críticas para a NS' e a uma almoçarada em Matosinhos. Amanhã, sigo para a Madeira para conhecer um hotel de luxo com um restaurante renomado. Mas, para já, o meu peso é o mesmo e sinto-me muito mais em forma. Embora já me estivesse a cuidar antes, fiz um exame de sangue e o colesterol baixou de 240 para 219. Vesti umas calças que há dois anos que não me servem e lá consegui apertar o botão. Ainda há muito peso a perder. A luta continua.|