Chegou a pós-globalização?

Publicado a
Atualizado a

Depois de largas décadas de globalização, os acontecimentos marcantes dos últimos anos, em particular a pandemia e a guerra na Ucrânia, fizeram chegar "velhas" preocupações aos centros de decisão política. Hoje, as ambições geoestratégicas desafiam a interdependência económica.

Neste contexto de mudança, Joe Biden - num raro caso de cooperação entre Democratas e Republicanos - avançou com um plano massivo de investimento para recuperar a liderança industrial dos EUA. Na transição energética e na soberania tecnológica, o IRA ("Inflation Reduction Act") promete guiar o futuro da política industrial nos quatro cantos do mundo.

No IRA, contudo, encontramos também uma visão protecionista. Na versão atual, não será inofensivo para terceiros, a começar pela União Europeia. Por exemplo, limitará os apoios públicos para a compra de carros elétricos somente a construtores americanos. Basta pensar no peso da indústria automóvel na economia europeia para compreender a dimensão do problema.

Os esforços europeus para mitigar os aspetos negativos do IRA passam por impedir uma escalada do protecionismo e defender um mecanismo de cooperação multilateral, onde todas as partes possam trabalhar em conjunto para objetivos comuns, nomeadamente a descarbonização. Também por isso integro uma missão dos Socialistas Europeus aos EUA, a iniciar-se hoje, onde o tema estará no topo das prioridades.

A Europa, porém, não pode ficar em suspenso à espera da compreensão de terceiros. Aliás, será mais provável atingir um acordo se demonstrarmos capacidade de iniciativa e autonomia. A Comissão Europeia deu o primeiro passo, com uma proposta assente na flexibilização das regras sobre ajudas de Estado, isto é, facilitando os critérios a cumprir para conceder apoios públicos às empresas.

Mas esta proposta tem duas grandes limitações.

A primeira é a integridade do mercado interno, que seria minada pelas brutais diferenças na margem orçamental dos Estados-membros. Para referência, no último ano, quase 80% das ajudas de Estado na UE foram concedidas por dois países: Alemanha e França. A proposta da Comissão corre o risco de se tornar num plano franco-alemão e não europeu.

A segunda é a sua dimensão, muito aquém do IRA. Depois da quebra económica provocada pela pandemia e da instabilidade decorrente da guerra na Ucrânia, a generalidade dos países europeus tem menos capacidade para investir.

Por isso, para que a resposta europeia esteja à altura, ambas as lacunas devem ser corrigidas através da criação de um novo fundo europeu, com financiamento comum para investimentos em infraestruturas críticas, tecido produtivo e inovação - tendo sempre em vista a transição climática. Seria um instrumento essencial para corrigir as disparidades entre os 27 países da UE, mas também para afirmar a competitividade internacional da indústria europeia.

Este caminho não deve significar o fechamento económico da UE. A virtude está na complementaridade entre política industrial e abertura às parcerias internacionais com países que partilham os nossos valores e objetivos ambientais e sociais. É desta forma construtiva que a Europa pode afirmar uma terceira via para o pós-globalização: mostrando que entre a concorrência desregulada e o protecionismo "orgulhosamente só" há muita margem para soluções moderadas.

Pela primeira vez na história, Portugal vai competir no mundial de futebol feminino. A grande vitória no playoff de apuramento, já em tempo de descontos, põe à vista o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos: por todas as atletas, pelo corpo técnico e pela Federação. Estão de parabéns!

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt