Cientistas observam pela primeira vez uma estrela a engolir um planeta

Cientistas observaram pela primeira vez uma estrela a "engolir" um planeta" - um dos possíveis fins para os planetas do sistema solar.
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Um grupo de cientistas informou esta quarta-feira que observaram pela primeira vez uma estrela a "engolir" um planeta, oferecendo uma antevisão do destino esperado da Terra dentro de cerca de cinco mil milhões de anos.

No entanto, quando o Sol possivelmente engolir a Terra, causará apenas uma "pequena perturbação" comparada com esta explosão cósmica, segundo os astrónomos norte-americanos.

Acredita-se que a maioria dos planetas encontra o seu fim quando a sua estrela fica sem energia, transformando-se numa gigante vermelha que se expande.

Os astrónomos já tinham visto os efeitos do antes e do depois deste processo, mas nunca antes tinham apanhado um planeta no ato de ser consumido.

Kishalay De, investigador pós-doutorado no MIT, nos Estados Unidos, e principal autor do novo estudo, disse que a descoberta acidental desenrolou-se tal como numa "história de detetives".

"Tudo começou há cerca de três anos, quando eu estava a analisar os dados do estudo Zwicky Transient Facility, que capta imagens do céu todas as noites", disse Kishalay De numa conferência de imprensa.

O cientista deparou-se com uma estrela cujo brilho aumentou subitamente mais de 100 vezes num período de 10 dias.

A estrela encontra-se na galáxia Via Láctea, a cerca de 12.000 anos-luz da Terra, perto da constelação de Aquila, que se assemelha a uma águia.

O investigador tem andado à procura de sistemas estelares binários, nos quais a estrela maior cria explosões muito brilhantes chamadas "outbursts".

Porém, os dados mostraram que esta explosão estava rodeada de gás frio, sugerindo que não se tratava de um sistema estelar binário. E o telescópio espacial de infravermelhos NEOWISE da NASA mostrou que a poeira tinha começado a sair da área meses antes da explosão.

Mais intrigante ainda foi o facto de a explosão ter produzido cerca de 1000 vezes menos energia do que as fusões entre estrelas observadas anteriormente.

"Perguntamo-nos: o que é 1000 vezes menos maciço do que uma estrela?" disse De. A resposta estava perto da Terra: Júpiter.

A equipa de investigadores do MIT, Harvard e Caltech estabeleceu que o planeta engolido era um gigante gasoso com uma massa semelhante à de Júpiter, mas estava tão próximo da sua estrela que completou uma órbita em apenas um dia.

A estrela, que é bastante semelhante ao Sol, engoliu o planeta durante um período de cerca de 100 dias, começando por "mordiscar" as suas bordas, que ejetaram poeira.

A explosão brilhante ocorreu nos últimos 10 dias, quando o planeta foi totalmente destruído ao mergulhar no interior da estrela.

Miguel Montarges, um astrónomo do Observatório de Paris que não esteve envolvido na investigação, notou que a estrela era milhares de graus mais quente do que o planeta.

"É como colocar um cubo de gelo numa panela a ferver", disse à AFP.

Morgan MacLeod, pós-doutorado na Universidade de Harvard e co-autor do estudo, publicado na revista Nature, disse que a maioria dos milhares de planetas descobertos fora do Sistema Solar até agora "acabarão por sofrer este destino".

Quando o Sol se expandir para além de Mercúrio, Vénus e a Terra, dentro de cerca de cinco mil milhões de anos, estes planetas terão "perturbações menos dramáticas" porque os planetas rochosos são muito mais pequenos do que os gigantes gasosos, explicou MacLeod.

"De facto, serão perturbações muito pequenas na produção de energia do Sol", frisou.

Contudo, mesmo antes de ser "engolida", a Terra já será "bastante inóspita", porque o Sol já terá evaporado toda a água do planeta, acrescentou MacLeod.

Ryan Lau, astrónomo e co-autor do estudo, acredita que a descoberta "fala da transitoriedade da nossa existência".

"Depois dos milhares de milhões de anos que dura a vida do nosso Sistema Solar, a nossa própria fase final irá provavelmente terminar num clarão final que dura apenas alguns meses", disse num comunicado.

Agora que os astrónomos sabem o que procurar, esperam que em breve possam observar muitos mais planetas a serem consumidos pelas suas estrelas.

Só na Via Láctea, esse fenómeno pode acontecer uma vez por ano, disse De.

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